Governo de Santa Catarina negocia restauração da ponte Hercílio Luz com empresa dos EUA

Companhia que construiu a estrutura, entre 1922 e 1926, pode ser contratada para a segunda etapa de reforma

Bruno Ropelato/ND

Atualmente, a reforma iniciada está interrompida 

O governador Raimundo Colombo embarcou ontem em sua primeira missão oficial de 2015. A comitiva liderada pelo governador irá a Pittsburgh, no estado americano da Pensilvânia, com o desafio de trazer uma solução para o processo de restauração da ponte Hercílio Luz.

Na viagem, Colombo irá se reunir com empresários da American Bridge, mesma companhia que construiu a ponte entre 1922 e 1926, e que pode ser contratada para a segunda etapa de restauração da estrutura. “Queremos uma solução efetiva para a ponte. Esse contato com a empresa que a construiu deve ser muito positivo. Esperamos que todas as tratativas evoluam e que Santa Catarina consiga, enfim, ver seu principal monumento histórico restaurado e aberto para o tráfego”, afirma Colombo.

Acompanham o governador os secretários de Estado da Casa Civil, Nelson Serpa, e da Infraestrutura, João Carlos Ecker, o engenheiro fiscal da obra, Wenceslau Diotallevy, e assessores. Fora da comitiva governamental, também viaja com o grupo o projetista da restauração da ponte e diretor técnico da RMG Engenharia, Jurn Jewe Maertens.

Com o trabalho na Hercílio Luz paralisado desde julho de 2014, o governo acredita que a American Bridge tenha capacidade técnica para assumir a restauração dentro do cronograma e orçamento planejados pelo Estado. “Por telefone, a empresa afirmou que teria interesse de trabalhar novamente na ponte. Precisamos apresentar o que já foi feito e o que esperamos do trabalho dela”, diz Diotallevy. Segundo o governo, se houver acordo, o contrato poderá ser celebrado com base na legislação em vigor. A intenção é mostrar aos órgãos fiscalizadores que a empresa se destaca por possuir experiência na área, conhecer a estrutura e ter tecnologia de ponta para realizar a obra. Também contam a necessidade e a urgência em resolver o impasse da restauração, que se desenrola há aproximadamente sete anos.

Uma província, uma ponte

A construção da ponte Hercílio Luz, nos anos 20, mexeu com Florianópolis a ponto de atrair para as cabeceiras centenas de curiosos todos os dias, mas a fase em que começaram as obras no vão central parece não ter empolgado a imprensa da Capital. Partidários e alinhados a grupos políticos com posturas ideológicas claramente definidas, os principais jornais da Ilha de Santa Catarina se ocupavam de questões administrativas envolvendo as instâncias locais de poder, reservando ao dia a dia da cidade modestas notas nas páginas internas de suas edições diárias. Foi nesse período, entre setembro de 1924 e julho de 1925, que a Byington & Sundstron emitiu as notas de venda da estrutura da ponte de ferro, montada pela U. S. Steel Products Co., de Nova York.

No dia 5 de setembro de 1924, por exemplo, o jornal “A Republica”, quase um porta-voz do Partido Republicano, publicou uma notícia sucinta sobre a obra: “Foram ontem collocadas, no continente, as primeiras peças da estructura matallica da ponte Independencia”. Em 11 do mesmo mês, o diário dava conta de que na véspera terminara a colocação do travamento de oito colunas de viaduto entre o pilar de ancoragem e o mar do lado do continente. “O Estado”, outro periódico importante da época, militava na oposição e ignorava olimpicamente o assunto, por mais que ele estivesse prestes a transformar a cidade, ligando fisicamente Florianópolis ao território catarinense.

Muito mais destaque mereceu, nesse período, o tratamento a que se submetia o governador Hercílio Luz na cidadezinha francesa de Évian-les-Bains. Telegramas enviados ao governador em exercício, Antônio Pereira Oliveira, falavam dos avanços no tratamento e na recuperação de sua saúde – textos que “A Republica”, reproduzia literalmente. O plano da comitiva era de voltar em fins de setembro para que Luz reassumisse o cargo e continuasse tocando as obras que iniciara, incluindo a construção da ponte que levaria o seu nome. (Paulo Clóvis Schmitz)

Reprodução/ND

Poucas linhas noticiavam a construção do vão central à epoca


Saúde do governador era notícia

Com o passar das semanas, crescia a expectativa do retorno de Hercílio Luz, enquanto a montagem da superestrutura metálica seguia rápida, com a “admiravel actividade yanckee (sic)”. A imprensa escrita era um misto de material de agências, notas sociais e muitos, muitos anúncios. Um fato que chacoalhou a cidade, então com cerca de 40 mil habitantes, foi a transferência do cemitério situado na altura do atual Parque da Luz, na cabeceira insular da ponte, para o Itacorubi. Centenas de famílias tiveram que fazer a exumação de caixões e ossos – e nem todas foram eficientes nessa tarefa, porque depois de anos ainda eram encontrados restos de ossadas no local. A volta de Hercílio Luz a Santa Catarina foi adiada, mas “A Republica” não falava no agravamento da saúde do governador. A preparação de uma “alegoria” (miniatura) da ponte para que ele a “inaugurasse” na chegada tampouco foi relacionada à eventual piora da doença. No dia 7 de outubro de 1824, Luz embarcou no Rio de Janeiro com destino a Florianópolis. Morreu no dia 20, sem tempo suficiente para ver a ponte concluída.

Reprodução/ND

Os jornais da época pouco se importaram com a ponte, dando destaque à saúde do governador


Anúncios e poemas

As obras na ponte entraram na rotina de Florianópolis, enquanto os jornais davam notícias esparsas sobre o avanço dos trabalhos. Em meados da década de 1920, “O Estado” destinava a maior parte do espaço de suas quatro páginas a anúncios de produtos como a Cafiaspirina (para combater a dor de ouvidos), as lâminas Gillette, o vinho creosotado (para enfrentar a tísica), as pastilhas Valda e a pomada Minancora. Também havia poemas avulsos e artigos apócrifos.

A ponte Independência, referência a 7 de setembro de 1922, mudou antes mesmo da inauguração para Hercílio Luz, seu mentor. Àquela altura, o nome era o de menos, porque ela efetivamente ajudou a integrar Santa Catarina e evitou que a capital mudasse para outra região do Estado. Mesmo assim, um dos engenheiros responsáveis pela obra, o americano D. B. Steinman, se referiu ao local onde a ponte ficaria como uma “província remota do Sul do Brasil”.

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