Histórico da balneabilidade indica condições das praias em Florianópolis em 20 anos

O histórico de balneabilidade da Fatma (Fundação Meio Ambiente) aponta que os locais analisados em algumas praias sempre tiveram o mesmo resultado nos últimos 20 anos. As praias da baía Norte – Balneário (Jardim Atlântico), Matadouro (Estreito) e Beira-Mar Norte – estiveram impróprias para banho em 100% das coletas. Por outro lado, as medições nas praias do Santinho e da Barra da Lagoa, além da Lagoa do Peri, indicaram os locais mais apropriados para banho na Ilha desde 1998.

xx - Rogério Moreira JR/ND

A Fatma mede a qualidade sanitária da água pela quantidade de bactérias (Escherichia coli) a 100 mililitros. Segundo o responsável técnico da fundação, Marlon Daniel da Silva, quando a incidência de duas ou mais amostras for superior a 800 indivíduos ou de uma com mais de 2.000 indivíduos por 100 mililitros, o ponto estará impróprio.

A presidente da Acesa (Associação Catarinense de Engenheiros Sanitaristas e Ambientais), Thainna Cardoso, explicou os motivos de algumas praias estarem sempre com a mesma condição. “As áreas de baía estão mais impróprias porque têm uma hidrodinâmica mais lenta e porque existe esgoto sendo despejado. Normalmente são ligações irregulares na rede de drenagem e, por isso, existe a necessidade de contratar um profissional habilitado para projetar o sistema sanitário”, disse.

Thainna informou que a sinalização de um ponto próprio para banho não isenta o local de estar livre de coliformes fecais. Isso porque a análise pode apontar uma quantidade inferior à estipulada pelo Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente). Por outro lado, ela lembrou que o sistema sanitário pode estar funcionando ou a hidrodinâmica da praia depura os resíduos com mais rapidez.

Outro ponto observado pela engenheira é a densidade populacional nos pontos sempre impróprios. São locais com grande concentração populacional e, por isso, produzem muita matéria orgânica.

Antes próprias, Tapera e Saudade sofrem com a poluição

Principal balneário de Florianópolis na década de 1970, a praia da Saudade, em Coqueiros, concentrava os banhistas pela proximidade com o Centro. Nos anos 80, a praia deixou de ser frequentada em função da poluição e, apenas em 2000, a praia do Continente virada para a baía Sul passou a ter mais análises próprias do que impróprias para banho. O mesmo aconteceu com a Tapera, que a partir de 2003 passou a ter mais análises de pontos impróprios do que próprios.

xx - Flávio Tin/ND
Clóvis costumava tomar banho na praia da Saudade até perceber que a água estava mais suja – Flávio Tin/ND

Das 26 coletas em 2017 na praia da Saudade, apenas duas apareceram como próprias. “Sempre tive o costume de tomar banho nesta praia, mas comecei a perceber a água mais suja nos últimos tempos. Na última vez que entrei na água me machuquei no trampolim e o ferimento infeccionou. Acredito que tenha ocorrido pela qualidade da água”, lamentou o pedreiro Clovis Onir Nascimento, 58 anos, que reside da comunidade da Vila Aparecida.

Já a praia da Tapera teve as 25 coletas neste ano como impróprias. Em 2016, esteve própria em sete das 27 análises. “Depende da hidrodinâmica da praia e da quantidade de esgoto que está sendo despejado. Em locais mais contaminados a hidrodinâmica é menor e, assim, a depuração dos resíduos segue o mesmo ritmo”, disse a presidente da Acesa, engenheira sanitarista e ambiental Thaianna Cardoso.

Campeche preocupa pelo crescimento populacional

O responsável técnico da Fatma, Marlon Daniel da Silva, afirmou que a praia do Campeche preocupa. Nas últimas duas coletas, os três pontos no Campeche apareceram como próprios, mas durante o ano dois pontos, na foz do Riozinho e a 100 metros à direita, tiveram registros de impróprios.

A assinatura para a construção da ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) para atender o Campeche foi assinada em novembro pela Casan. “O problema é o crescimento populacional e a falta de coleta e tratamento de esgoto. As pessoas não constroem as fossas da maneira correta ou simplesmente ligam o sistema sanitário na rede pluvial”, lamentou.

Para Marlon, a Lagoa da Conceição é um bom exemplo da oscilação de pontos próprios e impróprios. Ele informou que a lagoa respira pelo canal da Barra e os pontos mais próximos estão aptos para banho. Já na parte da lagoa depois da ponte, entre o Canto e o Porto da Lagoa, existe a possibilidade de mais locais impróprios. “Percebemos a proliferação de mais algas e a redução do oxigênio neste ponto da Lagoa da Conceição, que fica mais afastado do canal da Barra”, explicou.

Responsabilidade do sistema sanitário é da população

Em locais sem rede de coleta e de tratamento de esgoto, o correto é a construção de uma fossa séptica com sumidouro. Mas não adianta construir sem dimensionar para o número de pessoas que o imóvel possa receber. Diante disso, a presidente da Acesa, Thaianna Cardoso, lembra que a responsabilidade sanitária primária é da população.

“A prefeitura tem a responsabilidade da gestão, mas quem produz esgoto são as pessoas em seus domicílios. Em função disso, a principal responsabilidade é da população que precisa fazer o sistema sanitário da maneira correta”, disse. “O ideal é contratar um profissional que tenha a habilitação para dimensionar a rede sanitária. Normalmente, as pessoas contratam pedreiros que estão acostumados a fazer sempre da mesma maneira, independente do tamanho do imóvel e da quantidade de pessoas nele”, complementou.

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