“1906” – Construção do Hospital São José, novo espaço para a Saúde em Joinville

Moderno, prédio do Hospital São José atendia às preocupações sanitárias da época e dava continuidade ao Hospital de Caridade, instituição surgida no início da colonização

 

AHJ/Reprodução/ND

Concluído em 1906, o prédio do Hospital São José, com apenas uma ala

 

            O século 20 chegou em Joinville com um desejo de modernidade. Esta tendência, que já vinha do século 19 nas grandes cidades do mundo, como Paris, e que as capitais brasileiras já colocavam em prática, também se espalhava pelo interior. Este movimento trazia um olhar para a saúde pública e o controle de doenças causadas pela precariedade das condições sanitárias. Higienização era a palavra de ordem no momento. Nesse contexto, Joinville também dava seus passos rumo à modernidade, em diversos setores. Na área da saúde pública, foi uma época de retirar das ruas centrais as valas negras que ainda existiam. Mas também era preciso um novo lugar para atender aos doentes. O antigo hospital municipal encontrava-se em condições precárias e precisava de muito mais que uma reforma. Começou então uma mobilização efetiva, com arrecadação de recursos, para a construção de um novo prédio. E em junho de 1903 era lançada a pedra fundamental da nova edificação. Era o início do novo Hospital de Caridade, que seria inaugurado em junho de 1906, e chegaria até os nossos dias como o principal da região: o Hospital Municipal São José.

            A antiga Colônia Dona Francisca já contava com atendimento médico-hospitalar desde o início, pois, conforme explica a historiadora Sandra Guedes em seu livro “Instituição e Sociedade: A trajetória do Hospital Municipal São José de Joinville”, a instalação de um hospital fazia parte das exigências do governo imperial brasileiro à companhia colonizadora que começava a trazer os imigrantes. “A divisão dos gastos com infraestrutura sanitária, com a contratação de médicos e a construção de hospitais, com as companhias colonizadoras, tornou-se uma estratégia do governo imperial para difundir médicos e procurar controlar as epidemias”, escreveu.

            Nessa época, com as condições sanitárias precárias, as epidemias grassavam e não eram raras mortes causadas por elas. No primeiro ano de imigração, das 468 pessoas que chegaram à colônia, 45 morreram. Em seu livro “História de Joinville – Crônicas da Colônia Dona Francisca”, Carlos Ficker cita os artigos do médico Wilhelm Krebs no “Jornal da Emigração”, de 1852, onde era relatada a situação da saúde na colônia. Doenças como disenteria e malária eram frequentes. Mesmo vários anos depois desse início, na prática, os doentes eram tratados em casa e o médico e o hospital só eram procurados em último caso.

            Assim, a Colônia desde 1851 mantinha uma pequena casa (que também servia de residência para o médico) para atender aos doentes do local. Em 1852, foi erguido um novo prédio, na rua do Meio, a atual rua 15 de Novembro. A partir de 1858, ele foi transferido para a rua Visconde de Taunay (na época ela se chamava Deutsch Strasse) e, em 1864, ganhou uma nova casa, “com tijolos, cal, areia e ‘esquadrias de madeira envidraçadas’, de 1204 braças”, informa a historiadora. O local ficava ao lado de onde está o Hotel Tannenhoff, onde há uma antiga casa enxaimel, de esquadrias azuis. A pesquisadora Brigitte Brandenburg revela que é só que sobrou do complexo de edificações desse antigo hospital, que incluía até a casa da parteira.

            Este hospital, que a princípio era de responsabilidade da direção da Colônia Dona Francisca, foi transferido ao poder público no fim do século 19, quando o médico, empresário e uma das principais lideranças políticas da época, Abdon Baptista, era presidente da Câmara Municipal. “Abdon Baptista foi o primeiro político e médico a utilizar o Hospital Municipal como baluarte político”, ressalta Sandra Guedes em seu livro. Após essa transferência, foi intensificada a mobilização para erguer uma nova construção.

AHJ/Reprodução/ND

Pacientes do início do século passado no momento do banho de sol

Casarão velho e sem condições higiênicas

            A preocupação com as epidemias, a necessidade de construir um novo prédio e os recursos que seriam dedicados para isso aparecem nos relatórios da Superintendência de Joinville desde o final do século 19 até os primeiros anos do século 20. Nesses relatórios, os superintendentes (chefes do Executivo, como o atual prefeito) prestavam contas de sua gestão – listando o que fizeram, o que gastaram e o que ficou pendente.

