Ilha conta com recursos hídricos subterrâneos em abundância em 65% de seu território

Aquíferos podem garantir o abastecimento de água no futuro se preservados e cuidados pela população e órgãos ambientais

Daniel Queiroz/ND

A Ilha de Santa Catarina conta com aquíferos em, pelo menos, 65% de seu território. O número é apontado por estudo, publicado neste ano, feito por meio de convênio entre a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais e a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico Sustentável. De acordo com a Fatma (Fundação do Meio Ambiente), é o levantamento mais recente relacionado a essas importantes reservas de água da Capital.

Os aquíferos foram representados por meio de um mapa hidrogeológico, elaborado entre 2008 e 2010. Foram traçados os tipos de aquíferos presentes no território da Ilha e suas características, a partir do estudo das águas e de suas profundidades. O assessor da presidência da Fatma, Flávio Rene Brea Victoria, explicou que, por meio do levantamento, foi possível observar que o Norte e o Sul da Ilha têm água subterrânea em abundância e com qualidade, mas as áreas montanhosas não têm esse tipo de potencial.

“Perto de 45% dos aquíferos são sedimentares, de alto potencial, como o dos Ingleses. Eles são porosos e, por isso, mais vulneráveis à contaminação. Esses são os mais explorados na Ilha com a retirada de água por meio de poços”, completou. Os outros 20% são aquíferos fraturados, como o situado no Sambaqui. Como são mais profundos, ficam mais protegidos da contaminação. Mas, de acordo com o estudo, nos dois tipos de aquíferos, a perfuração de poços menos profundos pode captar águas impróprias para o consumo.

O estudo revelou, ainda, que os aquíferos da Ilha podem apresentar alto teor de ferro e manganês. A presença dos componentes químicos exige um tratamento prévio da água antes de ser ingerida. O levantamento, no entanto, não é detalhado e não mostra, por exemplo, os locais que estão com a água comprometida pela contaminação.

De acordo com o presidente da Fatma, Murilo Flores, o Estado tem interesse em fazer um estudo mais específico, que mostre como está a situação dos aquíferos, sua exploração, capacidade e qualidade. “A Ilha tem um potencial hídrico imenso, que vinha sendo negligenciado. Com um estudo nesse sentido, será possível fazer um projeto de gestão de águas: impor medidas para não danificar os aquíferos”, apontou o presidente.

Infografia Rogério Moreira Jr.

Mapa mostra os locais com aquíferos na Ilha e seus potenciais

Garragens subterrâneas são prejudiciais

Por enquanto, a Fatma utiliza o estudo para avaliar o licenciamento de imóveis a serem construídos na Capital. Os mais críticos são os que têm projeto de garagem subterrânea, que invadem o aquífero. Flores garantiu que estão proibidas as construções desse tipo em regiões como o Campeche, local em que a água vinha sendo bombeada para a rede pluvial por alguns empreendimentos. “No ano passado, tivemos denúncias desse tipo, e agora só licenciamos com a apresentação de projeto detalhado, avaliando caso a caso”, esclareceu o presidente.

Nesses casos, as águas são bombeadas durante a construção, mas o prédio não toma o espaço do aquífero. “As garagens reduzem os locais do lençol, que seriam tomadas por água. Com diversos empreendimentos desse tipo, ficamos na eminência de perder parte da reserva”, completou. Antigamente, os prédios eram construídos na cidade sem  regulamentação. Na avenida Hercílio Luz, no centro da Capital, grande parte dos aquíferos podem ter sido perdidos com as garagens subterrâneas. Houve bombeamento de água para córregos.

A precisão da vara de pessegueiro

O uso da água dos aquíferos é comum pela população local. Muitas comunidades passaram a ser abastecidas pela Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) recentemente e, por esse motivo, dependiam exclusivamente dos poços feitos artesanalmente. É o caso de Milton Manuel de Paula, 45 anos, morador da Vargem Pequena. Ele cavou um poço ao lado de casa, há quatro anos, depois que um conhecido usou uma varinha para detectar se havia água subterrânea em seu terreno.

