Lagoa da Conceição renasce com novo mix de comércio para atrair público familiar

Identificada como cartão-postal de Florianópolis, a região da Lagoa da Conceição perdeu espaço nos últimos anos para outros bairros da Capital, mas está prestes a recuperar o fascínio com um novo mix de comércio e serviços. Ao invés das famosas baladinhas, galerias de arte, cafés, escolas e restaurantes dos mais diversos atraem um público novo, familiar, e na véspera da alta temporada, oferecem perspectivas otimistas para a Lagoa voltar a ser o que já foi: a alma da capital catarinense.

Lagoa da Conceição - Flávio Tin/Arquivo/ND
Lagoa da Conceição – Flávio Tin/Arquivo/ND

Um exemplo dessa mudança é a avenida Afonso Delambert Neto, que concentrava bares e casas noturnas, e chegou a ganhar o apelido depreciativo de “Faixa de Gaza”, em alusão ao território conflitado por israelenses e palestinos no Oriente Médio, devido a brigas e arruaças entre frequentadores. A via foi totalmente remodelada a partir da demolição de fachadas e estruturas antigas e a construção de empreendimentos novos. A loja de uma rede nacional de farmácias, por exemplo, ocupa o lugar de uma antiga casa de shows de sambarock.

Quase ao lado, o artista plástico Luciano Martins instalou sua loja, em um dos poucos prédios com estacionamento próprio. Morador do bairro há 25 anos e também ex-sócio de uma balada (Nomuro), Martins é fã da “mistura” que o bairro oferece, tendo inclusive recusado convites para mudar a loja para Jurerê.

Bem localizado, ele observa o renascimento da Lagoa da Conceição após um período sombrio. “Essa mudança é perceptível. Antes, a concentração girava em torno do posto (de combustíveis). Hoje, é possível dar a volta na quadra, está mais espalhado, mas é um comércio mais estruturado, com previsão de durar o ano inteiro”, diz.

Presidente da Amola (Associação de Moradores da Lagoa da Conceição), Eliane Gomes Marcel Butin também acredita que a região esteja sendo modificada graças ao mix do comércio e de serviços. “Esse será o ano da primavera na Lagoa em pleno verão, pois estará florindo tudo que foi plantado”, declara a líder comunitária, diante de parcerias firmadas com a Acif (Associação Comercial Industrial de Florianópolis), Polícia Militar e Ministério Público de Santa Catarina, que visam garantir condições de segurança para moradores e turistas na região.

Para Eliane Butin, o comércio predatório que trouxe muitos ambulantes para a região em anos anteriores perdeu espaço para um comércio de maior qualidade, que oferece uma estrutura mais elaborada e cita a loja de sandálias/chinelos, que substitui um mercado em frequente conflito com órgãos públicos, e a flagship (loja conceito)  do Café Cultura. “A nossa expectativa é de que possamos ter uma temporada completamente diferente dos últimos anos”, afirma.

Segundo Eliane, a loja conceito instalada na rua Manoel Severino da Silva é o case de sucesso da Lagoa. O prédio amplo inaugurado em março, em um momento econômico e político conturbado no país, reflete bem a crença dos sócios-proprietários no bairro. “A gente acredita muito na Lagoa e pensa sempre em melhorá-lo. A gente sente um ânimo no mercado e não é só na gastronomia. As lojas estão se modernizando, melhorando o mix da região”, destaca a empresária Luciana Melo, também moradora do bairro.

Apelo turístico seduz novos empreendedores

Vanessa Godoy atende turistas argentinas na Galeria Lucas Foletto - Foto: Marco Santiago/ND
Vanessa Godoy atende turistas argentinas na Galeria Lucas Foletto – Foto: Marco Santiago/ND


A empresária Vanessa Godoy e o fotógrafo Lucas Poletto nem cogitaram outro lugar de Florianópolis que não fosse a Lagoa da Conceição para abrir uma galeria com um conceito diferenciado: vender imagens de Florianópolis transformadas em produtos e ainda oferecer café e bebidas no deque frontal do estabelecimento. Aberta há 40 dias, a galeria localizada na avenida Afonso Delambert Neto comercializa desde monóculos, passando por canecas, cartões-postais, almofadas, posters e até pranchas de surfe, com imagens produzidas por Poletto. “A nossa ideia é estender a parceria com outros fotógrafos”, ressalta Vanessa.

A dupla já trabalhava com o conceito de transformar imagens em produtos exclusivos através de pedidos de arquitetos, mas faltava algo. “O ponto físico era necessário. Além dessa identidade da Lagoa que a gente expressa através das imagens, aqui também temos o apelo turístico”, explica.

O público tem gostado da novidade. Instaladas na Barra da Lagoa, as turistas argentinas Veronica Urbano, Morena Tonon e Silbina Gomes visitaram a Lagoa na quinta-feira (29) e ficaram encantadas com a qualidade dos produtos oferecidos na galeria. “É tudo muito lindo e muito limpo”, comentou Silbina, que está em Florianópolis pela primeira vez a convite da amiga Veronica, que visita Florianópolis há cinco anos.

