No aniversário de Florianópolis, destacamos quatro iniciativas de impacto nas comunidades

Para celebrar os quase três séculos e meio de Florianópolis, o ND foi buscar histórias que resultaram em benefícios para a cidade e sua população. São poucos, mas bons exemplos de que todos somos responsáveis pelo local onde moramos e cada um pode fazer a sua parte para torná-lo um lugar ainda melhor para viver.

Seja por meio de ações socioeducativas, revitalização de espaços públicos, trabalhos comunitários ou até mesmo registrando o mosaico cultural que forma o povo florianopolitano, esses casos ilustram o quão gratificante e inspirador pode ser realizar algo que se reflete em toda a comunidade e se traduz em uma nova compreensão ou olhar sobre a cidade.

Pequenas ações como reciclar o próprio lixo, ajudar a criar e manter uma horta em seu bairro, fazer um trabalho voluntário podem significar muito para o público alvo dessas atividades. Muitas vezes apenas a interação com a vizinhança já serve para criar novos vínculos e descobrir causas comuns pelas quais vale a pela lutar. Foi assim que muitos começaram e hoje colhem (e repartem) os frutos da realização.

Padre Vilson é responsável por uma transformação social no Monte Serrat na vida de crianças e jovens – Marco Santiago/ND

Fascínio pelas pessoas

Há 42 anos na capital catarinense, o padre Vilson Groh, 64 anos, faz um incansável trabalho socioassistencial e de promoção da educação como geradora de oportunidades para crianças e jovens das periferias de Florianópolis. “O meu fascínio por Florianópolis não é pelos seus monumentos, mas pelas pessoas. E, dentro desse universo, pelo mundo dos empobrecidos, majoritariamente representado pela população negra e suas matriarcas”, revela.

Sua missão é amplificar as vozes da população pobre dos morros, lutando ao seu lado – literalmente – por direitos e oportunidades. Após ações no Morro do Mocotó, visando a regularização de terras e urbanização do local, o sacerdote acabou fixando moradia no Monte Serrat, também no Maciço do Morro da Cruz. “Quando cheguei, em 1983, não tinha saneamento, água nem energia elétrica e morei por 19 anos num barraco de madeira atrás da igreja [Nossa Senhora de Monte Serrat]. Tinha apenas o necessário: uma mesa, três cadeiras, um fogão, uma pia e um colchão. É preciso pouco para viver”, conta.

Sua estadia, porém, marca um período de transformação social nessas comunidades. Após 15 anos de trabalho com os sem-teto, resolveu se dedicar à educação, como forma de gerar oportunidades para esse público, criando o Instituto Vilson Groh, em 2012. A rede oferece apoio assistencial e mais de 30 projetos que incluem cursinhos pré-vestibulares, programas de aprendiz e socioeducativos. Por meio de parcerias com pelo menos oito instituições na Grande Florianópolis e uma em Guiné Bissau, na África, além de cooperação internacional com a Itália, o instituto consegue atender atualmente cerca de 5 mil pessoas diariamente, entre 6 e 24 anos de idade.

“Hoje comemoramos o fato de 54 jovens nossos terem ingressado na universidade, em cursos que incluem Medicina, Odontologia, Engenharia, Arquitetura, Direito e outros”, diz Groh. Para o padre, a juventude representa um enorme capital social que precisa de oportunidades para se desenvolver. “A juventude não é o problema, é a solução. O problema são as estruturas que não têm a capacidade de escutar esse grito, porque o jovem é cheio de ideais”, analisa.

Os resultados positivos também mostram que é muito mais rentável investir em projetos preventivos do que em sistemas punitivos. “Enquanto se gasta uma média de 470 reais com cada criança que ingressa em pequenos projetos socioeducativos, o custo para manter um jovem na cadeia é de 2.700 reais”, diz o padre. “A cidade é como um corpo vivo, que está envelhecendo e que tem algumas partes necrosadas, que são a juventude excluída. Nosso papel é criar oportunidades para que a cidade se torne verdadeiramente igualitária e inclusiva, evitando que esse corpo sofra necroses”, compara.

Radilson revelou, a partir de retratos das pessoas, uma cidade multicolorida – Marco Santiago/ND

População multicolorida

Seguindo a linha de pensamento do padre Groh, na qual a cidade não é formada apenas pela sua arquitetura e monumentos, mas principalmente pelas pessoas que nela vivem, a exposição fotográfica “Floripa em 3×4”, do fotógrafo e historiador brasiliense Radilson Gomes, traz um novo olhar sobre a população da Ilha.

Radicado em Florianópolis há sete anos, o professor de fotografia utilizou câmeras lambe-lambes – equipamento com processo químico de revelação em preto e branco utilizado a partir do começo do século 20, permitindo a produção instantânea das fotos -, para registrar 1030 imagens de pessoas que vivem e passam pela cidade e acabam configurando um retrato antropológico da capital catarinense.

