Faxina é etapa para regulamentar turismo sustentável na Lagoinha do Leste, paraíso do Sul da Ilha

Recategorização para parque natural é caminho para regramento de acampamento rústico, pesca amadora e surfe sem acúmulo de lixo na praia ou nas trilhas da restinga

Parecia pouco, mas chegou a 700 quilos a carga de lixo recolhido entre barracas no “Caribe da Ilha”, como define Armando Monteiro, 53, um dos pescadores que no verão deixa de lado a safra da lula e vira barqueiro no vaivém diário de botes lotados de turistas, com saída do canto esquerdo do Pântano do Sul. A faxina, que será repetida com mais frequência, faz parte do processo de recategorização do Parque Municipal da Lagoinha do Leste em parque natural, para regulamentação das atividades de lazer devidamente readequadas ao SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação).

Marco Santiago/ND

Faxina será repetida com mais frequência, segundo ambientalistas

“Os estudos foram concluídos e o projeto está na Câmara [de Vereadores]. A transformação em parque natural viabilizará o turismo sustentável”, explica o chefe do departamento de implantação e manejo de unidades de conservação da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente), Mauro Manoel da Costa, 49. Paraíso para quem aprecia acampamento rústico em meio à natureza praticamente intocada, o lugar também é ideal ao surfe, à pesca amadora e a caminhadas pelas trilhas que se entrelaçam entre a restinga e a mata atlântica de encosta.

Recolhida por funcionários da Floram e voluntários recrutados entre campistas e banhistas, quarta e quinta-feira (20 e 21), a sujeira de agora estava misturada a lixo de anos anteriores. Garrafas e garrafões de vinho e destilados, latinhas de cerveja e refrigerantes, absorventes e fraudas, resquícios de acampamentos abandonados e muito plástico depois foram transportados em uma das embarcações da Associação de Pescadores do Pântano do Sul até a entrega à Comcap (Companhia de Melhoramentos da Capital).

Todos, se exceção, aprovaram o mutirão e a proposta de regulamentação do turismo ecológico no parque. “Trata-se de uma das mais belas praias da Ilha, merece cuidados especiais”, avalia o padeiro aposentado Hélio Adriani, 72, de Tijucas (SC), que há 40 anos não voltava à Lagoinha. Na semana passada ele guiou grupo de sete parentes para uma semana de pescaria, banhos de mar e de lagoa, sombra e água fresca. “Sem estresse”, sorri.

Barqueiro dá show de perícia

Às vezes, ele lembra um peão no dorso de cavalo xucro, às vezes surfa à esquerda e à direita ou faz zigue-zagues sem rumo enquanto conta a série de ondas e espera o momento certo de furar a arrebentação sem colocar em risco os 10 passageiros a bordo. O que em princípio parece loucura, não passa de perícia do barqueiro Marcelo Ireno Alves, 41, que leva e traz de turistas nas operações de transbordo dos botes à praia.

“Aqui não há margem de erro, nem para falhas no motor”, diz Marcelo, que há 14 anos se segura com a mão esquerda em uma das alças da corda lateral do bote inflável de quatro metros, enquanto com a outra gira o manete do acelerador para dar potência máxima ao motor de 40 cavalos.

Marco Santiago/ND

Barqueiro Marcelo Ireno Alves transporta turistas há 14 anos

Ele e os colegas barqueiros atuam também como salva vidas na praia de 680 metros de mar aberto e fortes correntes de retorno. São pouco mais de 200 metros entre embarcações ancoradas e a praia, trajeto que Marcelo faz com extrema rapidez, mesmo lotado de passageiros e bagagens.

“Vamos encaminhar ofício ao comando do Corpo de Bombeiros e solicitar um posto na praia”, garante Mauro Costa, da Floram. Pelo menos 200 turistas e campistas são transportadas em dias úteis pelas embarcações dos Pescadores do Pântano do Sul. Nos fins de semana, a frequência é de 700 a 800 pessoas, e pelo menos 40% utilizam o serviço dos barqueiros – os demais utilizam as trilhas do Matadeiro e da Armação.

Atividade humana terá controle

A erosão das trilhas, entre elas o caminho íngreme que leva ao topo do morro da Pedra da Coroa, é uma das preocupações do chefe do departamento de unidades de conservação, da Floram, Elias Pires, 48, que também participou da sinalização. Foram instaladas placas orientando os visitantes sobre o que pode e o que é proibido no interior do parque, os perigos de acidentes e, principalmente, os impactos ambientais da presença humana.

“É importante sabermos o número de pessoas que chegam de barcos ou pelas trilhas, quanto tempo ficam e os impactos disso ao ambiente. E definirmos o plano de manejo, com educação ambiental e fiscalização mais intensiva”, diz Pires. A intenção da Floram, acrescenta Mauro, é demarcar áreas adequadas para acampamentos, definir normas também para a pesca amadora no mar ou na lagoa, sem conflito com surfistas ou com quem quer apenas descansar relativamente isolado do resto do mundo.

Extremamente frágil, a Lagoinha do Leste é espécie de miniatura do ecossistema da Ilha, com praia, dunas, restinga, rio, mangue, lagoa e mata atlântica de encosta. “O uso da área precisa ser cuidadoso, para não corrermos o risco de se repetir aqui o que já ocorreu em outros ambientes naturais importantes da cidade”, ressalta o biólogo Danilo Funke, 53. Para isso, a Floram conta com a parceria da comunidade, garante o diretor da Associação dos Pescadores do Pântano do Sul, Nilton Amaro da Costa, 51.

Parque Municipal

Criação: Lei nº 3.701/1992 (decreto municipal nº 8.701)

Área atual/hectares: 789,26, sendo 13,23 de espelho d’água

Novos limites propostos/hectares: 920,54, com acréscimo 131,28

Extensão da praia: 680 metros

Passo a passo

1987 – Decreto 153 define tombamento da bacia hidrográfica como patrimônio natural e paisagístico.

1992 – Lei 3.701 cria o parque municipal, com 453 hectares.

1999 – Lei 5.500: amplia limites para fora da bacia e inclui APPs do entorno, nos morros da Armação, Matadeiro e Pântano do Sul, totalizando 789.26 hectares.

2015/16 – Revisão dos limites e linhas APPs e bordas, com base no Plano Diretor atual, com acréscimo de 131,28 hectares e recategorização para Parque Natural Municipal no SNUC.

É proibido

Parcelamento do solo (loteamentos)

Abertura de vias e qualquer tipo de edificação

Uso de veículos automotores

Caça de animais silvestres

Coletas de plantas nativas

Deixar lixo

Fazer fogueiras

Corte de vegetação

Pesca predatória

Fauna e flora

Mata Atlântica em estágios primário e secundário, restinga, costões e estuários de córregos, cachoeiras, mangues, lagoa e praia.

Ecossistema preserva espécies em extinção no resto da Ilha, como o graxaim (cachorro do mato), gato selvagem, tatu, tamanduá-mirim, quati, gambá, aves costeiras e as comuns da mata atlântica.

Como chegar

Trilhas

Pântano do Sul: Saída a partir da SC-406, a 500 metros da praia. Cerca de três quilômetros íngreme e pedregosa. Caminhada de no máximo 1h30.

Matadeiro: Mais longa, de aproximadamente cinco quilômetros, com saída da Armação. Caminhada entre duas e três horas ao sol.   

Pelo mar: No verão, dependendo do vento e das ondulações, botes de pescadores transportam passageiros, com saídas do Pântano do Sul, a R$ 25 por pessoa.

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