Jovens estilistas de Florianópolis destacam-se no mercado da moda

Santa Catarina é o maior polo da indústria têxtil brasileira. Empresas como Hering, Dudalina e Cativa, por exemplo, são marcas de destaque no mercado nacional da moda. A Hering é uma das mais antigas, existe há quase 140 anos e é a maior rede de franquias de vestuário do Brasil, com um total de 840 lojas das marcas Hering, Hering Kids, PUC, Dzarm e Hering for You.

Além do setor da indústria têxtil, outro setor impactado diretamente no Estado é o das instituições de ensino. A Universidade do Estado de Santa Catarina criou o curso de Bacharelado em Moda, cujo objetivo é formar designers em moda capacitados para atuar no planejamento, na criação e no desenvolvimento de produtos, além de habilitá-los a trabalhar nos processos industriais na cadeia produtiva têxtil e de confecção. Criado em 1996, com o tempo o curso transformou-se em referência nessa área, segundo a avaliação do MEC, e tornou-se o celeiro de uma nova geração de estilistas, trazendo uma maior diversidade de marcas e ampliando o leque de oferta a diferentes clientes.

As universidades particulares também não ficaram para trás, e tanto a Universidade do Vale do Itajaí (Univali) como a Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), ambas atentas às demandas do mercado da indústria têxtil, criaram o curso de Design de Moda. Para essas instituições, o intuito de formar alunos na área é gabaritá-los para entrarem no mercado da moda com o conhecimento teórico e prático.

Para compreender mais esse novo cenário da moda no Estado, o Inspira entrevistou três novas estilistas catarinenses que estão despontando local e nacionalmente com as suas criações.

Camila Fraga, alta-costura

A estilista Camila Fraga, de 34 anos, natural de Florianópolis, é graduada em duas universidades catarinenses. Primeiramente formou-se no curso de Design de Moda da Univali, no campus de Balneário Camboriú, onde adquiriu know-how na produção de design de joias e calçados. Depois, Camila formou-se na Udesc, tendo cursado Bacharelado em Moda para aperfeiçoar os seus conhecimentos na área têxtil, além de adquirir experiência em outros cursos de alta-costura no país e no exterior. “O último curso que fiz foi com a renomada Janine Niepceron, que fez parte do quadro de empresas como Fause Haten e Christian Dior. Com ela, além de aperfeiçoar os meus conhecimentos em acabamentos específicos utilizados pelas maisons, percebi que o meu maior propósito na vida é concretizar os sonhos das clientes nas datas comemorativas mais emblemáticas de suas vidas, como festas de casamentos, de debutantes e de bodas”, revela Camila. E para realizar o sonho de cada uma delas, a estilista não mede esforços: “O meu limite é o tamanho do sonho da cliente, e para isso me utilizo dos recursos da comunicação com o objetivo de encontrar o tecido, a cor e o modelo idealizado por elas, entro em contato com importadoras de tecidos que me fornecem matéria-prima do mundo inteiro, o que me permite estar sempre à frente das novas tendências do mercado”, conclui a estilista.

Camila Fraga atende clientes de todo o país. Em oito anos, já criou mais de mil vestidos de festa e 160 vestidos de noiva – Marco Santiago/ND

Atualmente, Camila Fraga é considerada o futuro promissor da alta-costura catarinense, e as suas criações atendem tanto a nova geração de mulheres consumidoras como aquelas mais conservadoras, que buscam roupas sob medida com um toque de inovação, e também as mais tradicionalistas, que adoram um belo glamour dos bordados, um dos diferenciais das suas criações.

Se hoje a estilista recebe clientes de todo o Brasil, o início da sua paixão não foi nada glamoroso. Camila perdeu os pais ainda criança, e por isso foi criada por sua avó, que trabalhava no ateliê de uma vizinha. Lá Camila ensaiou as suas primeiras criações, aprendendo desde os 12 anos a desenvolver as suas próprias roupas. “Minha avó sempre incentivou a minha criatividade, e quando perdi os meus pais, a máquina Singer foi a herança da minha mãe, que tinha bastante desenvoltura com trabalhos manuais”, revela Fraga.

Outra grande incentivadora de Camila foi uma de suas tias, que há 20 anos tem uma confecção de moda feminina e que em 2011 presenteou a sobrinha com uma sala de 32 metros quadrados localizada ao lado de sua loja, em São José, para que a estilista pudesse ajudá-la com um ateliê de reforma de roupas. Já no início, Camila começou a desenvolver roupas de alfaiataria, técnica que havia aprendido na faculdade, e logo em seguida criou um vestido para uma conhecida que depois, no boca a boca, divulgou o talento da jovem para muitas outras mulheres. Nesse mesmo ano, Camila foi convidada a criar vários vestidos para o casamento de uma prima e daí para a frente não parou mais.

Hoje, Camila Fraga possui uma loja de 500 metros quadrados em um ponto privilegiado do comércio, ao lado do Beiramar Shopping, e conta com 20 funcionários. Juntos, ela e a sua equipe realizam um trabalho personalizado que vai desde a consultoria de tecidos até a criação de bordados manuais por uma equipe especializada. Há oito anos no mercado da moda, Camila Fraga já criou mais de mil vestidos de festa e 160 vestidos de noiva. “Percebo que o mercado catarinense da alta-costura ainda é carente de qualidade, cheguei com uma energia nova e com um trabalho diferenciado, estilistas do meu nível estão em São Paulo”, avalia Camila. Ela ainda acrescenta: “Meu foco inicialmente era o sul do país, mas acaba que 90% do meu público está fora de Florianópolis, pois sinto ainda que muitas clientes em potencial não se permitem conhecer trabalhos de destaque que estão aqui ao lado delas. A minha principal clientela está em outras capitais como Curitiba, Brasília, Aracaju e Belém do Pará”.

