Jovens lutadores do projeto Lutar para Vencer festejam Dia das Crianças no tatame

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Projeto Lutar para Vencer oferece oportunidades para crianças carentes. Foto Anderson Coelho/ND

O Dia das Crianças tem tudo para ficar guardado na memória de 30 crianças do projeto Lutar para Vencer, desenvolvido nas comunidades do Horácio e do Quilombo, em Florianópolis. Neste sábado (12), eles participam da 2ª Copa RIC de Jiu-Jitsu, que será disputada no tatame montado na sede da Fucas (Fundação Catarinense de Assistência Social), em Capoeiras, no Continente.

Os 30 jovens lutadores de jiu jitsu do projeto social, coordenado pelo paratleta Jacson Botelho, farão combates contra lutadores de outros 26 projetos sociais, que também utilizam a “técnica da arte suave” como ferramenta para transformação social. “O que a gente mais batalha aqui é a educação no tatame”, explica Jacson, que iniciou o projeto em 2013, no Morro Horário, uma das comunidades conflagradas pelo tráfico de drogas e cenário de constantes conflitos.

Com disciplina e “blindado” emocionalmente para vencer obstáculos diários e variados, o faixa marrom de jiu-jitsu consegue manter uma frequência média de 30 a 40 crianças por aula, com idades entre cinco e 16 anos, um número de fazer inveja a qualquer academia renomada da cidade. “Quando o Pipoca esteve aqui pela primeira vez e viu o projeto, ele não acreditou”, conta Botelho, relembrando a visita do tricampeão brasileiro de judô e referência nacional da modalidade, Dulcimar Antônio Grando, que logo se prontificou a doar quimonos para a criançada treinar.

Professores Jacson Botelho e Maciel de Lacerda mostram posições para jovens lutadores. Foto Anderson Coelho/ND

O apoio de Pipoca, e de empresários, como o engenheiro Marcos Sacenti, por exemplo, são essenciais para a continuidade do projeto, que já foi ampliado para o Morro do Quilombo, no Itacorubi. Com auxílio de amigos, como o professor faixa roxa Maciel de Lacerda, Botelho tem conseguido garantir vitórias dentro e fora do tatame para as crianças envolvidas pelo projeto. Um dos exemplos é Daniele de Eouriques, 14 anos, sete deles dentro do projeto.

Ela já foi terceira colocada no Campeonato Brasileiro e tem potencial para se tornar um expoente da modalidade no país. Mais do que vencer no tatame, Daniele tem conseguido oferecer um conforto maior para a família (mãe e cinco irmãos), depois que um empresário soube do talento e do esforço da lutadora e, ao mesmo tempo, da precariedade da residência da família. “Chovia dentro da casa dela. Graças à dedicação no tatame, ela está conseguindo arrumar a casa da mãe. As paredes vão ganhar reboco, o banheiro terá azulejo e já não chove mais na sala”, relembra Botelho.

Aulas são realizadas nas terças e quintas. Foto Anderson Coelho/ND

Competição envolve 27 projetos sociais

A 2ª Copa RIC de Jiu Jitsu é uma continuidade das competições desenvolvidas pelo projeto e foi programada para o Dia da Criança propositalmente, segundo Botelho. “Tudo começou com um campeonato interno, mas as coisas cresceram e conseguimos envolver agora outros projetos sociais que trabalham com a mesma ferramenta”, comenta. Ganhador do prêmio IGK de 2019, na categoria Esporte como ferramenta de transformação social, o projeto ganhou visibilidade. “O prêmio mostrou que estamos no caminho certo, ainda mais vindo do Guga, nosso ídolo, o manezinho mais querido no mundo”, destaca Botelho.

Os treinos são realizados duas vezes por semana (terça e quintas) no ginásio da Escola Osvaldo Galupo. São os próprios alunos, com auxílio dos professores e pais, que montam o novo tatame, recém adquirido com recursos oriundos do prêmio IGK e de doações. Ansiosos com a proximidade da competição, os jovens lutadores aproveitam cada segundo no tatame para praticar os golpes.

No último treino antes da competição, Botelho e Lacerda repassaram as últimas posições e para finalizar contaram com o apoio dos acordes do violinista Bruno Jacomel. Deitados no tatame, de olhos fechados, os jovens lutadores foram convidados a relaxar e buscar concentração para a disputa da 2ª Copa RIC de Jiu-Jitsu.

“É uma energia muito grande estar aqui ajudando essa garotada que precisa de oportunidade para mostrar seu potencial”, disse Bruno, antes de executar músicas clássicas e até “Vagabundo Confesso”, do Dazaranha. A participação de Jacomel é um dos diferenciais do projeto, que também busca trocar experiências com a garotada. Todo mundo que visita a aula é convidado a falar com as crianças e passar uma mensagem positiva e inspiradora.

“Saber que cada um deles está tendo uma oportunidade, vale mais do que qualquer medalha. O projeto não é meu, é deles”, completa Botelho, ao ver a garotada comportada, deitada no tatame em busca de concentração para as lutas de sábado.

Érica amadureceu e ganhou responsabilidade

Filha mais velha do casal Ivan Alfa Júnior e Eloneia Cossa, Erica Alfa, 11 anos, é uma das atletas escalada para disputar a 2ª Copa RIC de Jiu-Jitsu neste sábado. Atenta às orientações dos professores, a faixa amarela foi incentivada a participar do projeto pelos pais, que já foram alunos de Botelho, quando o projeto recém havia iniciado e era aberto para os pais das crianças.

A mãe de Erica reconhece que o esporte tem ajudado o desenvolvimento da filha. “O jiu-jitsu amadureceu mais ela, principalmente na questão de responsabilidade. Ela vem treinar com prazer de estar aqui”, afirma.  Diante da seriedade que Érica encara os treinos, Elonéia pensa na possibilidade de a filha vir a se tornar uma professora no futuro. “Quem sabe ela pode ter uma profissão já quando chegar aos 16 ou 18 anos”, cogita.

Davi Lucas vai disputa a segunda competição. Foto Anderson Coelho/ND

Davi Lucas se apaixonou pela arte suave

O pequeno Davi Lucas, sete anos, vai competir neste sábado literalmente com o jiu-jitsu na cabeça. É que ele decidiu cortar o cabelo de uma forma diferente para inscrever o “jiu-jitsu” na nuca. Essa será a segunda competição de Davi, que começou a lutar por recomendação médica para superar os constantes ataques de asma.

“Tentamos a natação primeiro, mas não deu certo. Com o jiu-jitsu, os ataques diminuíram. As vezes ele passa um mês sem ter o problema”, conta a mãe Regina Formighieri, que faz questão de testemunhar as aulas ao lado do marido, Moacir Silveira.

Os treinos no tatame da ginásio da Escola Osvaldo Galupo tem modificado a rotina de Davi. “Ele era uma criança que ficava no celular, na internet. Agora, está menos ansioso, está mais calmo. Depois do treino, só dá tempo de tomar banho e jantar, antes de dormir”, conta Regina. Filho único, Davi também dependia muito dos pais, mas o esporte mudou essa atitude. “Agora, ele faz as coisas sozinho e ainda me ajuda em casa”, confirma Regina.

A mudança provocada pelas aulas do projeto Lutar para Vencer não é só do filho, segundo Regina. A comunidade também tem sido beneficiada pela introdução do esporte na rotina das crianças, muitas delas oriundas de famílias desestruturadas. “A gente está conseguindo dar outra cara para a comunidade”, encerra.

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