Florianópolis é a terceira melhor capital do país para caminhar

Atualizado

Um levantamento feito pela ONG Mobilize aponta Florianópolis como a terceira capital do país com melhores condições de calçadas em 2019.

Entre as 27 capitais, São Paulo foi a que demonstrou melhores resultados, com uma nota de 6,93, em uma escala de zero a dez. Em segundo lugar, Belo Horizonte com 6,84, seguida pela capital catarinense, com 6,73. Em último lugar, ficou a cidade de Belém, com nota 4,52.

Resultado do levantamento Calçadas do Brasil 2019 – Foto: Mobilize/Divulgação

A média nacional, considerando todos os itens avaliados, ficou em 5,71. Para a ONG, o valor é considerado baixo, já que a organização havia estabelecido como mínimo aceitável a nota 8.

A avaliação foi feita no ano passado e levou em conta apenas o entorno de edificações mantidas diretamente pelo poder público. Ou seja, o estudo não é uma fotografia de toda a cidade. No levantamento anterior, em 2012-2013, quando calçadas públicas e particulares de 13 capitais foram alvo da primeira edição da campanha, a média nacional ficou em 3,47.

De forma geral, o relatório mostra que as áreas mantidas diretamente pelas prefeituras apresentam condições muito melhores de acessibilidade e para caminhar. Há mais regularidade, maior padronização e oferta de conforto para pedestres.

Por outro lado, estabelecimentos estaduais e federais não parecem têm o mesmo cuidado na gestão desses equipamentos, o que sugere que a proximidade do gestor público proporciona maior controle na qualidade dos
passeios e demais infraestruturas.

Florianópolis

A capital do Estado obteve a melhor nota entre as 27 capitais no item Segurança (7,9) e notas boas nos itens Poluição atmosférica (8,15) e Inclinação transversal da calçada (9,05). Também conseguiu boa pontuação nos itens Regularidade do piso (6,95), Largura da calçada (7,85), e existência de Barreiras e obstáculos (8), três fatores básicos para a acessibilidade.

Notas de Florianópolis sobre avaliação das calçadas – Foto: Mobilize/Divulgação

Porém, há problemas nas Rampas de acessibilidade (5,50). Nos itens de Sinalização, obteve boa média em relação à existência e conservação das Faixas de travessia (7,20), mas perdeu pontos por conta dos tempos de
espera e abertura dos Semáforos para pedestres (5,50). Também não havia Mapas ou sinais indicando os pontos de atração e as rotas mais adequadas para a mobilidade a pé, item que levou nota 0,65.

Embora tenha ficado acima da média nacional, o estado das calçadas na capital catarinense foi considerado ruim, seja pela má conservação do piso ou porque a largura da faixa livre é insuficiente. Foram poucos os trechos com características ideais para o deslocamento confortável das pessoas, especialmente usuários de cadeira de rodas ou para quem conduz carrinhos de bebê.

De acordo com os avaliadores, os frequentes buracos e imperfeições no pavimento, mobiliário mal instalado e ausência de piso tátil tornam o ato de caminhar pelas calçadas da cidade uma atividade perigosa, especialmente para idosos e deficientes visuais.

Observatório da Mobilidade

“Ainda temos postes no meio das calçadas e nossa arquitetura em vários locais é de ruas estreitas e servidões. Aí não tem muito o que fazer, mas precisamos priorizar melhorias nas áreas mais adensadas. Depois, estender para todo o município”, avalia o coordenador do Observatório da Mobilidade Urbana da UFSC, Bernardo Meyer.

Para o coordenador, vivemos em uma cidade com vocação tecnológica, focada no desenvolvimento econômico sustentável, e isso atrai pessoas com maior poder aquisitivo que buscam qualidade de vida.

“Há mais gente buscando estar ao ar livre, então precisamos de espaços públicos adequados e de políticas públicas claras para calçadas, implementando melhorias  e cuidando da acessibilidade para promover a inclusão”, acrescenta Meyer.

O que diz a Prefeitura

Para buscar melhorias, em 2018 a prefeitura de Florianópolis publicou uma revisão do manual de calçadas da cidade, o Calçada Certa. É um guia de projeto e execução que instrui a população sobre a forma correta de
construção e manutenção das calçadas. O documento também revisa as orientações sobre acessibilidade.

De acordo com o secretário de Mobilidade e Planejamento Urbano da Capital, Michel Mittmann, o manual foi um passo importante porque criou regras mais claras sobre a confecção das calçadas. Porém, as ações de mobilidade voltadas ao pedestre vão além do manual.

