Frederico Birckholz deixou escrito o relato da sua trajetória como empresário

Folhas amarealadas escritas em alemão conta a origem da Fundição Tupy

Reprodução Arquivo Histórico/ND

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Empresa fundada opr Birkholhz deu origem a uma das maiores indústrias da América Latina, a Tupy

No final da década de 40, um homem quase cego deci­diu que era hora de registrar a própria história, contar aos filhos, netos e a quem ainda estava por vir um pouco de tudo o que viveu e realizou. Chamou um filho – um dos muitos que tivera –, vasculhou a memória e, aos poucos, vol­tou aos tempos de infância, de juventude… Contou as travessu­ras de menino, como aprendeu um ofício, o casamento e a che­gada dos filhos, o difícil início de sua empresa e o acidente que mudou sua vida e o afastou do empreendimento.

Hoje, mais de seis décadas depois, as folhas amareladas pelo tempo, escritas em alemão, guardam a história de uma épo­ca e revelam a trajetória de Frie­drich Wilhelm Birckholz, ou Fre­derico Birckholz, uma das persona­lidades que estão na origem remota do que, muitos anos e mudanças societá­rias depois, iria se tornar uma das grandes organiza­ções da América Latina: a Fun­dição Tupy.

Nascido em 1869 na antiga Ludwigstrasse (hoje rua Enge­nheiro Niemeyer), Frederico era o segundo filho de Carl Wilhelm Birckholz e de Rosa Galm Bir­ckholz, na época, recém-chegados na cidade. Como tantos meninos de sua época, frequentou a escola do padre Carlos Boegershausen quando ela ainda funcionava na atual rua 15 de Novembro.

“A escola era uma construção simples, sem forro, de maneira que se podia ver as telhas da co­bertura. Certa vez em que fiquei retido, ‘de cas­tigo’, subi no vigamento e me escondi de­baixo do teto. O professor Lauer, não podendo me ver quando veio su­pervisionar a sala de aula, foi-se embora, tran­cando a escola e me obrigando a deslizar pela janela. No dia seguinte, recebi pelo feito um castigo. (…) A escola ficava loca­lizada na rua 15 de Novembro, no local onde atualmente fica a Harmonia-Lyra. Pés de laranja enfeitavam uma grande praça que cercava a escola. A constru­ção pertencia a Berner”, ditou ao filho, descrevendo e identi­ficando o local onde provavel­mente ficava a primeira sede da escola do padre Carlos. As aulas, entretanto, não ocorriam em um só lugar.

“A primeira, segunda e ter­ceira classes eram minis­tradas em duas áreas separadas. Pela manhã, na Ludwigstrasse, onde Willy Boehm morava nos fundos. À tarde, as aulas eram ministradas na diretoria (na rua do Príncipe, casa de Luís Niemeyer, filho de Ludwig Niemeyer). O quarto ano era le­cionado na nova construção da escola da comunidade, na rua padre Carlos”.

A “nova” construção anos depois foi sede da Prefeitura e nos anos 70 foi demolida para a abertura da avenida Juscelino Kubitschek, no centro.

Os estudos foram até os 14 anos – época da confirmação na Igreja Luterana. A partir deste momento, era a hora de apren­der uma profissão. Na prática, longe da família e já ganhando o próprio sustento e ajudando em casa. “Fui ser aprendiz aos 14 anos, com meu tio Band, que era ferreiro na Estrada da Serra, km 11. Tive que trabalhar duro, pois construíamos apenas carroções e instrumentos para a lavoura. Certa vez, queimei meus pés e as pernas incharam até os joelhos. Eu morava na casa do meu tio Band e dormia no pa­lheiro. Às vezes, eu desejava a morte, tão duro era o trabalho na ferraria. Queixei-me a meu pai, mas ele não teve compreensão e tive que aguentar (…). Meu paga­mento: 5.000 réis por mês, que eu repassava para os meus pais”.

Um aprendizado que durou quatro anos. Depois foi traba­lhar em São Bento do Sul, onde conheceu a moça que seria a sua primeira esposa.

A família decidiu o seu destino

 Apesar de ser adulto, já trabalhar e ganhar seu próprio sustento, era a família quem determinava o que fazer da vida. Ele bem que queria seguir para o Planalto, mas os pais decidiram que seu destino era ir para Santos, onde já morava um filho. “Vendi meu cavalo e fui de navio para Santos. Foi minha primeira viagem por mar. (…) Nós embarcamos em São Francisco em uma barcaça. O barco estava lotado de militares, de maneira que só encontramos lugar no deck. Tivemos tempestade durante a viagem e tivemos de nos amarrar. A tempestade durou até Paranaguá e a viagem durou dois dias. Fui recebido no porto de Santos por meu irmão August. Santos naquela época não tinha cais, somente ponte de embarque”, contou.

Com a ajuda do irmão, no dia seguinte estava empregado como auxiliar na bancada de limagem, na Cia. de Transporte de Santos, com um salário diário que só dava para comer. Quinze dias depois, surgiu uma vaga na fornalha e o salário quadruplicou. Não que fosse muita coisa, mas já dava para sobreviver e até juntar uns trocados. Daqueles tempos, o que mais o marcou foi a epidemia de febre amarela, de 1891.