O projeto foi realizado com três câmeras lambe-lambes, uma de 1915 com formato de filme 9x13cm, outra de 1969 com formato 6x9cm, ambas restauradas pelo fotógrafo, e uma construída por ele no formato 13x18cm. “Durante um ano me posicionei em diferentes pontos de Florianópolis, no Centro e em bairros como Santo Antônio de Lisboa, Ribeirão da Ilha e Armação. Conversei, fiz os retratos e a revelação analógica na presença dos fotografados e gravei pequenos depoimentos dos participantes”, explica.

Com isso, Radilson acabou criando um mosaico de identidades individuais e compondo um grande retrato de Florianópolis. O recorte revelou que 25% das pessoas que participaram da intervenção são naturais de Florianópolis. Os outros 75% vêm de outras 288 cidades brasileiras e de 22 países diferentes. Desses ‘imigrantes’, 51% são oriundos de Santa Catarina e outros 49% de outros estados (com predominância do Rio Grande do Sul) e países. “Esses rostos revelam a pluralidade étnica e cultural de quem passa, vive e constrói a identidade de Florianópolis, que é uma cidade multicolorida e plural”, analisa.

A ideia surgiu há 15 anos, quando ele trabalhava como fotógrafo da saúde pública, registrando os atendimentos do SUS pelo Brasil afora. “Sou da primeira geração dos nascidos em Brasília, meus pais e todos os adultos eram imigrantes. Quando chegava no aniversário da cidade só se ouvia sobre os ícones da arquitetura, do urbanismo, do fundador, engenheiro, etc. e não falavam dos anônimos que foram os que construíram efetivamente aquela arquitetura linda e quem ocupava aqueles espaços”, relembra. “Aí resolvi fazer essa provocação, registrando o rosto das pessoas comuns de Brasília com as câmeras lambe-lambe, em 2004”, diz.

A intenção era percorrer as 27 capitais brasileiras fazendo retratos da população e expor para as pessoas vêem, um projeto que ele chama de “Brasil em 3×4”. Porém, o feito ficou restrito à capital federal e só agora, 15 anos mais tarde, chega em Florianópolis, por meio do prêmio Elisabete Anderle, do qual foi vencedor na categoria Patrimônio Cultural e Imaterial, e com apoio da Fundação Catarinense de Cultura.

A exposição Floripa em 3×4, aberta na noite desta sexta (22) vai até o dia 26 de abril, no Espaço Fernando Beck da Fundação Cultural Badesc. O acesso é gratuito e mostra 1300 imagens (incluindo as que não ficaram tão perfeitas) de 1030 pessoas que permitiram ser fotografadas e autorizaram o uso de suas imagens. A mostra inclui negativos e positivos das imagens em diversos tamanhos, em grandes painéis nas paredes e uma instalação com monóculos por onde é possível ver as fotos, como nos tempos antigos. “Mostrar esse trabalho significa devolver à sociedade aquilo recebi para criar o projeto”, afirma.

Alvo de depredações, a praça 15 foi adotada pelo Grupo Koerich para manutenção de seus jardins – Flavio Tin/ND

Recuperação de espaços públicos

Cuidar do Centro da cidade e mantê-lo seguro e bonito, além de um local agradável para uma conversa ou a leitura de um livro não é tarefa fácil. Também não traz retorno financeiro, mas para as pessoas que circulam pelas ruas do Centro de Florianópolis, faz toda a diferença ver uma praça bem cuidada, florida, com bancos que convidam ao descanso ou a uma pausa na correria diária.

É pensando nesse bem-estar que o Grupo Koerich, maior empresa adotante de espaços públicos em Florianópolis, resolveu começar a revitalizar várias praças e outros espaços públicos desde 2010. O trabalho iniciou com a Praça 15, a de maior apelo turístico da cidade, em parceria com a Associação FloripAmanhã. O local vinha sendo alvo frequente de depredações e moradia de pessoas em situação de rua, perdendo a atratividade para quem passava por ali.

Segundo o gerente de marketing do Grupo, Adilson Toll, após anos de depredação da praça durante o Carnaval, a empresa resolveu agir e ajudar a preservar a área central. “Alguém tem que dar esse retorno, precisamos preservar o centro da cidade e mantê-lo ativo, senão vamos ter uma cidade velha, abandonada e um centro onde ninguém quer participar de nada”, declara. “Basta olhar para o Mercado Público, cuja revitalização trouxe muita gente de volta ao centro da cidade”, aponta.

O Grupo Koerich firmou um contrato de concessão com a prefeitura, renovado periodicamente, para a manutenção dos jardins. Mas ao longo dos anos, a empresa acabou fazendo outras intervenções que incluem melhorias no mobiliário e no piso e também a recuperação do coreto. “Essa recuperação ainda vai levar um tempo por conta dos elementos históricos que precisam ser preservados”, explica o gerente.

