Florianópolis se despede de Zé do Cacupé

Atualizado

Um autêntico manezinho da Ilha, contador de causos e piadas, cuja simpatia o transformou em uma personalidade ímpar da cidade. O Zé do Cacupé, ou José Eliseu da Silva, era um dos personagens mais queridos e divertidos de Florianópolis.

Zé do Cacupé em seu armazém – Divulgação/ND

Ele morreu às 5h45 desta terça-feira (25) – horário em que costumava acordar para pescar, após lutar quase um ano contra um câncer de estômago. Viveu intensamente seus 92 anos, cativando as pessoas ao seu redor e contribuindo para a cultura gastronômica da Ilha de Santa Catarina.

Mesmo tão conhecido, nunca perdeu sua essência de homem simples, pescador, apreciador de boa prosa e galanteador. As lembranças deixadas pelo Zé do Cacupé são alegres e engraçadas e sua partida trouxe à tona velhas histórias contadas por ele.

Causos e pasquins

“Certa vez, uma senhora comprou uma lata de leite condensado na venda dele, mas ao chegar em casa viu que o produto estava vencido e veio devolver. Ele devolveu o dinheiro, pegou a faca, abriu a lata e tomou todo o leite condensado. Olhou para a moça e disse para ela voltar no dia seguinte para ver se ele tinha morrido”, conta o neto Tiago Martins.

Com piadas e causos, Zé do Cacupé cativava clientes e amigos – Divulgação/ND

Ele também ficou conhecido por seus pasquins (pequenas sátiras contadas em forma de verso). “Eram sempre sobre alguém ou algo que tinha acontecido com alguém. Daquilo ali ele fazia um pasquim”, diz o filho mais velho, José Carlos da Silva. Um deles conta a história de um anel, do pai do Zé:

“O Eliseu tinha um anel
Cem mil réis tinha enjeitado
Vendeu por cinquenta
Mesmo assim foi fiado

Ficou o Decantero sem a pua
O Bileco sem o calote
O Elizeu sem o anel
Esse que é rapaz de sorte”

Houve ainda uma história extraordinária sobre um enorme camarão que pescou certa vez. Zé do Cacupé teria pedido à esposa para pesar o camarão depois de seco e o mesmo registrou 6,2 quilos. A nora Emir Terezinha da Silva garante que todos comeram a iguaria.

Alegria era sua marca registrada

Tudo para ele virava alguma história ou uma forma de divertir. “Ele vendia uma penca de banana prata por 30 reais, dizendo que era cara porque colhia perto de uma cova onde tinha jararaca, arriscando a vida para apanhar a fruta”, relembra Emir.

“Era alegre e otimista, muito engraçado e tinha uma grande sabedoria”,diz o amigo José Alberto Gerber, morador de São José. “Uma ótima pessoa, que gostava de contar piadas e sempre muito honesto”, afirma Laureana Jordelina Luiz, que trabalhou como ajudante de cozinha no restaurante da família.

Manezinho esperto

Com muito trabalho e boa conversa, Zé realizou o sonho de se tornar comerciante, transformando a pequena ‘venda’ em um armazém, onde servia petiscos à base de peixes e frutos do mar. Com o tempo, o negócio evoluiu e passou a concorrer com os restaurantes similares da Lagoa da Conceição.

Sempre alegre, tocou seu comércio de 1951 até o final da vida. Adorava cantar, especialmente serestas, e pescar na baía norte da Ilha de Santa Catarina, muitas vezes acompanhado do amigo Tilica (Elias Romão da Silva, já falecido).

Em junho de 2015, recebeu a Medalha Manezinho da Ilha Aldírio Simões, honraria concedida a cidadãos nascidos ou criados em Florianópolis que mantêm vivas as tradições do município.

Zé do Cacupé apreciava uma boa pescaria na baía norte da Ilha de Santa Catarina – Divulgação/ND

“Há alguns anos, meu pai disse que estava muito velho. Aí eu disse que era bom porque assim ficava mais tempo com a gente. E foi um grande privilégio ter convivido com ele durante todo esse tempo”, diz o filho Renato Machado da Silva.

Zé do Cacupé foi casado com Zair Machado da Silva (falecida em 2012) e deixa seis filhos, 14 netos e seis bisnetos. O sepultamento acontece às 9h30 desta quarta-feira (26), no cemitério de Santo Antônio de Lisboa, no Norte da Ilha.

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