Com uma criatividade incessante, Camila começou a criar peças a prêt-a-porter, com um estilo de peças atemporais, sendo que cada coleção é definida por um tipo de tecido: “A minha coleção mais recente foi a Hilow, em que todas as peças foram produzidas com paetê. Em seguida, quero começar uma coleção em poá”. Outra novidade é que a estilista entrou na onda do consumo sustentável e criou o Closet Camila Fraga, cujo acervo são os vestidos de suas clientes que deixam peças consignadas para alugar. “Abri esse novo negócio há um ano e percebi que, além de proporcionar a oportunidade de outras mulheres usarem a minha marca, movimento o mercado de luxo, já que a ideia é que as minhas clientes recebam de volta 50% do investimento inicial de suas peças.

A moda ética de Natália Fernandes

A jovem Natália Fernandes, 22, nasceu em Laguna, mas desde os dois anos mudou-se com os pais para Florianópolis. Ela também é um dos talentos promissores dessa nova geração de estilistas. A marca Natu surgiu oficialmente em 2017 partindo de suas inquietações relacionadas ao mundo da moda. “Desde a sua criação, a Natu preza pela consciência da moda sustentável. Da produção até o consumidor final, todos os processos respeitam a natureza, e cada peça produzida gera o menor impacto possível ao planeta”, pontua Natália. Para isso, a estilista trabalha com tecidos de refugo da indústria têxtil e tecidos orgânicos cultivados nas fazendas do Ceará e do Mato Grosso do Sul por cerca de 250 famílias associadas a uma rede de cooperativas.

Da lavoura, o produto segue para os galpões de Minas Gerais, onde são feitas a fiação e a tecelagem. Desde a infância até as decisões tomadas para o seu futuro, a jovem sempre teve o apoio e a confiança dos pais. Deles ela ganhou a sua máquina de costura e foi incentivada a cursar Design de Moda na Faculdade Estácio de Sá, em São José.

Natália Fernandes, no tingimento. Ela trabalha com tecidos orgânicos e de reaproveitamento – Divulgação/ND

“O criar sempre esteve comigo. Quando pequena, buscava por retalhos de tecidos, tesouras, linhas e agulhas para criar as roupas de minhas bonecas. Aos 14 anos, entrei em uma aula de corte e costura, e desde então comecei a fazer as minhas próprias roupas. A partir dos 17 anos, comecei a vender quimonos estampados pelo e-commerce com o objetivo de fazer com que minhas clientes se sentissem confortáveis e lindas”, ressalta a jovem estilista. Criteriosa na escolha de estampas e atenta a seu público, Natália sempre teve um cuidado com o caimento e o corte das roupas e, muito além de priorizar apenas a beleza estética da roupa, continuamente levou em conta a moda ética de cada peça produzida pela Natu.

E conclui: “Para mim, um bom design é aquele que reflete a beleza da peça tanto no nível da criatividade quanto na escolha de processos produtivos, afinal a minha roupa precisa ser bonita em todos os sentidos”.

Criação casual de Grasiela Souza

Para a estilista Grasiela Souza, de 33 anos, natural da ilha e formada em Design de Moda pela Unisul, a ideia de criar a sua marca Triango foi, acima de tudo, tornar-se uma profissional da área de moda autônoma e dona de seu próprio negócio. Durante dois anos, a estilista trabalhou em uma empresa de private label, que produz confecções terceirizadas para grandes marcas. Lá ela aprendeu todas as etapas da confecção de uma peça, desde a execução de uma peça-piloto até o acabamento final. Em seguida, Grasiela trabalhou na Revista Catarina como assistente de produção de moda e de conteúdo. Com a rescisão do contrato de trabalho com a empresa e mais uma ajuda financeira de mãe e da tia, resolveu criar a sua marca.

Grasiela aprendeu todas as etapas de uma confecção. Com experiência, criou sua própria marca, com uma pegada casual – Divulgação/ND

“O DNA da Triango é uma moda casual, jovem, mas que está sempre se reformulando e ganhando cada vez mais personalidade no mercado local”, enfatiza Grasiela. A estilista começou com um showroom em Biguaçu, mas, com o aumento da demanda, resolveu apostar em uma loja física no Kobrasol, que será aberta daqui a um mês junto com a sua nova coleção de inverno. Enquanto isso, a marca já está presente em seis lojas multimarcas distribuídas pelo Estado e em outras cinco lojas em Florianópolis.

“Depois que abrir a loja, vou continuar vendendo no atacado, mas a minha prioridade começará a ser o varejo, ou seja, mais variedade de peças em menor quantidade, valorizando a exclusividade delas”, explica a empresária. A outra novidade da marca é que, desde outubro do ano passado, Grasiela está com uma sócia, Mariana Peixe, que complementa o seu trabalho por ser formada em gestão de negócios.

Neste ano, a última escola de samba a desfilar na Passarela Nego Quirido foi a Dascuia, que apresentou o enredo “Com que roupa eu vou? Ao mundo encantado de Gesoni Pawlick”, homenageando o grande nome da alta-costura catarinense. Quem sabe em um futuro próximo teremos uma jovem estilista dessa nova geração também inspirando um enredo?

Inspira!