Freguesia, música e cultura açoriana encantam visitantes do Ribeirão da Ilha, na Capital

São 213 anos completados neste mês e muitas histórias que vão além das paredes feitas de pedra, cal e óleo de baleia, construídas por escravos. A Igreja Nossa Senhora da Lapa, em estilo colonial, erguida na parte mais alta da praça da antiga freguesia do Ribei­rão da Ilha, costuma receber entre 60 e 100 visitantes por final de semana, dos muitos que passam para co­nhecer o lugar – de calmaria, das tardes de brisa mor­na, do cultivo de ostras e da culinária portuguesa – ou simplesmente para se sentar à sombra entre o mar e a Rodovia Baldicero Filomeno e assistir ao pôr do sol.

Igreja em estilo colonial Nossa Senhora da Lapa foi inaugurada em 1806 e é atração certa no centrinho do bairro - Marco Santiago/ND
Igreja em estilo colonial Nossa Senhora da Lapa foi inaugurada em 1806 e é atração certa no centrinho do bairro – Marco Santiago/ND

Nascido e criado no Ribeirão, Luiz Otávio Costa, de 26 anos, é como um guardião da igreja, funcionário de uma empresa de segurança. Na verdade, ele é bem mais que isso. “Nasci e moro aqui, perto da capelinha (ainda mais antiga)”, diz ele, que conta aos turistas como tudo começou, conhece datas e personagens.

Agora, as portas do templo são mantidas aber­tas – até dezembro só era assim em dia de missas, aos domingos, segundo o pároco. No ano passado, a imagem da santa trazida de Portugal e objetos li­túrgicos centenários foram furtados. Mas tudo rea­pareceu depois. O padre Antônio Teixeira explica que a ideia é que essas relíquias – turíbulos (para incen­sos), taças, ostensórios e outras – fiquem à mostra do público no Império, edificação vizinha à igreja que sedia os festejos ao Divino Espírito Santo e que guar­da pertences do século 18.

A igreja começou a ser construída em 1763, logo após a chegada dos açorianos, foi inaugurada em 1806 e conserva algumas das características originais – a freguesia, como outras da Grande Florianópolis, é tombada patrimônio nacional. Há pinturas antigas que podem ser vistas logo na entrada, decorando o es­paço que era ocupado pelo coro. A imagem da santa, em destaque no altar, já passou por restauro.

O aniversário da paróquia Nossa Senhora da Lapa, a santa da gruta, é um convite para se reviver o passado e conhecer um pouco da cultura local, onde a música é uma de suas expressões. Tanto que a So­ciedade Recreativa e Musical Lapa ou simplesmente Banda da Lapa existe há mais de 100 anos. A fregue­sia, aliás, recebe anualmente o Floripa Instrumental, que alcançou no ano passado a nona edição.

Uma tradição musical

Com dois filhos músicos, um dos quais saxofonista e regente da Banda da Lapa e o outro cla­rinetista em uma banda militar no Rio Grande do Sul, José Carlos Correa, 65 anos, é o presidente da Sociedade Musical que hoje tem 25 integrantes e não pode faltar às festas da localidade. Ele conta que tudo começou pelo esforço de mo­radores, em 15 de agosto de 1896, o mesmo dia da santa padroeira.

“A banda foi formada por pes­cadores”, fala. E de lá para cá, for­mou muitos músicos profissionais. O conhecimento vai sendo passado das antigas às novas gerações, e um exemplo disso é que o mais jo­vem integrante tem apenas 13 anos e o mais experiente, quase 80. Al­guns dos personagens do universo musical do Ribeirão estão em fotos espalhadas nas paredes da sede da banda, que ensaia aos sábados. Outros, ainda alunos, frequentam as aulas oferecidas gratuitamente. José Carlos aponta o estúdio mu­sical que está sendo montado no local e menciona que lá é, também, o Ponto de Cultura Educação Musi­cal Popular de SC, o que assegura a formação dos músicos e a preser­vação dessa cultura da Ilha.

Passado e presente

O Ribeirão de hoje tem muito do passado, mas em nada lembra a quantidade de habitantes da época anterior à colonização. “É a popula­ção mais antiga do Sul do Brasil em 1515”, conta o sociólogo e escritor Nereu do Vale Pereira, de 90 anos, doutor e pesquisador da formação da Ilha em Santa Catarina. Por aqui havia alguns espanhóis e portugue­ses, além dos indígenas, até que, a pedido desse governo, a Coroa Por­tuguesa iniciou os embarques de famílias. “O Ribeirão foi o centro de recepção”, acrescenta. Os casais portugueses que chegaram foram sendo designados às diferentes regiões da Ilha, e 1.750 deles se fi­xaram no Ribeirão, hoje com uma população estimada em 35 mil pes­soas, conforme o estudioso.

O sociólogo foi fundador e está à frente do Ecomuseu do Ribeirão, outro ponto de visitação de estu­dantes, principalmente, e de turis­tas. O local guarda documentos sobre a história e o folclore ilhéu. Há um centro de pesquisas, biblio­teca, arquivo e sala de palestras. “A especialidade é mostrar a dificulda­de que os açorianos enfrentaram quando chegaram”, diz. Não havia água encanada ou luz, nem piso ou banheiro. Esse contexto da época pode ser visto no museu, que é uma antiga propriedade rural.

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