Investimento na formação, em eventos e festivais estimula o cinema em Florianópolis

Marilha Naccari, diretora de programação, e Antonio Celso dos Santos, diretor geral do FAM, no Museu da Escola Catarinense, onde haverá atividades de formação – Flavio Tin/ND

Com 23 anos, o FAM (Florianópolis Audiovisual Mercosul) está entre os festivais de cinema mais antigos do Brasil. Sua existência provoca amplo impacto. Estimula, organiza, exibe e apoia produções cinematográficas. Em uma semana oportuniza atividades, debates e conexões, quebra paradigmas, move o turismo e posiciona Santa Catarina como um interessante polo cultural. É um trabalho hercúleo, movido pelo amor à arte.

Um século antes do FAM, uma máquina de potencial fantástico unida ao ímpeto criativo de uma mulher deu origem à sétima arte. No dia 28 de dezembro de 1895, os irmãos Louis e Auguste Lumière apresentaram, na primeira sessão aberta ao público, a invenção que mudou o mundo: o cinematógrafo.

Alice Guy Blaché, primeira cineasta da história, causou alvoroço ao exibir uma semana depois, no Salão de Paris, La Fée aux choux “A Fada do Repolho”. Curta de um minuto que escreveu, produziu e dirigiu. A divertida fada, capaz de fazer nascer bebês dos pés de repolho, exerceu tamanho fascínio que fora das telas brotaram dezenas de novos diretores.

Numa velocidade surpreendente, apenas sete meses depois do surgimento, a tecnologia chegou ao Brasil. O omniographo, como foi chamada a máquina, foi exibido na capital do país, o Rio de Janeiro, diante de uma multidão curiosa. Era 8 de julho de 1896. O equipamento foi montado na rua do Ouvidor, 57, às duas horas da tarde. Um ano depois, foi exibido na praça 15, em Florianópolis.
Dia 21 de julho de 1900 foi o dia da primeira exibição cinematográfica em Florianópolis, feita de forma improvisada no TAC (Teatro Álvaro de Carvalho).
Para reavivar a memória, a cerimônia de premiação do 23º FAM, no dia 2 de outubro, será no TAC. Os prêmios financiam serviços audiovisuais como estímulo às novas produções.

Escola de Cinema Ally Collaço fechou portas físicas, mas continua com oficinas e sessões ao ar livre – Divulgação/ND

O apoio é um dos caminhos para que o cinema catarinense busque a sua própria linguagem e garanta seu espaço, ocupado em grande escala pelas produções nacionais, que não costumam sair do eixo Rio-São Paulo. O local sempre exigiu bravura indômita.

A primeira obra filmada em Florianópolis, lançada em 1958, foi “O Preço da Ilusão”. Roteiro do casal brilhante Salim Miguel e Eglê Malheiros, expoentes do Grupo Sul , movimento que trouxe o modernismo a Santa Catarina. Com intervalo de 30 anos de cinema experimental, outra obra de impacto foi “Manhã”, de Zeca Pires e Norberto Depizzolatti, produzido em 1989. A diretora de programação do FAM, Marilha Naccari, destacou quatro esferas interessantes para analisar o cinema catarinense.

As narrativas regionalistas como toda vastidão que abraça desde a obra clássica de Sylvio Back, os premiados curtas de Eduardo Paredes Desterro e “Novembrada”, o longa “A Antropóloga” de Zeca Pires, seu documentário sobre nazismo em Blumenau, “Anauê!,” A Roda dos Expostos, de Maria Emília de Azevedo, até o curta Vento Sul de Renan Blah.

Pautas de interesse global como o curta “Selma Depois da Chuva”, dirigido por Loli Menezes, Juventos FC, de Alexandre Nascimento, e histórias futuristas como o “O Tempo que Leva”, dirigido por Cíntia Domit Bittar. Além de trabalhos que contam a história a partir de um ponto de vista contemporâneo, como “Ecos e Uivos nas Terras de Condá”, curta de Joelmir Zanette, sobre um século de música autoral em Chapecó.

Muitas das produções de Santa Catarina giram em torno de sete cursos. O mais antigo é o de cinema da Unisul, de 98, depois foi criado o da UFSC (Universidade de Santa Catarina), em 2005. Essas duas graduações são um celeiro de criação artística. Vem muita gente de fora do estado para estudar, o que em si gera ricas trocas com potencial para transformar a realidade e exportar as histórias catarinenses, assim como o potencial dos profissionais do Estado para outros espaços do Brasil e do mundo, exatamente como o FAM faz, quando torna a janela da recepção e da difusão dos profissionais e das obras para players do país e do Mercosul.
Em Florianópolis há ainda a Escola Livre de Artes e, por um ano, existiu a Escola de Cinema Ally Collaço, que fechou as portas físicas, mas continua com oficinas e sessões de cinema ao ar livre.
Outros municípios catarinenses como Itajaí, Chapecó, Joinville, Balneário e Blumenau também têm opções de formação em audiovisual.

