“Imagina ver alguém matando? Levo tiro também”: o medo perto de trilha de Florianópolis

Quando pequeno, nos dias de verão Mário José Machado, de 51 anos, andava 20 minutos pela trilha de mata fechada e tomava banho na então desconhecida Cachoeira do Poção.

Localizado na região central de Florianópolis, na época o local era usado para o lazer por poucos moradores do Córrego Grande.

Hoje, a área ficou famosa, mas o caminho que leva ao ‘poção’ virou palco de execuções. Nos últimos 25 dias, três pessoas foram assassinadas no acesso.

Moradores assustados com execuções na Trilha da Cachoeira do Poção – Foto: Anderson Coelho/ND

Os tiros da segunda morte foram ouvidos por Mário e a família. Agora, ele evita passear pela entrada da trilha sozinho.

“Não importa a hora ou o dia, eu tenho temor de vir aqui. Imagina ver alguém matando alguém aqui? Eu levo um tiro também”, lamentou.

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A cachoeira é movimentada na temporada de verão e nos finais de semana. Porém, quando escurece a comunidade fica assustada com a possibilidade de novos crimes.

Sem câmeras de monitoramento, pouca presença policial, vegetação fechada e iluminação precária, o presidente da associação de moradores do bairro, Daniel Luiz Bento, acredita que o lugar se torna ideal para as execuções.

“Ninguém vê, e quem mata aqui fica impune”, disse.

Comunidade pede instalação de câmeras

Reunidos na manhã desta terça-feira (5), membros da Amosc (Associação dos Moradores do Córrego Grande) estudam agora realizar uma ‘vaquinha’ e comprar câmeras para o local. Depois, os equipamentos serão encaminhados para a prefeitura realizar a instalação.

Comandante do 4º BPM da Capital, o major André Serafin é o responsável pelo monitoramento da região. Segundo ele, já foram feitos pedidos para a instalação de equipamentos.

Além disso, o efetivo policial pequeno não consegue estar presente na área a todo momento, relatou o major.

Morador Mário José Machado, de 51 anos, – Foto: Anderson Coelho/ND

Com isso, a polícia tenta agora ampliar o monitoramento com rondas.

Conforme Serafin, desde a primeira morte, no dia 18 de outubro, agentes do PPT (Pelotão de Patrulhamento Tático) estão mais presentes na comunidade. 

“Faz mais de quatro anos que a polícia havia solicitado para a prefeitura a iluminação e câmera na via e acesso da trilha, mas não teve resposta. Mas a gente está ampliando as rondas ali e esperamos que isso diminua os crimes”, disse o militar.

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Prefeitura instalou um refletor na entrada da trilha – Foto: Anderson Coelho/ND

Após um pedido dos moradores, a prefeitura instalou um refletor na entrada da trilha. Na próxima semana, a associação aguarda que a Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente) realize uma limpeza no local e troque as placas de sinalização, que foram arrancadas e depredadas.

Por meio de nota, a Guarda Municipal da Capital informou que existe a possibilidade de que câmeras sejam instaladas no local, “mas o assunto ainda está sendo estudado”. O órgão não informou prazos.

Moradores são contra portão

Apesar da falta de segurança que ronda a trilha, a comunidade é contra um portão para restringir o acesso na parte da noite.

Conforme Daniel, a estrutura não impediria os assassinatos e ainda poderia aproximar os crimes das casas. “Eles não vão parar de matar, só vão matar aqui na frente, ou perto das casas”. 

Em janeiro, após quatro homicídios terem sido registrados na praia do Moçambique, a prefeitura instalou um portão na entrada principal. Desde então, o local é fechado diariamente, das 22h às 6h.

Polícia