Histórias de verdade – parte 2

A cada 15 dias adentro na Penitenciária Industrial de Joinville para dar oficinas de literatura, com o esperançoso nome A Palavra Liberta. É um trabalho que faço em parceria com a Biblioteca Pública Municipal de Joinville, que levei para lá com o intuito de promover a libertação da poesia, a descoberta dela dentro de homens marginalizados, que acabaram, eles e a poesia, refletindo em mim e produzindo também, libertação, em seus mais diferentes conceitos.

No primeiro momento tive medo. A violência percebida aqui fora deveria borbulhar num aventura sônica e tétrica, mas ela se mostrou suave, quando, na primeira vez em cela, divididos por uma grade verde, 8 homens de braços cruzados me aguardavam, creio que sem perspectivas, a descobrir o que eu iria falar. E eu tinha tanta coisa, tanta pergunta, tanto questionamento, que eu ao olhá-los, me averiguando, sentei-me, abri meu coração, e olhei-os como alunos, sem querer saber que tipo de crimes cometeram, justamente para não acender em mim qualquer tipo de repúdio ou preconceito. Minha função era compartilhar, só não sabia que eu ia tanto receber.

Com o passar das quinzenas, fui apresentando o universo que eu queria que eles se permitissem viajar. Fui comandante. Mergulhado que sou na literatura fantástica, comecei por aí, mostrando o quanto nossa imaginação pode nos limar para o deslumbramento. Mostrei textos, músicas, imagens, conceitos, indefinições…não gosto de definições, pois elas finalizam tudo, e, em literatura, poesia e pensamento, as coisas tendem ser ilimitadas. Em dois meses, estavam escrevendo. Primeiramente as reflexões de sua infância, sem nunca pautar o Depois do Crime, mas sempre o antes: queria resgatar neles aquilo que me eternecia: a mãe, o cachorro, o primeiro beijo, a escola, a primeira letra, o sonho de infância, a pipa, o pião, a corda bamba, o circo, a fantasia. Isso tudo foi parar num papel. Dos 8 alunos, 5 ficaram fixos, e, de homens temerosos com a escrita, hoje tenho 5 escritores em processo evolutivo.

Fabio Colzani escreve livre, brinca com os significados, escreveu dia desses que as cores da terra são mais bonitas que as que estão nos potes. Paulo Ricardo da Rocha é cronista nato, indagador, impertinente como diria minha mãe, observa a sociedade e, mesmo sendo parte da ferida, mostra o tamanho dela. Cleber Gaio é meu mais novo aluno: tem medo da gramática, eu disse: Cléber, perca o medo de escrever, depois a gente corrige… ele gosta de falar do filho, do orgulho de ver que o filho segue caminho oposto. Fernando da Rocha Garbari deu a escrever memórias. Fala da avó, do cachorro que foi atropelado, de si mesmo, quer deixar de ser turrão para ser coerente. Rodrigo Manoel Santana é o cantor da turma, escreve louvores a Deus, em cela nos mostrou habilidades como desenhar, e tem como símbolo de liberdade uma pipa que ele imagina soltar com seu filho Gabriel.

E tem eu: Marinaldo de Silva e Silva, escritor e acreditador, como diria minha mãe, que sonha em libertar pela palavra esses homens. que sabe de suas escolhas mal feitas, de seus caminhos transversos, e inversos aos que eu trilhei, mas que acredita profundamente que o Bem é sempre maior que o Mal, e que o perdão é sempre maior que a angústia, e que a palavra…Bem, a palavra é o verbo que iniciou tudo. Como não se libertar?

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