Filmes exibidos no Beiramar Shopping

O FAM tem boas novidades neste ano. Deixa o inverno e passa a ser realizado nos primeiros dias da primavera, entre 26 de setembro e 2 de outubro, e retorna ao Centro da cidade.
“De tempos em tempos, fizemos o movimento de mudança e agora é o momento de retornar a espaços do centro histórico”, disse Antonio Celso dos Santos, criador e diretor-geral do FAM.
As atividades de formação, como as palestras, painéis e o Rally Universitário Floripa 2019 serão no Museu da Escola Catarinense. A estrela é o ECP (Encontro de Coprodução do Mercosul) 2019 – entre os dias 29 de setembro a 1º de outubro, que reunirá produtores do Mercosul e oito players confirmados, cinco canais de televisão – Fox Latam, Canal Brasil, Box Brasil, CineBrasil TV e TELEFE – e três distribuidoras – Elocompany (Brasil), Artkino, da Argentina, e BF Distribution, do Chile. O ECM é de extrema relevância, por ser uma vitrine para o mercado, onde os compradores vêm até Santa Catarina conhecer a produção regional, nacional e latina.
Por fim, pela primeira vez o festival será exibido em sala de cinema comercial. O Cineshow, no Beiramar Shopping, exibirá mais de 80 sessões de filmes das mostras competitivas e convidados. Cinco longas catarinenses de altíssima qualidade serão apresentados ao grande públicos nessas sessões.
Um deles será “A Maravilha do Século”, de Márcia Paraíso, que faz sua estreia oficial no FAM. A narrativa comprova a existência do italiano João Maria de Agostini, monge que impactou profundamente o Oeste catarinense. Mas para além da devoção, “A Maravilha do Século” materializa o personagem da história cabocla. Márcia atravessou as américas refazendo a trajetória do monge e apresentando seu legado de fé e sua luta pela terra e pelo respeito ao meio ambiente.
A pré-estreia do filme, no dia 19 de março, no CIC, fez tanto sucesso que mais de cem pessoas não conseguiram espaço para assistir a sessão. Prova que o cinema catarinense tem qualidade e público.

Outros longas do FAM

O filme faz parte do projeto “Crisálida”, que já originou um curta-metragem fruto do Prêmio Funcine 2014 e um seriado, através do Prêmio Catarinense de Cinema 2014/2105- Divulgação/ND

“Crisálida – O Filme”, Serginho Melo

Rubens aprende Libras à revelia do pai. Luta em casa pelo direito de ser surdo e precisa vencer a timidez para conquistar Alice, uma garota ouvinte. Jaks vive a situação inversa. É ouvinte e apaixonado por Morgana, uma jovem surda. É possível quebrar as barreiras pra se comunicar, superar preconceitos e seguir em frente? O filme faz parte do projeto “Crisálida”, que já originou um curta-metragem fruto do Prêmio Funcine 2014 e um seriado, através do Prêmio Catarinense de Cinema 2014/2105. “Crisálida – O filme” é um recorte destas duas obras, tem cenas em português e Libras, e será transmitido no Dia Nacional do Surdos, 26 de setembro.

“Tekoayhu trata sobre quem vive na tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai – Divulgação/ND

“Tekoayhu”, que faz a primeira apresentação pública no festival, trata sobre quem vive na tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, um dos centros comerciais mais complexos do planeta, onde milhares de pessoas se misturam e condensam, nas travessias das fronteiras, alguns dos mais graves problemas da América Latina.

“O Espiral de Contos de Deolindo Flores”, Rodrigo Araujo e Thiago L. Soares

“O Espiral de Contos de Deolindo Flores” é uma antologia de suspense e terror” – Divulgação/ND

“O Espiral de Contos de Deolindo Flores” é uma antologia de suspense e terror dividida em três partes narradas pelo personagem título. Deolindo é um boêmio contador de histórias que, segundo ele mesmo afirma, são contos reais que desafiam a mente humana devido ao seu conteúdo grotesco e aterrorizante. Todas as histórias são ambientadas dentro da mística Florianopolitana, bruxas, festas fantasmagóricas.

Abrindo as Janelas do Tempo”, Santiago José Asef

“Abrindo as Janelas do Tempo” uma ópera folclórica narrada pelas canções do espetáculo homônimo do grupo catarinense – Divulgação/ND

“Abrindo as janelas do tempo” é uma ópera folclórica narrada pelas canções do espetáculo homônimo do grupo catarinense Cantadores de Engenho. Aprisionada em si mesma, a personagem central luta para encontrar-se e viver no presente. Suas confusões temporais envolvem o espectador fazendo-o experimentar de perto essas vivências. A história se passa num vilarejo caiçara em três épocas diferentes, revelando muita sensibilidade.

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