            Em 1899, o superintendente Gustavo Adolpho Richlin mostrava a preocupação com a peste bubônica que se espalhava por São Paulo e as medidas preventivas para evitar que a moléstia atingisse Joinville. Ao final, comentava aliviado que o problema não havia chegado por aqui e informava sobre o movimento do hospital local. “Felizmente, tem sido satisfatório o estado sanitário, durante o ano de 1899, em nosso município. Não reinou epidemia alguma, exceptuando vários casos de influenza de caráter benigno (…) Correspondente a esse bom estado sanitário o movimento no Hospital desta cidade também foi pequeno. Tiveram tratamento durante o ano, nove indigentes, representando um total de 165 dias. Tiveram alta 6 e faleceram 3 doentes”. Nesse mesmo relatório, ele já informa a posse de 28 apólices inalienáveis do Estado, para patrimônio do Hospital de Caridade. Esses recursos foram empregados alguns anos depois no novo prédio.

            No início de 1904, ao divulgar o Relatório de 1903, o superintendente Procópio Gomes de Oliveira chamava a atenção para as condições precárias em que se encontrava o antigo hospital e autorizava, por meio da Resolução nº 54, a construção de um novo prédio, logo que se conseguisse arrecadar a quantia mínima de 10 contos de réis. “Continua o nosso hospital a ser mantido no velho casarão a que faltam condições higiênicas, a começar pela impropriedade do local onde se acha, além disso quase em ruínas e sem oferecer proveito para ser reedificado e mesmo consertado. Em vista disso, empreendi a urgência que há em erguer-se à desventura pública um abrigo que realize o caridoso fim a que se destina e que corresponda o sentimento piedoso de nossa população”, consta no relato que justifica a nova resolução.

            Oliveira explica que encontrou em caixa, deixado pelo antecessor, pouco mais de um conto de réis destinado à nova edificação. A partir daí, começaram tratativas para obter os recursos para a obra e o terreno para o novo prédio. Uma instituição identificada apenas como “Grêmio Beneficente” doou ativos em dinheiro e ações da Companhia Industrial, no valor de 4 contos. E o padre Carlos Boegershausen doou um terreno com 70 metros de frente e 300 de fundos, na rua Santa Catharina, atual avenida Getúlio Vargas, com a condição de que ele fosse administrado por irmãs de caridade. “A igreja Católica contribuiria com o poder público minimizando os problemas ligados à saúde pública, facilitando os objetivos políticos da Superintendência e, em troca, aumentava seu próprio poder, já que grande parte da população da cidade era de confissão luterana”, destaca a historiadora Sandra Guedes.

            Assim, em junho de 1903, o terreno começava a ser aplainado. Os tijolos e telhas para obra, assim como as tábuas de peroba e canela, também já eram encomendados aos fornecedores locais. Enquanto o novo hospital era construído, o antigo continuava a ser usado. No Relatório de 1904, Procópio Gomes prestava contas da subvenção do Estado, paga mensalmente, totalizando 4:571.971 anuais.

            Mesmo assim, o superintendente ressaltava a falta de condições higiênicas desta edificação ao informar sobre os avanços da obra. “Verdadeiramente empenhado na realização desta obra de caridade, um dos objetivos que mais me tem preocupado no decorrer de minha superintendência, satisfatoriamente auxiliado pela comissão de obras públicas, apresento-vos, hoje em desenvolvido estado de adiantamento, quase prontificada a acolher os enfermos do velho edifício, por todo modo imprestável para o fim requerido pela higiene e confortabilidade”, consta no relatório.

