José Ruiz coordenou a conservação da ponte Hercílio Luz durante 38 anos

Administrador e construtor de pontes de ferro chegou em Florianópolis em janeiro de 1960. Agora, ele teme pelo futuro do maior símbolo da cidade

Marco Santiago/ND

José Ruiz foi testemunha de fatos importantes relativos à ponte Hercílio Luz

O governador era Heriberto Hülse, empossado após a morte de Jorge Lacerda em acidente aéreo perto de Curitiba, quando José Ruiz desembarcou em Florianópolis, em janeiro de 1960, para assumir a tarefa de cuidar da ponte Hercílio Luz, então uma jovem senhora de 33 anos. Ele vinha a serviço da empresa paranaense Machado da Costa S. A., com duas dezenas de técnicos preparados para dispensar a devida atenção à ponte de ferro que, inaugurada em 1926, nunca fora devidamente contemplada com trabalhos de conservação. Durante 38 anos, até 1998, quando deixou o posto, Ruiz foi testemunha de fatos importantes relativos à travessia que é símbolo de Santa Catarina – e que tem sido objeto de um oneroso e polêmico processo de recuperação desde que foi fechada ao tráfego por causa de problemas na estrutura.

Familiarizado com cada arrebite e parafuso da velha ponte, Ruiz perdeu a conta das vistorias que fez com sua equipe, a partir de contrato com o governo e com a empresa americana Steinman, que construiu a estrutura metálica na década de 1920. Mas também lembra de quatro suicídios que ocorreram ali, porque houve tempo em que se jogar da ponte tinha um charme especial.

Hoje, convidado pela reportagem para fazer fotos ao lado dos pilares, aos 80 anos o antigo administrador das obras usa a palavra “tristeza” para definir seus sentimentos em relação à travessia e confessa, procurando não demonstrar emoção: “Tenho vontade de chorar. A situação da ponte é muito crítica. Ela corre riscos. Está ameaçada, com certeza”.

“Na minha época, fazíamos a manutenção geral, substituíamos as peças enferrujadas por novas, mexíamos nas chapas, treliças, cantoneiras, barras e vigas”, conta Ruiz, que estudou apenas até o secundário, mas capitaneou obras em pontes, ferrovias e viadutos pelo país a fora. “Chegamos a ter 150 homens trabalhando na ponte, em dois turnos, especialmente na fase da colocação do asfalto, nos anos 60. Quando o serviço terminava numa ponta, recomeçávamos na outra. Jateávamos tudo, dávamos três demãos de zarcão pesado, à base de chumbo, e depois fazíamos a pintura final. Quando a corrosão chegava a 50%, a peça era descartada”, diz.

Um reforço provisório importante

Além de se dedicar à conservação de rotina da Hercílio Luz, José Ruiz está crente de que evitou o pior quando, em 1983, enxertou um cabo de aço de 1,5 polegada na barra rompida – problema descoberto no final do ano anterior que provocou o fechamento da ponte. Foi um reforço provisório, usando um cabo tensionado ao redor da referida barra, com o objetivo de reequilibrar a estrutura. “É por isso que a ponte está de pé até hoje”, garante Ruiz, falando dos riscos criados com o rompimento de um cabo de olhal na parte sul da torre localizada no lado insular. “Usamos 12 calços, que foram presos com grampos, e um taquímetro para medir a pressão”, conta. Na parte danificada se criou um “dente” que enfraqueceu a estrutura, mas que, em tese, não é capaz de derrubá-la.

Até 1960, a manutenção das tábuas de madeira que serviam de piso da ponte era mal feita, embora dez empregados remanescentes da época da construção ainda permanecessem ali, relata Ruiz. “Traziam uma carrocinha com os paus que substituiriam os pedaços quebrados, e certo dia chegaram a chamar os bombeiros porque um cigarro mal apagado provocou fogo sobre a ponte”, lembra. Em 1966, a madeira foi trocada pelo asfalto e chapas de aço corrugadas foram colocadas nas pistas de rolamento, permitindo o melhor escoamento da água.

O projeto inicial previa a passagem de trem com locomotiva e vagões, o que nunca se concretizou. Mas havia uma adutora de água e redes de alta tensão e de telefonia que ajudavam a sobrecarregar a ponte.

Trens e pontes de ferro

A partir da sede na cidade de Porto Amazonas, a cerca de 80 quilômetros de Curitiba, a empresa Machado da Costa, em cujo pátio passava uma ferrovia, muitas pontes de ferro foram transportadas para diferentes regiões do país. Pessoalmente, José Ruiz trabalhou na ponte ferroviária sobre o rio Iguaçu, entre União da Vitória (PR) e Porto União (SC), com 427 metros de extensão, na estrada de ferro Teresa Cristina, no Sul do Estado, em ferrovias administradas pela Mogiana, Sorocabana e Central do Brasil em São Paulo, e em pontes e viadutos no Rio Grande do Sul. “Eram estruturas de vários tamanhos e modelos”, explica.

