Falta de proteção e medo: o dia a dia de enfermeiros do Celso Ramos contra o coronavírus

Atualizado

“O maior medo é a questão das testagens, que não são feitas. São muito casos subnotificados, a não ser que a pessoa chegue em estado muito grave. É a pior crise que já passei na profissão”. Este é o relato de uma enfermeira que trabalha na linha de frente do Hospital Governador Celso Ramos, em Florianópolis, no combate ao novo coronavírus (Covid-19).

A reportagem do nd+ conversou com dois profissionais da unidade da rede estadual de saúde. A identidade dos trabalhadores será preservada.

Hospital Governador Celso Ramos, em Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/ND

Estrutura

De acordo com a enfermeira, a emergência do hospital está organizada “na medida do possível” para receber casos respiratórios. Porém, os profissionais temem que na próxima semana haja um aumento na demanda de casos da doença.

Ao todo, são três espaços para atender pacientes de Covid-19: duas salas dentro da emergência e uma terceira no andar de cima. Um funcionário fica na recepção orientando os pacientes. Quando há sintomas respiratórios, a pessoa recebe umas máscara e é encaminhada a uma destas áreas especiais.

Questionada se o hospital teria estrutura para receber uma grande demanda de pacientes com coronavírus, a enfermeira acredita que há necessidade de reforço na equipe.

“Hoje a gente precisaria de mais uns seis técnicos à noite para ficar tranquilo, e mais uns dois enfermeiros, sem ter que um ficar cobrindo uma ou duas salas, e ficar com um técnico sozinho para atender vários pacientes”, avaliou.

O plantão noturno tem 11 técnicos de enfermagem e três enfermeiros, detalha a profissional.

Leia também:

Impacto emocional

Muitos funcionários estão abalados com a situação, conta a enfermeira. “Há técnicos que não conseguem trabalhar ou mesmo ficar no ambiente em que recebemos pacientes com quadro respiratório”, afirma.

“É muito triste, falta zelo do hospital com os profissionais, a maneira de orientá-los. Ninguém é ouvido, está complicado, nossa equipe está cuidando um do outro”, acrescenta.

Segundo a funcionária, o hospital informou um número de telefone aos profissionais que necessitarem de assistência psicológica.

Família

Os cuidados da enfermeira foram redobrados ao chegar em casa, onde mora com a filha e o marido. “Antes eu era bem tranquila com a roupa do hospital. Hoje o pijama utilizado é lavado no próprio hospital, o calçado fica na rua. Minha filha sabe que só pode me abraçar depois de eu tomar banho”, conta.

“O meu planejamento, caso a situação piore, é acabar dormindo no próprio hospital”, adianta.

No momento, ainda não são necessários plantões estendidos, pois a demanda ainda “não é tão alta”, detalha.

EPIs

Desde o dia 19 de março, a AMB (Associação Médica Brasileira) disponibiliza uma plataforma para denúncias sobre a falta de EPIs (equipamento de proteção individual) para os profissionais da saúde que estão atuando na linha de frente do combate ao coronavírus.

Site da AMB relata denúncias anônimas do Hospital Celso Ramos – Foto: Reprodução

No portal há duas denúncias envolvendo o Hospital Celso Ramos. O primeiro relato afirma que faltam máscaras tipo N95 ou PFF2, óculos ou face shield, luvas, capote impermeável e álcool gel. O segundo relato denuncia a falta de máscaras, óculos e gorros.

A reportagem questionou a profissional do hospital sobre o assunto, que confirmou a situação:

“A gente deveria receber um óculos por profissional – receberam 300 pares para o hospital inteiro. O avental recomendado é impermeável, o que temos agora é o mesmo de sempre, uma secreção pode passar por ali. Imagina o psicológico sabendo que não temos segurança? Eu e meus colegas nos sentimos largados, não há preocupação com os funcionários”, lamentou a enfermeira.

Faltam testes para confirmar casos no hospital

Segundo relato de outro profissional, ao todo foram atendidos 26 casos suspeitos de Covid-19 no hospital. Até esta terça-feira (31), apenas um deles tinha sido confirmado e já liberado para o isolamento domiciliar.

Há seis pacientes internados, sendo dois na UTI, com suspeita de coronavírus. “No momento, o Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública) esta sem kits para fazer novos testes”, relatou o profissional.

“Sendo sincero, acredito que não estamos preparados para um pandemia deste porte, esta é a verdade. Ninguém está pronto e não temos a estrutura também”, lamentou o profissional.

De acordo com a enfermeira, nem todos os casos leves são notificados, como orienta o Ministério da Saúde.

“A gente notifica profissionais, gestantes, pessoas que procuram o hospital. Os números são muito maiores, isso será mostrado com os testes que devem chegar pra gente fazer nesses pacientes”, afirma.

Nota do Governo para hospitais – Foto: Reprodução/ND

Contraponto

A reportagem entrou em contato com a secretaria de Saúde do Estado, que não confirmou o número de casos da unidade. “Os números divulgados pelo governo são apenas os dos relatórios diários por cidade”, disse por meio da assessoria de imprensa.

Questionado sobre a falta de testes, das denúncias por falta de EPIs e sobre a parte estrutural do hospital, o governo comentou apenas a situação dos kits de testagens:

“Uma compra emergencial realizada pela SES possibilitará a chegada de mais dois lotes de testes: um de 600 unidades até a sexta-feira (3) e outra de 4800 testes, com previsão de entrega no início da próxima semana”, diz a nota.

Leia a nota na íntegra:

Nesta quarta-feira (1) 192 testes para detecção da Covid-19. O material foi enviado pelo Ministério da Saúde e produzido na Bio-Manguinhos, a unidade produtora de imunobiológicos da Fiocruz. Uma compra emergencial realizada pela SES possibilitará a chegada de mais dois lotes de testes: um de 600 unidades até a sexta-feira (3) e outra de 4800 testes, com previsão de entrega no início da próxima semana.”

Casos em Santa Catarina

Conforme o mais recente balanço do governo do Estado, até a noite de quarta-feira (1º) havia 247 casos de coronavírus em Santa Catarina, com duas mortes. No entanto, por causa da falta de testes, o número deve ser maior.

Apenas nesta quinta-feira (2), prefeituras confirmaram mais três mortes, de moradores de Florianópolis, Criciúma e Antonio Carlos. Assim, o Estado já tem cinco vítimas da doença.

Saúde