Largo da Alfândega é um marco na história de Florianópolis

Símbolo importante da história da Capital, a Alfândega, mesmo perdendo a função de origem, virou ponto de grande movimento para o comércio desde 1877

Embora destituída de suas funções originais desde meados dos anos 1960, e apesar dos diferentes usos que passou a ter a partir de então, a Alfândega foi um espaço relevante para a cidade quando a comercialização de produtos precisou ser regulamentada e devidamente taxada pelo governo.

Reconstruído em um novo endereço após um incêndio, em 1866, local foi ressignificado após aterro afastar o mar do prédio – Foto: Reprodução/ND

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No livro “Florianópolis – Memória urbana”, a arquiteta Eliane Veras da Veiga escreveu, falando da inserção das alfândegas nos cenários urbanos: “Os postos arrecadatórios ou controladores do fluxo das riquezas tiveram, no passado das cidades litorâneas, especial importância”. Requalificado, o Largo da Alfândega será entregue amanhã pela Prefeitura de Florianópolis, enquanto o prédio passa por obras de restauração.

No contexto citado no livro de Elaine Veiga, essas instituições sempre se situavam próximo à praça central, à igreja matriz, à Casa de Governo e à Casa de Câmara e Cadeia. A primeira alfândega do Desterro, antigo nome de Florianópolis, ficava na esquina da praça 15 de Novembro com a rua

Conselheiro Mafra, onde dividia espaço com Provedoria da Fazenda Real. Foi esse edifício que explodiu em 24 de abril em 1866, forçando as autoridades a buscarem um novo local para abrigar a Alfândega. No endereço antigo funcionou durante muito tempo o hotel Laporta e, depois, a Caixa Econômica Federal, até a implosão do prédio, em agosto de 1990.

Obra tem estilo neoclássico

Construída a partir de 1875, entregue um ano depois e com operação efetiva em fevereiro de 1877, a Alfândega é uma edificação em estilo neoclássico que possui três volumes independentes (o corpo central e dois armazéns laterais), marcados por um eixo central (voltado para o acesso principal, na rua Conselheiro Mafra) e a antiga saída pelo mar, que atualmente leva ao largo.

“Os materiais e soluções técnicas construtivas empregadas na edificação são típicas de construções luso-brasileiras do século 19, com acabamentos de requinte, como a utilização de pedra de lioz, importada de Portugal para a construção dos edifícios oficiais”, diz a direção do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), por meio de sua assessoria de comunicação. O edifício é tombado pelo Iphan como Patrimônio Cultural Brasileiro desde 1975.

Na época da construção do edifício atual, a cidade estava mais concentrada ao sul da praça principal e o centro ocupava o entorno da catedral. Em 1890, o Desterro começou a receber os primeiros aterros, a começar pela Prainha. Com o crescimento dos anos 1960 e 70, um novo aterro afastou a cidade do mar e abriu-se espaço para a ampliação do largo.

Quando tudo era distante

Na segunda metade do século 19, quando o prédio atual da Alfândega foi inaugurado, a cidade do Desterro era repleta de embarcações que ligavam os portos canoeiros do Ribeirão (Porto do Contrato), Rio Tavares, Lagoa da Conceição e Santo Antônio de Lisboa. Era nesses lugares que muitos nativos mantinham um pedaço de terra, uma morada modesta, uma canoa e alguns animais.

Perto do mar, prédio recebia produtos como farinha e açúcar, vindos de canoa do interior da Ilha – Foto: Reprodução/ND

E a comunicação se dava pelas águas das baías e por rios e córregos – caminhos d’água que deixaram raros vestígios para as novas gerações. Para se ter ideia de como tudo mudou, o rio Tavares tinha cerca de 20 metros de largura, avançava até oito quilômetros pelo interior da Ilha e ligava a parte sul da Lagoa à região do Mercado Público.

Uma bela descrição desse cenário bucólico é dada pelo professor Paulino de Jesus Francisco Cardoso, no livro “Negros em Desterro: experiências de populações de origem africana na segunda metade do século 19”. Interpretar a história do ponto de vista dos negros é uma forma de mostrar como se davam as relações sociais e interpessoais num momento em que a escravidão ainda estava longe de ser proscrita no Brasil.

Canoa de farinha, açúcar, aguardente e couro

Em suas pesquisas, o autor do livro levantou informações sobre a mobilidade numa época de grandes distâncias. “Difíceis e longos eram os trajetos, percorridos em carro de boi pela antiga rede de caminhos que interligavam as póvoas portuguesas da Ilha de Santa Catarina”, escreveu Cardoso.

Mas era de canoa que a farinha, o açúcar, o aguardente e o couro vinham das vilas interioranas para a cidade. No início do século 19, a Ilha contava com 350 engenhos de farinha de mandioca, 38 engenhos de açúcar, 67 atafonas de moer milho, 16 curtumes e 102 engenhos de aguardente. Por via terrestre, havia caminhos tortuosos para o Sul e o Norte da Ilha. Tomar o rumo de uma freguesia exigia paciência, fosse por terra, fosse por mar. Os carros de boi utilizavam veredas antigas que levavam às velhas fortificações militares em torno das quais cresceram algumas vilas do interior.

“Assim, por vias penosas, quase sempre intransitáveis, cada estrada poderia levar até as localidades mais extremas – Naufragados ao Sul e Ingleses ao Norte”, diz Paulino Cardoso em seu livro. “Por esta razão, e talvez não só por ela, os ilhéus tendiam a fazer do mar e dos pequenos rios as vias de comunicação mais importantes”. Por isso, também, os viajantes estrangeiros dos séculos 18 e 19 deixaram muitos registros da presença de canoas na Ilha e arredores.

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