“Há uma conspiração para derrubar Bolsonaro”, diz Heródoto Barbeiro à NDTV

Atualizado

O editor-chefe e âncora do Jornal da Record News, o jornalista Heródoto Barbeiro, foi o entrevistado da noite desta quinta-feira (11) no ND Notícias, da NDTV. Ao jornalista Paulo Alceu, Heródoto disse acreditar que “há uma conspiração para derrubar o presidente Jair Bolsonaro”.

“Existe o grupo contra o governo e o grupo a favor. Isso é normal. Se ele irá completar o mandato? Acredito que isso dependa da população”, avaliou.

Confira a entrevista completa:

Dilma [Rousseff] entrou em um processo de impeachment, Michel Temer praticamente entrou. Agora acontece a pressão em Bolsonaro. Falta talvez uma tranquilidade para desenvolver o trabalho?

Se olhar um pouco para trás, teve pedido de impeachment contra o Lula, Fernando Henrique Cardoso. Impeachment contra o Collor. Isso faz parte do jogo democrático brasileiro. Vem desde a época do Sarney quando tivemos a nova constituição do país. Qualquer governante está sujeito a isso.

Você acredita que o presidente Bolsonaro esteja conduzindo corretamente a situação da pandemia?

Na verdade quem está conduzindo a questão da pandemia [coronavírus] não é o presidente. São os governadores e prefeitos. O STF entendeu que nós somos um país federalista. Chegando a essa conclusão, essas decisões têm que ser tomadas pelo Estado e pelo município. Olha para os Estados Unidos. O Trump interfere nisso? Não. Porque lá, mais do que aqui, o poder é local. O nosso país se chama República Federativa do Brasil. Se é uma federação, ele é formado por Estados, e estes precisam ter autonomia. Não acho que necessariamente precise estar nas mãos de um homem só. População deve cobrar dos governadores.

Como você avalia a “insistência” do presidente no uso da cloroquina?

Veja bem, onde é que esse remédio tem que ser discutido? Na ciência, nas universidades, nos laboratórios. Se o médico me disser que eu tenho que tomar, eu vou tomar. Como vou fazer uma questão técnica de um remédio virar uma questão política? É uma coisa impensável.

A condução da maneira como feita e na politização não acabou criando problemas para todos nós?

Acaba criando problemas. Nós enquanto cidadãos, temos que ter o poder na mão. Temos que avaliar esses caras [poderes], seja lá quem for. Se não estiverem, na próxima eleição, vamos botá-los para fora. A gente acaba elegendo sempre os mesmos. O cara tem mandato e foro privilegiado no STF.

Na sua leitura há uma interferência do STF no executivo e legislativo?

Acredito que há sim. A decisão no supremo ao invés de ser colegiada, ou seja, de 11 ministros, ela passou a ser uma decisão monocrática. Um único ministro tem uma cabeça, outro tem outra. Consequentemente cada um puxou para o seu lado. O problema é que somos o STF que mais aparece na mídia. Por exemplo, se você for aos Estados Unidos e perguntar quem são os membros do STF lá, ninguém sabe. O pessoal [do STF] acabou virando “estrela da mídia”. Com isso há um preço a pagar. Uns apoiam e outros não.

O senhor acredita que haja uma guerra de vaidades?

Que há uma guerra de vaidades eu não tenho dúvidas. O pessoal [do STF] não consegue segurar o ego. Não devia misturar isso com seu trabalho com o ministro do Supremo. O ministro é o topo do poder judiciário. Esse pessoal deveria ficar preocupado com isso [com a lei]. Essa participação forte na mídia não ajuda. Quando você expressa uma opinião na mídia, você acaba dividindo a opinião pública.

Qual a sua leitura em relação a decisões monocráticas?

