Há 14 anos, incêndio no Mercado Público parou Florianópolis

Atualizado

Passava um pouco das 8h da manhã do dia 19 de agosto de 2005 quando um incêndio começou a se espalhar pela ala norte do Mercado Público de Florianópolis.

Fumaça podia ser vista de longe por quem entrava na Capital – Banco de Imagem/Casa da Memória/ND

O descuido com uma fritadeira elétrica num dos boxes onde funcionava uma lanchonete foi o estopim da tragédia, que parou e gerou uma comoção geral na cidade. Foi o maior sinistro que atingiu a casa centenária, trágica consequência de décadas de descaso com a manutenção do prédio – porque houve outros episódios, todos de menor porte, antes e depois deste que enfumaçou o céu da Ilha naquela sexta-feira de sol e temperatura amena.

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Instalado há 37 anos no mesmo ponto do Mercado, o comerciante Renato dos Santos, proprietário do bar Trapiche, assistiu a tudo o que ocorreu naquela manhã e fala da correria e do desespero dos lojistas quando o incêndio fugiu do controle, apesar do esforço dos bombeiros. “No começo, parecia um problema isolado, que seria resolvido como os anteriores, mas em dez minutos o fogo tomou conta de boa parte da estrutura”, diz Santos. Havia muito material inflamável nas quase 50 lojas da ala norte, como calçados de borracha, papel, sacolas plásticas, cola e até fogos de artifício. O socorro chegou logo, mas as chamas se alastraram de forma incontrolável, de um box para outro.

O comerciante explica que o curto-circuito no Box 15 atingiu o óleo vegetal da fritadeira, e o fogo ali provocado foi jogado para dentro do exaustor do prédio, onde também havia acúmulo de gordura. As mangueiras do sistema hidráulico estavam furadas, sem condições de uso. “Foram mais de 90 anos sem prevenção”, destaca Santos, ressaltando que poucos se preocupavam com o risco de um desastre de tamanhas proporções.

O prédio centenário é tombado como patrimônio histórico – Flavio Tin/ND

Além das características do material, a madeira seca da cobertura e muitos anos sem conservação do telhado ajudaram a espalhar as chamas. O calor ficou insuportável na ala sul, e até o comércio das ruas vizinhas foi ameaçado pelo fogo. Antes deste, o incêndio mais sério havia ocorrido em junho de 1988, quando três lojas da ala sul foram destruídas pelo fogo.

Um dos donos de boxes no Mercado, Euclides Damasco conta que perdeu tudo na tragédia de 2005 e que ao chegar, por volta das 10h, só as paredes estavam intactas. Para ele, o incêndio permanece na memória também porque perdeu o estoque de quatro lojas – duas próprias, duas alugadas. “Só sobrou a cinza”, resume. Poucos lojistas estavam prevenidos, porque as seguradoras relutavam em aceitar contratos isolados dadas a idade e as condições precárias de conservação do prédio. E nem os proprietários pensavam muito nisso, pelo alto custo do seguro.

Lojista diz que ainda falta alvará

A fumaça do incêndio do Mercado Público podia ser vista de vários pontos de Florianópolis – de maneira privilegiada a partir do Morro da Cruz, mas também por quem entrava na Ilha pela ponte Pedro Ivo Campos e até da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), na Trindade. Meio hora depois do início da tragédia o teto desabou, aumentando as chamas e a certeza de que nada havia sobrado no interior do prédio. Pessoas choravam no Largo da Alfândega, porque o local sempre foi um ponto de encontro e de comércio popular na cidade. A ala sul, onde ficavam as peixarias, açougues e bares, ficou intacta, mas ninguém teve coragem de comemorar esse privilégio.

Euclides Damasco conta que perdeu tudo e só restaram intactas as paredes – Cristina Cardoso/ND

A multidão foi se dispersando aos poucos, porém logo após o calor do incêndio amainar começou o suplício dos comerciantes com o futuro da ala norte. As obras demoraram  para começar, e só em fevereiro de 2006 é que os lojistas puderam voltar para o Mercado. Em janeiro de 2013, outra loja de calçados pegou fogo por causa de problemas num ventilador, mas o prior foi evitado pelos bombeiros. O lojista Euclides Damasco afima que até hoje, mesmo depois da transformação do mix, falta o alvará de funcionamento do prédio. “A prevenção contra incêndios mudou muito depois da tragédia da boate Kiss, em Santa Maria (RS), seis anos atrás, mas aqui os bombeiros não dão o alvará com medo de se comprometer no caso de um novo incêncio”, diz ele.

