Insegurança, sujeira e baderna preocupam área leste do centro histórico de Florianópolis

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Da diversão ao tormento, a área leste do centro histórico de Florianópolis se transforma nas noites de quinta a domingo, quando a região deixa de ser palco de um agradável happy hour e passa a ser um suplício para moradores e proprietários de comércio. O problema, segundo relatam os donos de bares que ajudaram a revitalizar a região pelo menos nos últimos três anos, começa após as duas da manhã, quando os estabelecimentos fecham as portas.

Área leste do centro histórico de Florianópolis – Anderson Coelho/ND

Nesse horário, milhares de pessoas se reúnem no entorno da rua Victor Meirelles e Avenida Hercílio Luz em festas a céu aberto, regadas a bebidas comercializadas por ambulantes. Segundo proprietários de bares locais, também há drogas e muitos grupos trazem suas próprias bebidas e caixas de som, aumentando o tormento para quem tenta conciliar o sono. Até mesmo os vendedores clandestinos levam carrinhos com som.

Para tentar resolver o problema, o Ministério Público estadual, a CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Florianópolis, órgãos de segurança pública como Polícia Militar, Secretaria municipal de Segurança Pública e Guarda Municipal de Florianópolis, além de Comcap (Autarquia de Melhoramentos da Capital), Conseg (Conselho de Segurança) e donos de bares da região se reuniram na tarde desta terça-feira (13).

Conduzido pelo promotor de justiça Daniel Paladino, do Ministério Público de Santa Catarina, o encontro serviu para ouvir os problemas e estabelecer algumas ações emergenciais. Entre elas estão o reforço na iluminação pública da rua Victor Meirelles e a poda de árvores na Avenida Hercílio Luz; ocupação do espaço público por parte dos comerciantes com mesas e cadeiras em frente ao estabelecimento; placas de proibido estacionar a partir das 22 h no entorno da Hercílio Luz; e fiscalização e abordagem preventiva dos ambulantes ilegais.

Outra reunião deve ocorrer em 30 dias para reavaliar as ações e estabelecer soluções a médio e longo prazos, com a presença dos moradores do entorno.

Promotor Daniel Paladino conduziu reunião sobre os problemas no entorno da Hercílio Luz – Anderson Coelho/ND

Insegurança, som alto e muito lixo

Os problemas na área leste não são novos, mas se intensificaram a partir de março, segundo relatos dos donos de bar. São milhares de pessoas nas ruas com som alto, bebidas, brigas, drogas e muito lixo deixado nas calçadas.

“Esse inconveniente começou logo após o carnaval, quando o fluxo de pessoas nessa região aumentou muito. E como a fiscalização é nula, criou-se esse monstro que ninguém consegue conter”, diz o empresário Patrick Mani, dono de um bar na região.

“Todos os bares têm alvará e respeitam o limite do horário de fechamento às 2h, mas a baderna começa depois disso e se estende até as 7 h da manhã”, conta. Para Mani, a sensação é de desamparo em relação ao poder público. “Em conversas com outros comerciantes alguns já falam que desse jeito vão falir”, afirma.

Ao seu lado, outra proprietária de bar se mostra indignada pela falta de segurança que enfrenta todos os dias para manter o comércio em funcionamento. “O que aconteceu no último fim de semana foi uma verdadeira barbárie”, diz Estela Tef. “A Hercílio Luz virou um cenário de guerra, teve até espancamento. Moro no sétimo andar em um edifício da região, mas parecia que a música estava tocando dentro do meu apartamento”, conta. “O resultado é que os clientes que realmente consomem nos bares estão começando a deixar de aparecer e muitos comerciantes já sentiram o faturamento cair”, aponta.

Comcap recolheu 1,5 tonelada de lixo no último domingo na Avenida Hercílio Luz – Anderson Coelho/ND

Não bastassem os transtornos para quem reside no entorno, ainda há outra questão que é a quantidade de lixo deixada nas ruas. Somente no último domingo, a Comcap recolheu 1,5 tonelada de resíduos. “Mobilizamos 16 pessoas para limpar a área, das 7h30 às 11 h e recolhemos 1,5 tonelada de lixo, equivalente a cerca de 150 sacos de lixo, quando o normal fica em torno de 20”, diz o presidente da Comcap, Márcio Luiz Alves. Para ele, acabar com os ambulantes é resolver apenas uma pequena parte do problema maior, que são as várias ‘tribos’ que ocupam esses espaços, muitas delas conflitantes.

Falta de fiscalização

Para o empresário José Thiago Lima, além de manter a via limpa, os estabelecimentos disponibilizam tonéis para colocar o lixo e estimulam a reciclagem. No entanto, o problema saiu de controle, com os ambulantes oferecendo bebidas para os clientes que estão nas mesas. “Conversamos com eles, pedimos para não trancarem a circulação na rua e irem vender nas calçadas, mas pouco podemos fazer. O público está deixando de vir porque não se sente mais seguro. Mas quando a Guarda ou a PM está por aqui inibe pelo menos 90% do fluxo de ambulantes”, analisa.

Na opinião do gerente de Articulação e Negócios da CDL de Florianópolis, Hélio Leite, a fiscalização por parte do poder público precisa ser mais efetiva para coibir essa situação. “O público que ocupa esse espaço após o fechamento dos bares produz essa sujeira e prejudica a rotina dos moradores, mas quem leva a culpa são os donos de bares. Então, é preciso que o poder público fiscalize para coibir essas ilegalidades para que as pessoas continuem frequentando os estabelecimentos e se divertindo”, aponta.

O comandante da 1ª Região da PM, coronel João Mário Martins, disse que a corporação encaminhou à prefeitura uma proposta de convênio para que os policiais militares possam atuar na fiscalização de álvaras e comércios ambulantes ilegais. Mas a medida implica em liberação de recursos do município e está em análise na prefeitura. De acordo com o coronel Fernando André, do 4º Batalhão da PM no Centro, não há efetivo suficiente para garantir a permanência de uma viatura durante toda a madrugada na região da Hercílio Luz, o que poderia inibir a desordem no local.

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