“O pessoal duvidou que tivesse água, mas tinha. Demorei duas horas para furar com um trado, cavei uns cinco metros. No dia seguinte, a água já estava transbordando. Daí coloquei a ponteira”, contou. Ele toma banho, lava roupa e ingere a água. Milton afirmou que agora só abre a ponteira no verão, quando falta água no Norte da Ilha. O amigo dele, Francisco Pedra da Cunha, 60, garantiu que a água é boa. Ele conhece a técnica da varinha e já ajudou a furar oito poços na região. “Pego uma vara de pessegueiro. Dá 80% de precisão. Pode ser de jambro também. Nunca errei. Ela vira um pouco para baixo mostrando onde está a água”, relatou, mostrando como se faz.

Aldo Antônio Macedo, 81, furou o poço de sua casa, em Santo Antônio de Lisboa, há mais de 40 anos. Na época, a comunidade buscava água no centro do bairro, ao lado do terreno dele, onde hoje se encontram os tanques que as mulheres lavavam as roupas. “Eu continuo usando. Tomamos sempre. Mandamos fazer um teste para ver se é de qualidade. E é. No começo, essa água servia familiares e amigos, mais de oito pessoas”, contou.

Sem controle na perfuração de poços

A Fatma e a SDS (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico Sustentável) não têm controle sobre a quantidade de poços perfurados na Capital. Dessa forma, não há como ter certeza de quanto da água dos aquíferos é explorada, diariamente, na Ilha. De acordo com Fábio Luiz Zandonai, geólogo da SDS, há um projeto em andamento,  nos Ingleses, para cadastramento das pessoas que têm poços, mas não está tendo dificuldades. “Temos 19 poços outorgados na Capital. Todos deveriam ser licenciados, mas a maioria não é. O pessoal teme fazer o cadastro e ter que pagar multa”, explicou.

A Casan é uma das empresas que tem licenciamento e explora o aquífero do Norte da Ilha. Ao todo, são 21 ponteiras espalhadas pelos Ingleses e Rio Vermelho, que captam a água. Antes de ser distribuída para cerca de 100 mil consumidores da região, é tratada na estação de tratamento situada nos Ingleses. A captação média é de 250 litros por segundo, de acordo com Valter Gallina, diretor de operação de meio ambiente da Casan.

Em novembro de 2008, o Ministério Público do Estado fez um ajustamento de conduta da empresa determinando limite máximo de exploração do aquífero. “Foi feito um estudo que mostra que a retirada não pode ser além de 358 l/s, em média, por mês. A Casan ainda tem que fazer um acompanhamento da contaminação da água. Esse foi um procedimento feito para proteger o recurso hídrico da Ilha”, destacou o promotor de Justiça de defesa do meio ambiente do Norte da Ilha e da Lagoa da Conceição, Sandro José Neis. No dia 11 de abril, o promotor recebeu os últimos relatórios de estudo da água, que comprovam sua qualidade. “Temos inúmeros inquéritos abertos relacionados a poços particulares. Cabe aos órgãos fiscalizar a clandestinidade da construção. Quem constrói sem licença pode ser processado”, afirmou Neis.

Salinização é o maior risco para as reservas

Sem estudos detalhados sobre a situação dos aquíferos da Ilha e a falta de controle de sua exploração, o geógrafo e professor do departamento de geociências da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Érico Porto Filho, afirmou que há riscos que podem comprometer a vida das reservas subterrâneas. “O maior risco, no caso da Ilha, é a salinização. Se a perfuração do solo romper a camada que separa o lençol de água doce daquele de água marinha, pode ocorrer a mistura, e a água do lençol ficará salgada”, explicou.

Segundo ele, pulverizações agrícolas com agrotóxicos, minerações e atividades industriais vêm pondo em risco o lençol freático em diversas partes do mundo. O desmatamento também constitui outra importante agressão. “Quanto maior a cobertura vegetal, mais tempo a água permanece no solo. Isso diminui a evaporação e aumenta a quantidade de água que infiltrará para fazer parte do aquífero”, relatou.

O geólogo Alexandre Guedes Júnior dedicou sua dissertação de mestrado, publicada em 1999, a um estudo sobre os aquíferos da Ilha. O mapa que traçava os aquíferos faz parte do Plano Municipal de Saneamento. Para ele, os recursos são de boa qualidade, mas limitados. “A captação de água tem que ser feita com critérios, senão os aquíferos podem acabar. Eles são repostos pela água da chuva, mas, se não houver controle,  podem ser explorados mais do que conseguem se reabastecer”, alertou.

 

Cadastramento dos poços pela SDS para regularização

www.aguas.sc.gov.br

– 0800 644 8500

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