Faltaram as pernas, mas SOBROU CORAGEM

Bom exemplo. José Francisco superou todos os obstáculo para seguir com sua vida e casamento

Fabrício Porto/ND

Dia a dia. Nada é obstáculo para José Francisco, que cuida da casa, dirige e ainda se arrisca como mecânico de carro para adaptar seu carro

Às vésperas de completar 35 anos de casamento, o casal José Francisco Borges Filho, 59 anos, e Marlete da Silva Borges, 51, desfruta da casa recém construída em uma lateral da rua Santa Catarina. Casa que em grande parte foi erguida com as próprias mãos por eles, incluindo o assentamento de 380 m2 de piso cerâmico, a colocação de portas e janelas e detalhes de acabamento.
Enquanto Marlete ainda cumpre jornada diária na mesma empresa há 33 anos, o marido, aposentado, cuida da manutenção da casa, do casal de cachorros tratados como filhos e, quando dá uma folga, se joga num sofá nas dependências dos fundos, um misto de oficina, canil e área de lazer, e se entrega por horas e horas aos jogos de videogame.
Esta rotina normal na vida de qualquer casal em vias de gozar a aposentadoria ganha um ingrediente curioso quando se descobre que o brincalhão José Francisco, o Zé, que anda de um lado para o outro, carrega os cachorros, busca a mulher de carro, sobe escadas e conserta armários, faz tudo isso com apenas metade das pernas. Ele precisou amputar partes dos dois membros por causa da trombose que se manifestou quando tinha pouco mais de 20 anos. E, apesar das dificuldades que enfrentou para aprender a se locomover com os joelhos, leva uma vida normal. Nem móveis adaptados quiz no novo lar.
Nascido em Navegantes, Zé mudou-se para Joinville em1972 em busca de trabalho. Atuou por anos na vidraria do Laboratório Catarinense e na Douat, até que em 1977 voltou para sua terra para casar com Marlete,então com 16 anos. O casal retornou e foi morar em uma pequena casa na lateral da rua Barra Velha, onde Zé, para engordar a renda familiar, passou a fabricar gaiolas. Na mesma época, descobriu que tinha trombose. A doença se manifestou dois meses depois do casamento, e ele precisou contar sempre com o amor incondicional de Marlete para enfrentar as adversidades. Desânimo? Ele reconhece que não foi fácil enfrentar as amputações, mas nunca de abateu. “Se a gente ficar triste, se consome. O importante é ser bonito,” diz entre uma piada e outra, enquanto prepara um café e avisa, a respeito da mulher: “é bonita, mas é minha.”

Ele mesmo fez adaptação no carro
Depois de aprender a andar sem os pés, ele apareceu com outra novidade. Com quase 50 anos, quis aprender a dirigir. O amigo de 30 anos, o despachante José Hélio Salles avisou que não seria fácil obter a habilitação. Mas Zé comprou um Monza adaptado e aprendeu a dirigir sozinho. “Na auto-escola, fui muito bem recebido e tirei a habilitação.”
Hoje, se nega a pagar em torno de R$ 1,2 mil para adaptar um veículo e faz ele mesmo o serviço. “Onde se viu pagar tudo isso para soldar um ferrinho?” A mesma agitação do dia-a-dia, ele já levou para a estrada, trazendo dores de cabeça para Marlete, que não dirige. “Ele já me deu muito susto, em especial quando ultrapassou um carro da polícia na BR-470, e foi multado”, conta ela, ao que Zé retruca: “na BR não é lugar de andar a 60km/h, o policial queria era me tirar um troco”, conta, sem papas na língua.
Outro susto ocorreu há cinco anos, quando ele teve um derrame na direção, quando foi buscar a mulher no trabalho, no distrito industrial. Teimoso, não quis ir para o hospital e dirigiu com um lado do corpo amortecido pela BR-101. Só foi ao médico no dia seguinte. Hoje, Marlete diz que o marido está mais cuidadoso.
Planos para o futuro? Como o casal não tem filhos, ele quer mesmo é aproveitar a casa, comer bem, manter a despensa sempre bem abastecida e o freeezer cheio, assistir a muitos filmes com a mulher, de vez em quando fugir dela e jogar videogame por horas lá no cômodo dos fundos e curtir muito rock. 

Perfil indicado por José Hélio Salles.

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