AHI/Divulgação/ND

Nova construção, nos anos 60, já bem mais moderna, engole o antigo prédio

Instituição remonta ao início da colonização

            A prestação de contas do superintendente evidencia algo que muitas vezes passa despercebido ao falarmos do Hospital Municipal São José: a instituição remonta ao início da Colônia Dona Francisca. O que surgiu em 1906 foi o novo prédio do Hospital de Caridade. Na época da inauguração, inclusive, os dez pacientes internados no antigo prédio da rua Visconde de Taunay foram transferidos para as novas instalações, sob cuidados das irmãs da Divina Providência. “Era a mesma de 1852, sustentando o mesmo nome, inclusive”, destaca Sandra Guedes, acrescentando que “considerar a data de 1906 como a da inauguração da instituição, e não apenas de um novo prédio, era simbolicamente importante para a afirmação de uma independência político-administrativa dos colonos em relação à Sociedade Colonizadora e ao Governo Provincial”.

            As obras para o novo hospital foram intensificadas em 1905 e no início de 1906 a “Gazeta de Joinville” publicava notinha informando que a chegada das irmãs de caridade que iriam trabalhar no novo Hospital de Caridade estava prevista para abril. O mesmo jornal informava, nas edições seguintes, que para Joinville viriam irmãs que já atuavam em Florianópolis. E para substituí-las na Capital viriam mais religiosas da Alemanha. Logo chegavam três freiras: uma que era superiora do Colégio Sagrado Coração de Jesus, uma enfermeira e uma cozinheira.

            A população local foi mobilizada para a obra. Para levantar fundos eram realizados bazares e angariadas doações – os nomes desses doadores eram publicados nos jornais e, se por acaso faltava um, era feita a correção nas edições seguintes. Em março de 1906, a “Gazeta de Joinville” publicava  a redação premiada de um aluno do Instituto Joinvillense (instituição de ensino subvencionada pelo município), falando sobre o novo hospital e enaltecendo a figura do superintendente, indicando a forte vinculação entre a imagem de Procópio Gomes e a da instituição, e evidenciando a questão do uso político da obra pública, abordada pela historiadora.

Reprodução/ND

Relatório de despesas de 1903, com demonstrativo do “Fundo para Edificar o Novo Hospital”

Inauguração em junho de 1906

            O Hospital de Caridade foi inaugurado no dia 4 de junho de 1906. Do topo da escadaria principal, Procópio Gomes de Oliveira leu seu discurso, onde destacava a origem dos recursos para a obra e as doações. “Devo particularmente salientar os serviços prestados pelo senhor Ernesto Canac, quando deputado estadual, tendo esforçadamente conseguido do governo do Estado uma verba anual para a manutenção do velho hospital, verba esta que acumulada durante anos constituiu o patrimônio do hospital, do qual, pela venda das apólices alienáveis e juros dos alienáveis que constituíam o referido patrimônio, obtive quantia bastante importante para a sua construção”. E prosseguia falando dos doadores particulares e das subvenções públicas. “Com os donativos das pessoas que passaram por essa cidade, com a esmola de joinvilenses residentes em São Paulo, ofertas de particulares e de firmas comerciais do Rio e Santos, resultado do bazar realizado no ano passado e consignação do município, venda do terreno e edifício em que funcionava o velho hospital, pude conseguir o capital preciso para a realização do meu e vosso desideratum, capital esse que montou a mais de 40 contos de reis”.

            A proposta do novo hospital também foi destacada no discurso. Mais que tratar dos enfermos, ele deveria ser um local de caridade. “Eu espero e desejo que sempre há de ser um verdadeiro asilo paternal, abrigo santificado para os desventurados”, afirmou. Uma ala de “indigência” funcionou durante anos no local, como já ocorria antes, no antigo prédio.

            O certo é que logo o hospital se estabeleceu como referência na região, recebendo pacientes das redondezas. Principalmente porque não havia muitos outros similares. São Francisco do Sul, por exemplo, costumava enviar seus doentes para serem tratados em Joinville e só dez anos depois, em 1916, é que começou a delinear a construção de um hospital para a cidade.

            Quando foi inaugurado, o Hospital de Caridade só tinha a parte frontal e a ala esquerda. O próprio superintendente informava em seu discurso que o restante das obras ficariam a cargo de seu sucessor. Ainda faltava a ala direita, o isolamento e o necrotério. De lá para cá, o hospital passou por sucessivas ampliações e reformas, e na década de 1960 foi definitivamente “escondido” e incorporado pela construção de novo prédio. Na época, foi chamado de o “Novo Hospital São José”.

Arquivo/ND

Historiadora Sandra Guedes

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