Investigados da Operação Chabu formaram grupo de mensagem para montar “sala segura”

Inquérito policial da PF tem 156 páginas com detalhes de conversas entre investigados. Foto Anderson Coelho/ND 

Um grupo em um aplicativo de mensagens chegou a ser formado para organizar a implantação da chamada “sala segura” na prefeitura de Florianópolis. Essa e outras informações estão no inquérito policial de 156 páginas elaborado pela Polícia Federal, que detalha os supostos crimes praticados pela organização criminosa investigada na Operação Chabu e acusada de obter e repassar informações sigilosas de operações policiais.

O inquérito policial da PF originou a decretação da prisão temporária por cinco dias de sete pessoas, entre elas o prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro, e 23 mandados de busca e apreensão, em decisão do desembargador federal Leandro Paulsen, do TRF4 (Tribunal Regional Federal d 4ª Região).

O documento tem como base principal informações coletadas junto aos telefones celulares do empresário José Augusto Alves e do delegado da Polícia Federal, Fernando Amaro de Moraes Caieron, dois dos sete acusados que tiveram prisão temporária decretada. Alves ainda está preso, enquanto Caieron foi libertado na noite de quarta-feira, quase 48 horas após ter sido preso em Porto Alegre (RS).

Conversas do grupo Sala Segura detalham equipamentos que seriam comprados. Reprodução/IPF  

O grupo “Sala Segura” foi criado em um aplicativo de mensagens para tratar da implantação do espaço blindado, à prova de vazamento de informações, que supostamente seria instalado na prefeitura de Florianópolis. No dia 27 de abril de 2018, Luciano Cunha Teixeira, gerente comercial da Suntechs, avisa que irá ao Paraguai buscar os equipamentos necessários para a montagem da sala.

O grupo continua a discutir qual seria o melhor equipamento para montarem a “sala segura” da prefeitura de Florianópolis. Teixeira chega a listar os equipamentos que serão adquiridos, entre eles, gravadores de áudio, câmeras spy, e jammers, que emitem sinais com a mesma frequência utilizada na rede GSM causando interferências.  Por áudio, Alves explica aos integrantes do grupo as características necessárias aos equipamentos e indica que a intenção é vender para órgãos públicos.

Já a participação de Caieron é ressaltada por uma “consultoria técnica” na construção de ambientes seguros à prova de investigações policiais e para que Teixeira consiga entrar no país com os equipamentos adquiridos no Paraguai. Para tanto, Alves também tenta ajuda de um policial rodoviário federal de Foz do Iguaçu, mas não tem sucesso, pois o mesmo está afastado da atividade. Porém, no dia 2 de maio, Teixeira informa que conseguiu trazer os equipamentos do Paraguai, fato que é comemorado pelo delegado através de ícones de mensagem.

Em depoimento prestado a Polícia Federal, o prefeito Gean Loureiro negou a participação na organização criminosa e a existência da chamada “sala segura”. Ainda segundo Loureiro, agentes da Polícia Federal estiveram na prefeitura e não encontraram os equipamentos. Os advogados de Caieron, Teixeira e Alves não foram localizados pela reportagem do ND.

Investimento de bilhões de dólares

O Inquérito policial federal também destaca que o empresário José Augusto Alves e o delegado da PF Fernando Caieron tinham atividades empresariais “de grande monta”. Uma delas seria a intermediação para implantar um projeto de US$ 10 bilhões, o “Cidade Tecnológica”, no Sul da Ilha de Santa Catarina.

Para isso, Alves e Caieron procuraram o prefeito Gean Loureiro, que chegou a encaminhar ofício ao Instituto Meta 21 para apresentar apoio formal ao projeto. Desenvolvido pelo Instituto Meta 21, o projeto receberia o aporte de US$ 10 bilhões de um fundo internacional, o Manna World Holding Trust.

Porém, para que o Instituto Meta 21 pudesse receber os recursos, Alves e Caieron tentaram obter a chancela do Banco Central sobre a origem dos recursos. Para isso, chegaram a agendar uma reunião com a superintendência do Banco do Brasil em Florianópolis. Na pauta, apresentação de carta de doação ao Banco Central,  contrato de doação do Instituto Meta 21 para construção da cidade tecnológica, verificação do Banco Central da prova e origem dos fundos e auxílio do governo na liberação do Banco Central.

Porém, Alves e Caieron não conseguiram obter vantagens econômicas com a negociação pois a proposta comercial de operação de câmbio não foi respaldada pelo COAF (Conselho de Atividades Financeiras), ou seja, a instituição bancária recusou a abertura de conta corrente que seria utilizada para o recebimento de US$ 10 bilhões de dólares.

Durante o depoimento à PF, o prefeito Gean Loureiro confirmou ter participado de reunião para participar do projeto, mas declarou que o plano de trabalho necessário para captação dos recursos do fundo internacional nunca foi elaborado por falta de credibilidade após pesquisas sobre o fundo internacional e que não havia exigência de contrapartida da prefeitura no projeto.

No próprio inquérito policial, Caieron afirma “que não é sócio, mesmo que informal, eventual ou esporádico de José Augusto Alves em qualquer atividade comercial” e que teria sido  convidado, assim como Alves, a “integrar projeto futuro a ser desenvolvido na capital, que objetiva desenvolver tecnologias com fins humanitários”.

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