Lembranças da escola que foi referência por mais de quatro décadas em Joinville

Conhecida como Escola de Comércio do Professor Nelson de Miranda Coutinho, estabelecimento oferecia aulas de datilografia, contabilidade, português, redação comercial e até estenografia

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O início do estabelecimento, em 1950, foi com seis máquinas de escrever da marca Remington e 27 alunos

Nas décadas de 1950, 60, 70, para conquistar um emprego nos escritórios de uma das muitas empresas da região, tinha um pré-requisito básico: saber datilografia. Quem queria ir além na carreira, porém, precisava de mais. Tinha que ter conhecimentos de contabilidade, português, redação comercial e até estenografia. E se o diploma fosse da Escola Prática de Comércio Joinvile (assim, mesmo, com um ‘l’ só), então, a contratação era praticamente certa.

Mais conhecida como “Escola de Comércio do Professor Nelson de Miranda Coutinho”, durante mais de quatro décadas foi uma referência na região, formando milhares de profissionais para um mercado de trabalho que, na época, estava em plena expansão.

A escola começou de forma modesta, em 1950, na esquina da rua Abdon Baptista com avenida Procópio Gomes, exatamente onde hoje tem um posto de gasolina. Lá, em uma casa alugada de José Kalef e Bilica, moravam o professor Nelson de Miranda Coutinho e a mulher, Clemência. O casal reservou uma pequena sala para a escola, que nesse primeiro ano contava com seis máquinas de escrever Remington e 27 alunos. O número de alunos logo se multiplicou e no ano seguinte a escola já estava cheia. Ao longo dos 43 anos de funcionamento, chegou a formar mais de 1.000 alunos por ano, somando os da escola de comércio e os que faziam apenas o curso de datilografia.

A abertura do estabelecimento de ensino teve o apoio de Abib Cury, grande amigo de Nelson, que na época trabalhava com máquinas de escrever na avenida Procópio Gomes, hoje quase em frente à Havan. A influência da família também foi forte. Filho caçula do professor, Pedro Nelson Coutinho conta que a avó era professora e durante anos alfabetizou crianças no bairro Iririú. “Meu pai gostava e resolveu fazer algo na área do magistério”, conta. No início das atividades, Nelson tinha o equivalente ao segundo grau (ensino médio), com o curso de contador. Depois, cursou a Faculdade de Direito na Universidade Federal do Paraná. Formou-se em 1955 e durante anos conciliou as atividades de professor e administrador da escola com a de advogado.

A professora Ruth Lemos lembra bem dessa época. No início de 1954, aos 16 anos, ela se matriculou na antiga casa da rua Abdon Batista para fazer curso de comércio. “Me matriculei na casa onde moravam. Mas as aulas já eram do outro lado da rua”, conta ela, referindo-se a um sobrado na outra esquina da rua Abdon Baptista, onde funcionou a Jordan Veículos e hoje há uma concessionária de veículos. Ela começou as aulas de datilografia e auxiliar de comércio no dia 15 de janeiro, com era costume. No segundo semestre, após o recesso de 15 dias em julho, começou a trabalhar no local. “Trabalhei por quase 40 anos, até 1992. Só saí quando a escola fechou”, revela.

A escolha do nome da escola, com um “l’ só, não ocorreu por acaso. Nelson de Miranda Coutinho dizia que o nome da cidade, em português, se escrevia assim: “Ele dizia que Joinville com dois ‘l’ era um nome francês”, lembra Pedro, acrescentando que se fosse com dois “l” teria que ser pronunciado com o sotaque francês.

 Método didático próprio

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Clemência e Nelson de Miranda Coutinho lecionavam na escola

 O curso de auxiliar de escritório durava um ano e era ministrado de segunda à sexta-feira, com três horas/aula. De manhã, havia três turmas. A tarde era reservada para os serviços burocráticos da escola, e à noite, tinha mais uma turma. “À tarde, ele era advogado”, conta Ruth Lemos, referindo-se ao professor Nelson de Miranda Coutinho. Já as aulas de datilografia ocorriam durante todo o dia, com aulas de 50 minutos.

O método de ensino e o material didático eram próprios. No início de cada ano, era aberta uma firma fictícia na escola e os alunos eram os “funcionários”. Com isso, aprendiam desde a organização de uma nova empresa até a rotina diária dos empreendimentos. Todas as disciplinas eram direcionadas para a prática. O ensino de língua portuguesa, por exemplo, não se prendia à ordem da gramática tradicional, mas ao uso da língua no dia a dia. “Como se escreve, como se fala, a concordância. Essa era a finalidade do português da escola”, explica Ruth, contando que normalmente as apostilas eram feitas pelo professor Nelson e por ela, que dava as aulas de português, matemática e correspondência – e também trabalhava na secretaria, à tarde. O professor Nelson lecionava escrituração mercantil, serviços gerais de escritório e também correspondência. Com o passar do tempo, muitos professores lecionaram no local.

Nas aulas de matemática, o assunto girava em torno de juros, percentagem, pagamentos de funcionários. Dentro da empresa fictícia, eram simuladas folhas de pagamento, com as especificações encontradas na realidade, como pagamento de funcionários por mês ou por hora, descontos para o INSS, ou para sindicatos, por exemplo. Correspondência era voltada para cartas comerciais, memorandos, ofícios, cartas oferecendo ou requisitando serviços – e até reclamando. Os alunos eram treinados a escrever cartas e, depois, as respostas.

Já os serviços gerais de escritório incluíam desde faturamentos e pagamentos até duplicatas, e a escrituração mercantil era a contabilidade, com seus livros diários, razão, caixa e conta-corrente. O material didático era fornecido gradativamente, à medida que o conteúdo era explicado e os exercícios realizados. E as turmas/empresas chegavam a contar com blocos de notas fiscais personalizados, impressos a cada ano.

