Indústria, importação e projeto nacional

Lucas dos Santos Ferreira (*)

Pesquisador do Laboratório de Planejamento Urbano e Regional (Labplan/Udesc)

Divulgação

A formação nacional brasileira no século 20 é marcada por vitorioso processo de substituição de importações apoiado por pacto de poder interessado na expansão do mercado interno, o que permitiu a consolidação do único parque fabril completo (departamento de bens de capital) da América Latina nos idos de 1970, quando chegamos a ser a 8ª. economia do mundo. Nosso avanço econômico-social foi de tal monta que o próprio Henry Kissinger, conselheiro para a política estrangeira dos Estados Unidos, afirmou que medidas deveriam ser tomadas para que não surgisse um novo Japão ao sul do Equador.

Como sucessivas vezes explicitamos, a partir da década de 1990 a brutal elevação das taxas de juros e a valorização excessiva da moeda nacional passaram a estimular importações predatórias e a penalizar nossas exportações, reduzindo a capacidade do setor produtivo e gerando gigantescas hordas de desempregados.

Desde a chegada de Lula ao poder, importantes mecanismos de estímulo ao crescimento econômico vêm sendo potencializados, a exemplo do BNDES, que se converteu de articulador de fusões e privatizações em respeitado banco de fomento industrial, o que todavia não anula os efeitos gerados por desastrosa política macroeconômica (taxas de juros escorchantes, supervalorização cambial, elevada carga tributária etc.) que continua gerando grande perda de competitividade do Brasil e pífias taxas de crescimento do PIB (stop and go).

Frente à conjuntura esboçada, mesmo a expansão da renda média do conjunto da população vem representando significativo mercado para as nações industrialmente mais protegidas. É violenta a entrada de produtos estrangeiros em nosso país, como nos casos do mercado de eletrônicos – abastecido com 15% de importações em 2005 e por mais de 21% em 2011 – e da indústria de máquinas e equipamentos, que fechou o ano de 2010 com déficit de US$ 30 bilhões (US$ 15 bilhões a mais que em 2009). Isso sem mencionar o altíssimo percentual de nosso PIB servilmente destinado à rolagem da divida pública (os gastos com juros da dívida estão em quase R$ 200 bilhões por ano).

A organização das principais centrais sindicais e do segmento empresarial, com destaque para a Abimaq, visando a combater a desindustrialização, sinaliza um avanço político fundamental para a construção de um projeto desenvolvimentista da magnitude do Brasil. Como bem destacou Delfim Netto, “é hora de cuidar do câmbio e de proporcionar condições isonômicas para nossos produtores. Esse é o sentido do Grito de Alerta de trabalhadores e empresários que preferem não esperar nascer o dia em que terão de repetir o Grito de Agonia dos desempregados do mundo desenvolvido.”

 (*) Em colaboração com Fábio Napoleão, professor dos Departamentos de Geografia e Economia da Udesc