Quando se jogar da ponte tinha glamour

Durante tantos anos ali, José Ruiz presenciou ou soube de quatro suicídios, fora os acidentes e as tentativas frustradas de pessoas que tentaram tirar a própria vida se jogando na água ou nas pedras. Num dos casos, uma mulher com cerca de 40 anos tentou duas vezes – na primeira, se machucou bastante, caindo em cima de uns galpões no lado continental, mas na segunda acabou morrendo na rua que passava embaixo da ponte, no Continente.

Outra mulher também tentou duas vezes até morrer afogada nas águas do canal. Na primeira tentativa, foi impedida de se atirar pelos empregados que faziam a manutenção da ponte. “Às vezes, a gente só ouvia o barulho do corpo caindo no mar”, conta Ruiz.

Um estudante de Blumenau se jogou e morreu numa cerca de sarrafos ao lado do estaleiro Arataca, que construía navios ali perto. E um homem bêbado perdeu a vida com o impacto ao se precipitar e “cair no seco”, como diz Ruiz. Também houve o caso de um empregado da empresa Machado da Costa que estava sem o equipamento de segurança e caiu da pista de rolamento da ponte. “O corpo foi encontrado dois dias depois perto da praia da Pinheira, em Palhoça”, afirma o administrador.

Outro funcionário caiu do topo da torre maior, de 74 metros de altura, mas se salvou porque a queda foi amortecida pelos fios de telégrafo e ele foi resgatado por um barco que passava pelo local. “Muitos que passavam correndo por nós acabavam não se jogando, e um deles levou uma surra de cinta após tentar se matar”, lembra Ruiz.

Certa vez, um vereador vinha de carro e não viu o tapume, anteparo colocado para avisar que aquela parte estava em obras. O veículo ficou entalado, mas não caiu no mar e ele se salvou. Em outra ocasião, uma ponta de ferro perfurou os vidros de um veículo, mas o condutor saiu ileso. Houve épocas em que a travessia era vedada a todos, mas um rapaz que morava no Abrigo de Menores, na Agronômica, chegou com um pacote dizendo que estava levando algo para a mãe, no Continente. Na metade da ponte, jogou na água a embalagem, que tinha um tijolo dentro, e foi embora.

Prédios contados nos dedos das mãos

Quando José Ruiz chegou em Florianópolis, em 1960, era possível contar os prédios da cidade. Ele lembra do edifício Zahia e do hotel Laporta, que depois foi sede da Caixa Econômica Federal, na esquina da rua Conselheiro Mafra com a praça Fernando Machado. A construtora A Gonzaga foi uma das responsáveis pela multiplicação de prédios na Capital, e isso, com o tempo, também foi sobrecarregando a ponte Hercílio Luz.

No final daquela década as filas e engarrafamentos já eram constantes na travessia e nos acessos. Em 22 de janeiro de 1982, quando foi interditada, a ponte absorvia 43,8% do tráfego, ou seja, 27.345 carros por dia, em média, e nos horários de pico a marca era de 2.250 veículos por hora.

Aqui foi o porto final de Ruiz, depois de já haver erguido ou feito a manutenção de mais de 100 pontes e pontilhões sobre rios de vários Estados. Ao se aposentar, passou a representar a Machado da Costa e a Roca, sua sucessora, e mais tarde resolveu se dedicar apenas à família e ao radioamadorismo. Hoje, pela quarta vez, ele dirige a seção catarinense da Liga de Amadores Brasileiros de Radioemissão, fundada em 1934, ano de seu nascimento.

Diferentes consórcios responderam pelos trabalhos de conservação da Hercílio Luz, mas nem todas as empresas tinham qualificação para isso, segundo Ruiz. Ele não acredita que alguma empresa brasileira seja capaz de resolver o problema da barra de olhal danificada, pois todos os eixos “estão lacrados de ferrugem”. E chega a temer pelo efeito dos ventos na operação, que podem desestabilizar a estrutura. “É uma operação complicadíssima, temerária”, alerta.

CURIOSIDADES

A ponte Hercílio Luz tem extensão total de 821,055 metros, e o vão central pênsil mede 339,471 metros. A altura das torres principais é de 74,210 metros.

A principal peculiaridade da ponte é que sua suspensão é formada por correntes de barras de olhal, em aço, articuladas por pinos também de aço.

A ponte é a única do mundo com parte das barras compondo a corda superior da treliça com rigidez.

Houve época em que se cobrava pedágio para a travessia na Hercílio Luz. Ele ia de um tostão (para pedestres) a 5 mil réis (para ônibus).

José Ruiz estima que a fundura do canal embaixo da ponte seja de 15 metros, mas já foi maior e diminuiu, em parte, por causa da construção do aterro da baía Sul, que assoreou a área.

Uma das pilastras do lado insular da ponte apresenta mais corrosão que outras porque caiu no mar em Santos (SP) antes de vir para Florianópolis.

Em 1991, a retirada do piso asfáltico aliviou em cerca de 400 toneladas o peso da estrutura.

A ponte foi tombada em 13 de maio de 1997, por meio do decreto estadual nº 1.830.

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