Nos primeiros tempos também havia a disciplina de estenografia, ministrada por Clemência de Miranda Coutinho.

Geralmente, os alunos eram encaminhados para a Escola Prática de Comércio Joinvile na 8ª série. Ao entrar, levados pelos pais – muitos ex-alunos -, a  maioria nem devia saber direito o nome da escola. “Vai para o Nelson Miranda!”, recorda Ruth Lemos, destacando a forma como a escola era conhecida. No fim do ano, havia a formatura na Liga das Sociedades, com direito à presença de autoridades, entrega dos diplomas, premiação aos alunos que se destacavam e até baile com música ao vivo. “E quem não queria convite para esse baile?”, comenta a professora.

Datilografia era à parte

 Embora o curso de datilografia fosse quase uma obrigação para quem pretendia ser auxiliar de escritório, ele também podia ser realizado independentemente. Se o aluno fizesse os dois cursos, levava o ano inteiro. Mas se optava por fazer somente datilografia, ficava na escola até estar apto para a prova final que, neste caso, era realizada ao longo do ano.

O Livro 1 dava toda a instrução básica e, ao final dele, o aluno já sabia datilografar. A partir daí seguia os demais livros para obter a agilidade desejada. A prova final era rápida e objetiva. Durava exatos cinco minutos. O aluno sentava-se em uma máquina de escrever e tinha que datilografar um texto nesse período, mantendo a média de 25 palavras por minuto com, no máximo, cinco erros. Caso contrário, voltava para as aulas para ganhar mais agilidade ou reduzir a quantidade de erros.

Ao longo do tempo, a escola saiu na rua Abdon Baptista e se instalou na rua do Príncipe, onde hoje fica a Caixa Econômica Federal. Depois, no fim dos anos 50, a família adquiriu a área onde era a confecção de Casimiro Silveira, na rua Itajaí, e instalou o curso lá. Em um primeiro momento, a família morou em uma casa que hoje está pintada de vermelho, do outro lado da rua. Depois, mudou-se para uma casa no terreno da escola.

Emprego garantido

Nos tempos de maior atividade, na rua Itajaí, chegavam a ter 60 alunos por turma, com dois professores. O motivo era simples. A reputação da escola era tão boa que as empresas abriam as portas para os recém-formados da Escola Prática de Comércio de Joinvile. E a própria escola se encarregava de colocar os alunos no mercado de trabalho. “As empresas pediam funcionários. Nós fazíamos uma pesquisa e encaminhávamos os melhores alunos”, conta Ruth, citando grandes organizações como Tupy, Embraco e Hansen, como exemplo.

A partir do fim dos anos 80, com as mudanças no mercado de trabalho e na economia, e a chegada de novas tecnologias, a procura foi diminuindo. Era preciso renovar o modelo, caso desejassem manter o negócio. Mas o professor Nelson de Miranda Coutinho já era idoso, com problemas de saúde, e, aos poucos, finalizou as atividades. No final de 1991, o curso de auxiliar de escritório fechou. No ano seguinte, foi a vez das aulas de datilografia. E em 1993, a escola foi oficialmente encerrada.

Um homem que fazia o bem

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Nelson de Miranda Coutinho teve o reconhecimento como Cidadão Benemérito de Joinville, recebido no final dos anos 80.

Nascido em 17 de abril de 1915, o professor Nelson de Miranda Coutinho teria completado o centenário este ano. Ele, porém, faleceu em 12 de janeiro de 1999. Deixou Clemência, sete filhos, milhares de ex-alunos e o reconhecimento como Cidadão Benemérito de Joinville, recebido no final dos anos 80.

Quando o professor morreu, seu filho caçula, Pedro, que já morava há anos no Tocantins, veio para Joinville e ficou por um tempo ajudando a mãe com o inventário e os obrigações burocráticas. E descobriu uma face do pai que não conhecia.

Silenciosamente, durante décadas Nelson de Miranda Coutinho dedicou-se a ajudar o próximo. Seja na escola, dando aulas de graça a quem não podia pagar, fornecendo ajuda para o transporte e alimentação de estudantes carentes, ou até pagando do próprio bolso outros cursos para pessoas que desejavam estudar e não podiam. Isto sem falar no encaminhamento para o mercado de trabalho de incontáveis jovens, na ajuda para pessoas necessitadas e na rotina como advogado. “Ele tinha um compromisso de ajudar o próximo que é inacreditável. Sem pedir nada em troca, sem falar com ninguém”, revela o filho, que só começou a saber disso depois que o pai tinha morrido. “Ele fez um voto de simplicidade… Vivia de forma extremamente simples, embora tivesse uma renda razoável”, constata.

Ao conversar com as pessoas da cidade, Pedro foi ouvindo histórias de um pai que semeava o bem. E se surpreendeu ao tentar pagar as custas do inventário. Um advogado, com um sentimento de gratidão ao professor, se ofereceu para fazer todo o processo e recusou o pagamento. Ao ser questionado sobre o porquê da atitude, ele abriu uma gaveta e mostrou um processo importante para ele, feito por Nelson de Miranda Coutinho de graça.

“Aí fui entender porque ele recebeu a distinção de Cidadão Benemérito”, explica o filho. Um título que precisou ser entregue na Catedral Diocesana de Joinville, pois a Câmara de Vereadores se tornou pequena para a quantidade de pessoas que foram prestigiar o professor. “Foi o reconhecimento de tudo o que ele fez pela cidade”, constata Pedro, revelando que o pai se emocionava quando lembrava desse momento.

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