Parador com visual da Lagoa promete ser point familiar

Tchello e Salerno gestaram o Kai durante dois anos e meio - Foto: Marco Santiago/ND
Tchello e Salerno gestaram o Kai durante dois anos e meio – Foto: Marco Santiago/ND


Proprietário de uma marina há 20 anos, Tchello Brandão sempre teve as águas da Lagoa da Conceição à disposição para ajudar a comercializar barcos e motos aquáticas. A crise econômica chegou, as vendas caíram e o empresário não desperdiçou o visual da Lagoa para construir um parador que promete ser o point das famílias nesta temporada.

Denominado Kai – mar ou oceano em havaiano -, o parador localizado no início da avenida das Rendeiras conta com diversas opções de comida (italiana, japonesa, sanduíches e petiscos) e ainda oferece a chance de praticar esportes como stand up paddle, wakeboard, flyboard ou pilotar uma moto aquática (desde que habilitado). “Queríamos fazer um ambiente diferenciado, para que as pessoas possam ter uma experiência, pois aqui oferecemos um cardápio de bebidas, comidas e de esportes”, conta Brandão, que tem a parceria dos empresários Fernando Salerno e Fernando Rigobello no empreendimento.

Uma sala kids higienizada e uma pequena praia com areia certificada garantem espaço para a criançada, enquanto os pais curtem o visual da Lagoa. “Estamos interessados no público que curte um lugar mais legal e refinado e não precisa se deslocar, por exemplo, até Jurerê”, afirma Brandão.

Localizado à beira da Lagoa, o parador é estruturado com containers e deques de forma que fosse possível obter as licenças necessárias para funcionamento do empreendimento. Uma preocupação dos empreendedores foi compor o ambiente com matéria-prima adquirida na Lagoa da Conceição. A entrada, por exemplo, é um portal formado por duas enormes carrancas produzidas por um escultor local e a famosa canoa de um pau só, como são chamados os barcos produzidos com tronco do garapuvu, árvore símbolo da Capital. “Os móveis foram produzidos no chamado processo handmade (feito à mão) e o comércio todo ganhou. Dentro das possibilidades, queríamos fazer algo que pudesse compor com o local”, completa Salerno.

Turistas aproveitam e curtem a Lagoa

Família gaúcha acompanha o movimento no Centrinho - Foto: Marco Santiago/ND
Família gaúcha acompanha o movimento no Centrinho – Foto: Marco Santiago/ND


A alta temporada ainda não começou, mas os turistas já aproveitam para circular pelas ruas do bairro. Sentados em um banco em frente de uma loja na rua Henrique Veras do Nascimento, o casal Paulo Santos e Sueli Silva aguardavam a presença da filha, Paula, com uma tranquilidade que já não estão mais acostumados a ter em Gravataí (RS), onde moram.

“Viemos visitar a filha que mora no caminho para a praia da Joaquina. Aqui é outra coisa, bem diferente. Dá até para mexer no celular sem ficar com medo de ser roubado”, avisa Paulo. O casal está em Florianópolis pela segunda vez desde que a filha adotou a Capital para morar e sentiu uma diferença. “O comércio aumentou bastante mesmo”, diz Sueli.

Já o argentino Leandro Vallejos está disposto a morar na Lagoa após uma visita de 45 dias. Além da localização geográfica, entre o Norte e o Sul do Ilha, Vallejos destaca a identidade cultural. “A galera que está aqui tem a mente muito aberta. Enquanto no Norte tem mais festas, e o Sul é mais natureza, aqui é mais arte”, justifica.

Um pouco da história da Lagoa da Conceição

A região do bairro Lagoa da Conceição foi habitada primeiramente pelos Carijós, índios tupi-guarani. Os índios também marcaram presença em algumas heranças deixadas aos açorianos, como o cultivo da mandioca e a canoa produzida com o tronco de garapuvu.  Entre 1748 e 1756, os açorianos desembarcaram na Ilha de Santa Catarina e foram assentados em microrregiões afastadas, cada qual com administração, igreja e polícia próprias, denominadas freguesias. A Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa foi uma das primeiras, fundada em 19 de junho de 1750.

Engenhos de cana de açúcar e mandioca localizados no entorno da Lagoa, principalmente na Costa da Lagoa, fizeram a região ser considerada um dos celeiros da Ilha. A riqueza fez com que surgissem construções em estilo colonial português, com sobrados e pequenas casas, mas há também alguns exemplos de arquitetura francesa, como o conhecido “Casarão” que atualmente está em reforma e abriga um centro de atividades culturais, o Centro Cultural Bento Silvério. A partir de 1980, o então distrito da Lagoa da Conceição começou a receber novos moradores vindos de outras cidades, e passou a ser conhecido como lugar de vida noturna, com bares, restaurantes, além de pousadas e hostels.

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