Hoje, as duas alas contam com alarme, mangueiras em bom estado, extintores testados regularmente e dutos de água e esguicho para enfrentar qualquer eventualidade. No entanto, por ser um prédio tombato, o Mercado Público não pode ser mexido, a não ser a partir de projetos elaborados por especialistas e executados por profissionais experientes em restauração do patrimônio histórico.

Uma tragédia anunciada

O estado precário das instalações do Mercado Público de Florianópolis, os riscos de sinistros e a forma irresponsável como muitas intervenções eram feitas, de acordo com a vontade de cada lojista, começaram a ser apontados ainda em 2003, quando um diagnóstico foi encomendado aos arquitetos Dalmo Vieira Filho, Lilian Mendonça Simon e Sílvia Sprícigo Vieira. Intitulado “Quanto ao restauro e conservação do monumento”, o estudo já indicava a iminência de uma tragédia como a que ocorreu em agosto de 2005 na ala norte do edifício. Dizia uma frase do documento: “A segurança diz respeito principalmente à grande probabilidade de ocorrência de incêndio no Mercado Público”.

Registro do Mercado Público em 1996 – Divulgação/ND

O grupo apontou fatores de risco como a envelhecida estrutura superior de madeira, as gambiarras na parte elétrica (circunstância agravada pela sobrecarga de força devido ao aumento da demanda de energia) e o acúmulo de material altamente inflamável em diferentes pontos, especialmente nos mezaninos. “Além disso, havia desvio de uso e de propósito”, afirmou ao jornal Notícias do Dia, em 2015, a arquiteta Lilian Mendonça, sócia da Prospectiva – Arquitetura, Restauro e Consultoria Ltda., empresa que prestara diversas assessorias e que naquela altura respondia pelo projeto de restauração das áreas coletivas do Mercado.

As providências recomendadas em 2003 incluíam a execução de um novo projeto elétrico, o desimpedimento dos corredores superiores, maior controle dos estoques, colocação de equipamentos de segurança (como extintores e mangueiras) e proibição do uso dos espaços situados entre o topo dos boxes e a cobertura. Pouca coisa foi feita, e o resultado todos conhecem. Se não fosse a luta por um novo mix, é possível que o Mercado continuasse oferecendo riscos aos funcionários e usuários e padecendo de males históricos como a transferência ilegal de boxes e o não pagamento dos aluguéis à prefeitura por parte de muitos comerciantes.

Paredes tinham reboco à base de cal

Um relatório feito poucos meses após o incêndio de agosto de 2005 informava que as medidas de limpeza do local foram adotadas sem acompanhamento técnico especializado e que todos os elementos remanescentes do interior das paredes de alvenaria haviam sido retirados do local. “Até mesmo algumas paredes que ainda haviam sido poupadas pela ruína foram demolidas”, denunciava o documento. Ou seja, sem critério seletivo, cadastramento ou documentação da situação existente, tudo foi removido, ficando em pé somente as paredes principais.

Incêndio no Mercado Público, em 2005, provocou coluna de fumaça – Divulgação/ND

A ala norte do Mercado foi construída em 1898 e modernizada em 1928, três anos antes da inauguração da ala sul, que é de 1931. Quando o calor do incêndio de 2005 provocou o desprendimento de cerca de 90% do reboco interno, os nichos de vários “óculos” – elementos arredondados que ajudavam na ventilação do interior do prédio – tornaram-se visíveis e expostos.

De formato circular, a sua “redescoberta” impressionou os arquitetos por denunciar aspectos construtivos de uma época histórica específica, a virada do século 19 para o 20. Naquele tempo, o chamado Novo Mercado não tinha divisórias e os vendedores chegavam e instalavam seus tabuleiros para vender o que traziam da lavoura ou do mar. Após o sinistro, um levantamento descobriu que ainda havia reboco original, à base de cal, e também revestimentos cerâmicos colocados individualmente pelos lojistas, que foram retirados na última restauração.

CURIOSIDADES

  • Um gato foi encontrado vivo dois dias após o incêndio dentro de um balcão poupado pelas chamas. “Ele estava com um pouco do rabo queimado e o bigode não tinha mais”, disse depois o lojista que encontrou o bichano.
  • No espólio, depois que o calor diminuiu, um comerciante também localizou um maço de notas de dinheiro. Elas estavam queimadas nas pontas, mas parte permaneceu intacta.

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