A decisão monocrática deveria ocorrer só em casos extremos, onde não haja tempo de reunir o pleno do Supremo para decidir. Quem também provoca o STF para que ele intervenha no executivo e legislativo, são esses próprios poderes. Quantos deputados, senadores, membros do governo entram com ações no Supremo? Entrando com ações no Supremo, o Supremo se vê no direito de dar uma resposta. Para isso, deveria mudar a legislação brasileira, mas isso é uma briga para cachorro grande.

Qual sua leitura em relação às eleições municipais de 2020?

Não acredito que haverá prorrogação de mandato. Terá eleição esse ano, ainda que não em outubro. Já tivemos no passado esse modelo em que você votava na mesma eleição para vereador, prefeito, deputado estadual, federal, senador, governador e presidente. Houve uma confusão tão grande na hora da eleição. As pessoas tinham que eleger todo mundo e acabam se perdendo completamente na hora da escolha. Precisaríamos ter uma educação política no país muito mais avançada.

Saindo da conversa de política e pandemia, queria saber do Heródoto. Como está a Kombi? (risos)

Eu sempre tive Kombi, mas hoje eu vendi ela, estou a pé. Quando comecei a trabalhar na Record, varias vezes eu fui de Kombi, e quando chegava no portão, o porteiro não abria, eu buzinava e ele não abria a porta, ele falava: “entrega é lá no fundo”. Era uma coisa meio inusual, mas eu gosto de Kombi, tive cinco ou seis na minha vida, minha família andou muito de Kombi, então sabe quando você tem uma paixão? Durante 30 anos eu tive Kombi.

Você falou em família… É de família que vem o budismo? Ou foi uma decisão pessoal?

Ela veio de mim diretamente. Eu sou budista desde os 22 anos de idade, eu fui monge leigo em uma comunidade budista aqui em São Paulo. Aprendi muito e me eduquei numa comunidade budista. Continuo sendo budista, pratico, mas a minha família não, a minha família é formada por católicos, espíritas, pessoas de outras religiões.

No seu entender, com a experiência toda de rádio e televisão, o que mudou com as redes sociais?

É uma experiência extraordinária, pra você ter uma ideia, o Jornal da Record News foi o primeiro jornal da televisão brasileira em multiplataformas. Quando ele nasceu, ele já nasceu na televisão e simultaneamente no streaming, no portal R7. E eu sou uma pessoa que estuda, observa isso, tenho trabalho sobre mídias sociais, e fui colocando o jornal cada vez mais o jornal em varias plataformas. […] Eu gosto muito disso, não tem outra alternativa. Todo mundo tem um aparelho desses aqui (celular), e isso aqui não é só um receptor, é também um transmissor. Então é uma fase completamente nova da comunicação que nós estamos entrando, na chamada ‘4ª Revolução Industrial’.

Paralelo a isso, estamos enfrentando também as famosas fake news, como da pra combater isso?

Fake news no jornalismo sempre teve, desde a época do império brasileiro. Se você olhar alguns acontecimentos históricos, vários foram provocados por fake news publicados em jornal. A diferença é que a internet é uma potência extraordinária, tem um alcance global. Isso faz com que nós, que trabalhamos com jornalismo, tenhamos que tomar muito mais cuidados agora do que no passado. […] Agora é tudo numa velocidade muito forte, e temos que ter o máximo de cuidado pra não divulgar coisas que não aconteceram.

Na pós-pandemia, com um colapso na economia, você acha que vamos sair com rapidez de tudo isso ou vamos passar por uma fase bem delicada?

Tem três letras que podem ilustrar bem sobre a recuperação da economia. Uma é a letra V, caímos rapidamente mas recuperamos rapidamente, essa é uma possibilidade. A segunda é a letra U, ou seja, a gente caiu, ficamos lá no fundo um tempo que a gente não sabe qual é e depois começamos a recuperar. A terceira letra é o W, aquela que cai, sobe, cai, sobe… Então essas três letras de certa forma mostram três caminhos diferentes pelos quais a recuperação pode acontecer. Eu espero, sinceramente, que seja a letra V.

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