História verídica

Toda semana saio, em companhia de Gilmara Santos, para atender escolas e centros de educação infantil, onde contamos histórias, principalmente O Casamento da Dona Baratinha. É uma diversão tremenda porque assumo vários personagens, e, resgatado pelos mesmos e esquecido de que sou o Marinaldo, caio no chão, ronco, invento vozes, me transformo em porco, boi, burro, sapo, e por fim, sou o Seu Ratão. É dos momentos mais divertidos

 Cronista há tanto tempo, colunista há 10 anos, 9 livros publicados, estudando disciplinas do mestrado há 3 anos, e mesmo assim, é rastejando no chão, brincando com a criança, imitando o ruído dos animais naquele espetáculo, que eu me vejo despido de todos os avanços e ranços que os títulos poderiam me dar, e assim, na inutilidade de toda e qualquer filosofia, sou apenas o menino que aprendeu na escola Ana Maria Harger, nos idos dos anos 80, que a curiosidade é que fez com que a girafa ficasse com o pescoço comprido; foi uma história que lá ouvi, da professora Ivone, que também era minha vizinha.

Para a imaginação tudo é possível. Para aquelas crianças eu sou verdadeiramente um rato. Já me perguntaram como eu faço para escapar dos chinelos, e como é viver dentro de uma caixa de sapato, já que sou tão grande. Já choraram assustadas com meu nariz pontiagudo, e já riram muito puxando meu rabo cenográfico, feito com o cinto de couro, fininho, comprado num brechó. Assumindo-me rato, no espetáculo, vem à tona tudo que tenho estudado sobre a capacidade do lúdico, do imagético, em provocar uma transubstanciação, como água virada em vinho na história do Senhor Jesus: eis o milagre.

Pois a imaginação produz esse milagre: ela nos humaniza enquanto que nos diviniza. Ela produz poesia, objeto tão humano e tão divino, transformado ao homem pelas palavras e pelas imagens; porque pra mim poesia nada mais é que uma partícula de Deus em nossos corações. Assumindo-me ridículo, até, aos olhos de adultos desavisados que acham que isso é descartável num mundo onde se fabricam crianças cada vez menos infantes, penso como é exaustivo viver num mundo onde uma minoria acredita, ou se acredita não prolifera, a suntuosidade da força da criatividade como mantenedora do sensível.

Li vários pensadores, li grandes escritores. Ainda viajo como o menino que acreditava que a girafa tem o pescoço assim porque era muito curiosa. Já andei em Andrax, passeei por Shangri-La, subi nas montanhas de Passárgada, conheci as cidades invisíveis de Calvino, me apaixonei pelas Sibilas gregas, morri de medo do Minotauro tanto que sonhei-me preso num labirinto. E era tudo verdade.

Foi verdadeira a emoção, o riso, o medo, o aprendizado, a palavra absorvida, a sensação de pertencimento, o apoderamento da vida pela história produzida. Às crianças dos CEIs, hoje eu sou um rato, muito melhor que o escritor que às vezes é bajulado sem ser entendido. Muito mais verdadeiro, inclusive. Mas, segundo algumas, um rato muito legal. Que é atleta e que ao fim da história, revela-se um camundongo. Que é a mesma coisa sendo outra. 

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