“Como não dá para melhorar tudo que já está feito, estamos aproveitando obras novas e maiores para aperfeiçoar o entorno. Cito o caso da Ponte Hercílio Luz e das imediações do Parque da Luz, onde já conseguimos revitalizar todas as calçadas, o que poderia não ocorrer caso deixássemos por conta dos proprietários. Dessa forma, obtemos agilidade e padronização”, afirma o secretário.

Áreas de acesso à ponte Hercílio Luz já incluem calçadas adequadas – Foto: Divulgação/PMF

A prefeitura também identifica locais menos acessíveis, em áreas de maior circulação de pessoas (principalmente idosos e portadores de necessidades especiais) para fazer as melhorias. “Já fizemos a padronização das calçadas junto ao Ticen e agora no Largo da Alfândega. Outros dois pontos prioritários onde faremos projetos são os terminais urbanos Tirio e Tican”, aponta.

Mittmann explica que esses locais possuem grande fluxo de pedestres e ficam próximos de equipamentos públicos, como escolas, creches e unidades de saúde, mas as calçadas não estão adequadas. “Acreditamos que com isso os indicadores já começarão a melhorar”, diz.

Outra frente de trabalho é o Plano de Mobilidade, que estabelece ações a longo prazo e deve incluir indicadores para medir a eficácia das intervenções realizadas. “A análise pode levar até mesmo a uma revisão da lei de calçadas, estabelecendo obrigações compartilhadas entre poder público e população e formas de cobrar por isso”, afirma Mittmann.

Calçadas adequadas nas cabeceiras continental e insular da ponte Hercílio Luz – Foto: Gabriel Lain/ND

Falta de continuidade

Para o presidente da Aflodef (Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos do Estado de Santa Catarina), José Roberto Leal, que é cadeirante, ainda estamos longe do ideal. “Já avançamos na questão do transporte público, porém o Centro está inviável para quem usa cadeira de rodas e quer se locomover sozinho, sem ajuda. Isso só é possível na avenida Hercílio Luz e em frente ao Ticen, no restante das ruas centrais é impossível”, diz Leal.

Ele concorda que novas obras preveem acessibilidade, mas chegar até elas é um desafio, pela falta de continuidade. “A gente desce do ônibus e precisa de ajuda para subir nas calçadas”, afirma.

Leal lembra que a dificuldade atinge usuários de muletas, idosos e gestantes. “Há um contingente enorme de pessoas com dificuldade de locomoção que está ‘preso dentro de casa’, o que impede sua inclusão no mercado e na sociedade”, aponta.

Melhores e piores resultados

Nas avaliações das capitais, apenas o quesito de “Inclinação transversal da calçada” obteve nota média (8,50) acima da mínima desejável. Isso porque a maioria dos locais avaliados tem calçadas planas, sem rampas de
garagens na faixa destinada aos pedestres.

O segundo melhor item foi o da “Largura total e da faixa livre em calçadas”, que obteve a nota 7,31. Para a ONG Mobilize, esse é um indicativo de que em equipamentos públicos as calçadas são construídas (e mantidas) com larguras mais generosas.

Já entre os itens com piores avaliações destaca-se a quase inexistência de ‘Mapas e placas de orientação’ para pedestres (média 1,92), mesmo em cidades com grande circulação de turistas. A maioria dos municípios conta apenas com pequenas plaquetas indicativas.

Outro ponto negativo foi a ausência ou precariedade das ‘Rampas de acessibilidade’ (média 4,38) nas esquinas. Frequentemente essas rampas foram mal construídas, incorretamente posicionadas ou encontram-se destruídas por falta de manutenção.

Ainda de acordo com a pesquisa, a maioria dos locais abordados não tem bancos, locais para descanso ou abrigo contra a chuva ou sol excessivo. Nesses itens, as cidades de Belém, Porto Velho, Palmas, Cuiabá, Rio Branco e Fortaleza estão entre as piores. No quesito segurança foi apontada a violência urbana e riscos de assaltos, além da rudeza e velocidade do tráfego motorizado, gerando riscos a quem caminha pelas calçadas.

Metodologia

A campanha Calçadas do Brasil 2019 é uma iniciativa de organizações que lutam para melhorar a mobilidade a pé nas cidades brasileiras. O levantamento foi realizado nos meses de abril, maio e junho de 2019.

Por meio de um formulário elaborado com a ajuda de especialistas, foram avaliados quatro pontos principais: acessibilidade; sinalização para pedestres; conforto para quem caminha; e segurança para o pedestre.

O relatório completo pode ser baixado aqui.

Mais conteúdo sobre

Infraestrutura