Incêndio criminoso consome mata no Parque do Tabuleiro em Palhoça

Área equivalente a 90 campos do futebol havia sido queimada até esta quarta-feira

Débora Klempous/ND

Cerca de 20 homens, entre bombeiros, voluntários da Ong Caipora (Cooperativa para Conservação dos Recursos Naturais) e Polícia Ambiental lutam desde o início da manhã de ontem contra o incêndio que consume a mata nativa do Parque da Serra do Tabuleiro e o vento Nordeste, que empurra as labaredas de fogo. O incêndio começou por volta das 23h de terça-feira e até a manhã desta quarta-feira já havia consumido mais de 70 hectares – 90 campos de futebol – na região Norte da reserva ambiental.

 A área total do parque é de aproximadamente 90 mil hectares. Segundo a Polícia Ambiental há mais de 15 anos não ocorre um incêndio desta proporção, que certamente vai provocar um desiquilíbrio ecológico sem precedentes. “Nesta época do ano, as marrecas piadeiras saem do Rio Grande do Sul para procriar”, informou o policial ambiental Reginaldo da Silva. O Parque da Serra do Tabuleiro é habitado por uma variedade de aves e outras espécies na lista de animais em extinção e segundo a Polícia Ambiental é bem provável que cobras, jacarés, cutias, quati, cachorro do mato, saracuras e outra aves apareçam mortos.

A região da reserva onde se concentra fogo é dividida por uma estrada de chão batido desde  acesso da BR-101 até a SC-434, que leva a praia da Pinheira. Para evitar que o fogo passe para o outro lado da reserva, agentes da Policia Ambiental controlam o fogo com bombas costal e os voluntários da ong usam batedores – pedaços de tiras de borrachas na ponta de um cabo de madeira. Pelo ar, dois helicópteros do Corpo de Bombeiros despejam cestos de água nos focus mais altos. No início da manhã as labaredas chegavam a cinco metros de altura.

Vegetação rasteira e seca facilita a propagação das chamas

Para o PM Paulo César dos Santos há índicios de que o incêndio foi criminoso ou alguém muito inconsequente deve ter jogado uma bagana de cigarro na vegetação seca. “A tiriica ( claudium marisco) é uma vegetação rasteira que facilmente permite a expansão do fogo. E com o tempo seco, nesta época do ano, as labaredas consomem esta vegetação e se alastram rapidamente”, explicou Santos, há mais de 20 anos na Polícia Ambiental.

Até ontem de manhã os PMs ainda não haviam entradado na mata. Eles controlavam o fogo da estrada e não encontraram nenhum animal ou ave morta, mas avistaram algumas saracuras e aracuãs atravessando a estrada desesperadamente.

Os agentes da Polícia Ambiental acreditam que o incêndio deve atingir uma área de 100 hectares, destruindo aroeiras, árvores frutríferas e toda a vegetação rasteira e de porte médio da reserva. “Se o vento não mudar, devemos debelar totalmente o incêndio quando as labaredas de fogo chegaram na estrada que divide a reserva”, disse o policial ambiental Reginaldo.

Pela experiência de outras ocorrências o PM acredita que o solo deva levar um ano para se recompor e a vegetação de porte média de três a quatro anos, mas a perda da faúna, segundo ele, é lastimável.

Marcela do Campo

Quando avistou de sua casa a fumaça cobrindo o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, o ex-radialista Osmar Dutra rapidamente pegou sua bicicleta e pedalou até à margem da SC-434 para encher uma sacola de marcela do campo, planta que cresce espontaneamente em pastagens e beiras de estrada, muito usada na medicina caseira. “Tive medo que o fogo queimasse a planta que uso para tratar uma gastrite crônica”, suspirou, para em seguida discursar sobre seu amor pela Serra do Tabuleiro, região onde vive há 12 anos. “Isso foi incêndio crimoso. Todo ano é a mesma coisa e ninguém faz nada”, reclama Osmar.

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