“Quando íamos ao trabalho pela manhã, havia sempre cadáveres nas ruas, tão terrível foi esta epidemia. Eu também peguei a febre e oscilei 14 dias entre a vida e a morte. Dois dias após a convalescença, já tive que perfurar molas. Durante este trabalho, soltou uma lasca e atravessou um nervo da minha mão esquerda, entre o polegar e o indicador. Após três semanas pude trabalhar normalmente.”

O início da empresa em Joinville

 Em Santos, ele conseguiu juntar dinheiro para casar e ter a primeira filha. E depois, viúvo e desorientado, conheceu a segunda esposa, Amalie Franziska Maehl, a Francisca, com quem voltaria para Joinville e teria outros oito filhos. Nesta época, 1897, se associou a Alwin Stamm para abrir uma pequena oficina na antiga Schuetzenstrasse (atual rua Pedro Lobo), onde hoje fica o Shopping Mueller. Lá construíam coches e grades de ferro. Quando a sociedade foi rompida, em 1905, Birckholz continuou o negócio. Neta de Francisca e Frederico, Irmgard Vogelsanger, a Schnuka, aos 88 anos lembra as histórias que ouviu da avó: “Grávida, ela ajudava a manter o fogo aceso na firma”, conta, revelando como a família se envolvia no trabalho.

“Até 1909, trabalhei sozinho e então fiz sociedade com Klimmeck. A oficina foi ampliada com a instalação de uma fundição, onde eram fabricados metais. Três ou quatro anos depois instalamos uma fundição de ferro. Compramos tornos, máquinas de furar etc… Fabricamos bombas, serras circulares, serras de fita, moinhos e outros produtos”, narrou Frederico Birckholz em suas memórias. Logo um novo sócio viria ajudar a impulsionar o empreendimento, que já se mostrava promissor.

“Por intermédio de Arp, Keller mandou trazer máquinas da Alemanha. Foram emprestados 40 contos de réis. Enterlein foi admitido na firma como engenheiro e, mais tarde, como sócio. Assim, passamos de Birckholz & Klimmeck para Birckholz, Klimmeck & Enterlein. Enterlein emprestou de Max Keller 40 contos de réis. Portanto, Keller participava com 80 contos de réis, com responsabilidade limitada.”

Em 1922, o antigo sócio Augusto Klimmeck saiu da empresa e foi feito um novo contrato. No livro “A Estratégia da Confiança”, que narra a história da fundição Tupy, o jornalista e historiador Apolinário Ternes deu uma dimensão do que isso significou na época: “Nessa segunda década do século, passa a segunda maior fundição de Joinville, perdendo apenas para a fundição de Otto Bennack, onde eram produzidos equipamentos especiais”, escreveu.

Tragédia na fábrica mudou sua vida

 Em 23 de março de 1923, um acidente iria mudar a vida de Frederico Birckholz e determinar sua saída da empresa que fundou. Schnuka conta que o avô costumava orientar os funcionários a não acender fósforos no local, devido ao risco de explosão. Naquela noite, ele mesmo quebrou a regra. “Ele acendeu e explodiu”, explica a neta. “Aconteceu a desgraça: perdi a visão por uma explosão a gás”, disse Birckholz em seu relato, lembrando que outros infortúnios ocorreram na família, na mesma época: um filho teve apendicite e outro paralisia infantil.

Para o empreendedor, a narrativa terminou ali. “O resto você conhece, meu rapaz…”, ditou ao filho. O livro “A Estratégia da Confiança”, entretanto, revela um pouco mais daquele momento: “A explosão de acetileno deixou Frederico completamente cego de uma vista e com apenas 20% de visão na outra. Foram semanas de sofrimento terrível. Depois de muitos meses, em Blumenau, um cirurgião lhe extirpava um dos olhos, já infeccionado. O acidente não mudou apenas a vida de Frederico Birckholz para sempre. Mudou também o destino da empresa. Por força de contrato e em razão da impossibilidade para o trabalho, afasta-se o fundador”, informa o livro. Frederico levou a mágoa por toda a vida: “Fui praticamente forçado a sair da firma”, deixou registrado em suas memórias.

O trabalho na extração de cal

Sem os recursos necessários em Joinville, Frederico Birckholz ia a Blumenau para se tratar, mas mesmo assim, perdeu totalmente uma vista. “No fim, estava quase totalmente cego”, diz a neta Schnuka, que guardou por décadas o relato do avô. Ela conta que em um dia muito claro, destes de céu azul, em Curitiba, ele se emocionou ao conseguir ver o rosto da filha. “Ele pegou o rosto da minha mãe nas mãos e disse: ‘Depois de muitos anos, eu te vi’”, recorda.

Tempos depois do acidente, ele comprou uma caieira, onde trabalhou em parceria com o filho Conrado. O filho foi morar na região entre o Linguado e São Francisco do Sul, onde ficava a empresa, e administrava o negócio. Frederico continuou a morar na rua Pedro Lobo, onde hoje tem o edifício que leva o seu nome. Ao lado de sua casa tinha o jardim da esposa, Francisca, e logo em seguida o rancho onde ficava o depósito de cal. Porém, mais uma tragédia se abateu sobre a família.

Um dia Conrado morreu repentinamente, durante uma viagem de barco a Joinville, após respirar monóxido de carbono. “Os meus avós, velhinhos, enterraram o filho”, recorda a neta. Já Birckholz morreu em 1956, aos 87 anos. Nas lembranças de Schnuka ficou um avô que nunca reclamava e, quando alguém se queixava de suas pequenas doenças dizia: “Você nasceu são, você é são, você não tem nada.”

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