Mesmo com todo o cuidado e o isolamento do espaço durante os dois últimos carnavais, o local foi novamente depredado após a retirada dos tapumes de proteção. “Cerca de quatro canteiros foram bastante danificados na parte inferior da praça, mas levará cerca de quatro meses até que as plantas e o solo se recuperem”, relata Toll.

Além da Praça 15, o Grupo também assumiu a manutenção das praças Eugênio Raulino Koerich, no Kobrasol, em São José, e das Nações, em Canasvieiras. Outra empresa do grupo, a Woa, adotou as praças Celso Ramos e a dos Bombeiros, no Centro da Capital. E a iniciativa mais recente é a adoção da praça central de Biguaçu. “Como nossa administração se transferiu para a cidade no ano passado, estamos cuidando também deste espaço. É uma forma de estarmos mais próximos da comunidade onde estamos inseridos e manter esses locais tranquilos”, diz Toll.

Ataíde Silva: “O que nos motiva é expandir a educação alimentar orgânica” – Marco Santiago/ND

Horta orgânica comunitária

Outra iniciativa que faz a diferença, é a Horta do Pacuca (Parque Cultural do Campeche), que ocupa um espaço de 4 mil metros quadrados no antigo Campo de Aviação. No local, voluntários da comunidade plantam frutas, hortaliças, ervas e árvores além de produzir adubo orgânico por meio de compostagem.

A horta surgiu em 2015, por meio da parceria entre o Quintais de Floripa, Destino Certo, Amocam (Associação dos Moradores do Campeche), Intendência do Campeche, Conselho de Saúde do Pacuca e Comcap, buscando aproveitar um espaço amplo ocioso no coração do Campeche. “O que nos motiva é expandir a educação alimentar orgânica”, afirma Ataíde Silva, 61 anos, gerente da horta e ex-presidente da Amocam.

O projeto funciona com cerca de 30 voluntários, mas apenas um terço se dedica com afinco quase diariamente para manter a plantação. É o caso dos aposentados Cremair Martins Ribeiro e Elsio Adriano Daniel, moradores do Campeche, e de Ubiratã de Matos Saldanha, morador do Ribeirão da Ilha. Elsio diz que depois que se aposentou vive por ali. “Trabalhei por 35 anos e deixei a vaga para os mais novos. Me criei na roça e agora me dedico a manter esse espaço”, diz, em um breve pausa carregando carrinhos de adubo para os canteiros. Cremair e Ubiratã vêm toda semana para ajudar a replantar as mudas de hortaliças e árvores frutíferas, após o verão. “Tivemos um verão muito quente, agora é hora de refazer todos os canteiros e replantar”, diz Cremair, enquanto remexe a terra.

Mesmo com poucas pessoas, o resultado é surpreendente. a produção inclui frutas como maracujá, goiaba, banana e mamão, mudas de frutíferas (abacate, pitanga, araçá, fruta do conde, acerola e outras), temperos, chás e ervas medicinais e roças de mandioca, melancia, melão e feijão. Oitenta por cento da produção é distribuída gratuitamente em bairros carentes da Grande Florianópolis, como Monte Cristo, Caeira do Saco dos Limões, Areias do Campeche, Brejaru (Palhoça), além de asilos e núcleos de educação infantil municipais. Uma vez ao mês, os voluntários realizam uma feira na Avenida Pequeno Príncipe, também com distribuição gratuita.

Mas o projeto tem objetivos muitos mais amplos. Segundo Ataíde, as metas são transformar o lugar em modelo de auto sustentabilidade energética para todo o Parque do Campo de Aviação (que soma mais de 300 mil metros quadrados). “Queremos produzir nossa própria energia que abastecerá a horta e também o posto de saúde aqui ao lado”, explica. As fontes serão eólica e solar, com placas solares instaladas sobre contêineres que abrigarão auditórios para receber visitantes, estudantes e pesquisadores.

Também há intenção de fazer coleta da água da chuva do posto de saúde e direcioná-la para a irrigação da horta, o que permitiria ampliar a plantação durante o verão. “O projeto está sendo feito em parceria com a Epagri, mas para executar precisa de verba”, aponta Ataíde. “As hortas comunitárias são ferramentas fundamentais para ocupar espaços públicos ociosos,além de ter o papel de alimentar e integrar as pessoas da comunidade”, analisa.

A ideia também é abordar aspectos históricos e culturais da região. “Temos a maior área preservada da rota do correio aéreo francês e essa história do campo de aviação deve ser preservada. Também queremos construir um engenho de farinha e ter espaço para abrigar os animais aqui, para divulgar nossa cultura, criar energia a partir de biodigestores e produzir ovos, mas precisamos de investimentos”, aponta.

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