Inventário

Um inventário é um levantamento de bens, um balanço para ver o que ficou, uma lista de coisas com pessoas na fila para pegar, uma relação de coisas juntadas e cheias de histórias impressas, um amontoado de sonhos que já serão inúteis embora serão renovados, um atestado do que nos foi primordial e provocará, dependendo dos ingredientes, alguma disputa, alguma ligeireza, alguma mentira, algum pedregulho. Inventário também pode ser um lugar, assim como um bicicletário, onde possam ser depositadas, invenções, lugares imaginários, palavras pegas no susto, objetos sem sentido aparente, porque na mente. Ah, tudo torna-se tangente, e, contingente, num inventário pode caber tudo o que numa relação feita pós-morte, pode faltar.

Fiquei pensando nisso: se eu morresse hoje, o que eu deixaria? Não tenho casa e nem carro, ou seja, talvez não sobrasse ninguém para uma disputa, e fiquei imaginando quem gostaria de ficar com meu inventário, se apoderar dele. Onde iriam parar os malabaristas de papel machê, o relógio cuco que sempre encanta as crianças, o pedaço de madeira que virou escultura nas mãos de meu cunhado.

Creio que os souvenirs vindo de outros países caberiam numa bolsa grande: palhaços, carrossel de porcelana; um par de tamancos de madeira, da Holanda; uma bola de vidro que pertenceu a meu pai; três anjos amarelados que ganhei dum amor passageiro e forte; CDs que talvez nem poderão mais serem ouvidos no futuro; uma oração de São Francisco de Assis jateada em vidro e que enfeita a parede; uma coruja de latão que pintei de dourado usada como luminária; uma baú verde meio de lata, meio de madeira; uma roda gigante que toca músicas de Natal; um relógio derretendo que lembra coisas de Dalí; 6 sinos de diferentes tipos e com sons que me lembram chamados; uma boneca escrita eu te amo doada por uma grande amiga; um cachorro xadrez com rabo de catavento e três orelhas que uma criança me deu quando eu disse que tinha um desse quando menino; cartas e mais cartas; folhas e mais folhas; poemas e mais poemas nunca publicados; revelações sexuais tingidas das cores mais quentes expostas em textos escondidos; um quadro pintado por um artista de rua no Chile;  uma cópia original de Juarez Machado; bilhetes das vezes em que fui para a Europa para eu nunca esquecer que sonhar se tornou real ao custo de 12 parcelas fixas; muitas miniaturas que conversam comigo quando estou sozinho; um computador onde tenho embutido 4 livros ainda não lançados; uma árvore de ferro onde coloco poemas para meus amigos colherem; e a mesa, redonda, onde ninguém fica na ponta porque aqui não tem hierarquia; grandes livros que poderão, esses sim, serem absorvidos pela biblioteca da cidade; uma parede cheia de fotografias onde estão presentes as pessoas mais importantes do mundo, do meu mundo; e um tapete vermelho, na entrada da minha porta, onde essas pessoas ao entrar, são recebidas como celebridade.

Da minha vida, um dia, levarei saudade. Se invisível, energético, possível ou impossível, eu permanecerei nesses objetos quase sem valor monetário. No meu inventário ainda resta espaço para o que quero adquirir com o passar do tempo: uma rasgadura na água para que eu possa adentrar meu fogo, um enxerto de galho onde nasce um espantalho para dar um susto no tempo, uma fotografia tirada de dentro do que está dentro, alguma poesia que fale tudo num único gesto, uma visão de Deus, mais do que já o vejo, mas de braço dado comigo, dizendo: Meu filho, o que te falta é o resto.

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