Lendas e histórias do Parque da Luz

O Parque da Luz, uma linda área verde com mais de 37 mil metros quadrados no Centro de Florianópolis, existe há 20 anos. Mas esse cenário bucólico tem muito mais história do que se possa imaginar.

Área também era usada para enterrar escravos, indigentes e animais, antes de virar cemitério municipal no século 19 – Anderson Coelho/ND

Em 1840, o terreno foi escolhido para abrigar o primeiro cemitério público da então Desterro, mas há boatos de que tenha sido um antigo cemitério indígena. “O que se sabe pelos documentos é que no local eram enterrados escravos, indigentes e animais, mas não há relatos oficiais sobre indígenas”, diz a doutora em História Cultural e presidente da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais, Elisiana Trilha Castro.

A grande maioria dos frequentadores do Parque da Luz, entretanto, desconhece esse fato. Como a dona de casa Tainay Jennifer Souza da Silva, 21 anos, residente em Palhoça. Ela costumava frequentar o parque quando morava no Centro, há cerca de dois anos. “A gente vinha fazer piquenique e tirar fotos, estava sempre cheio de gente”, diz. “Mas eu não sabia que era um cemitério, agora fiquei com medo! Então era por isso que uns amigos diziam que tinha assombração aqui, à noite”, afirma.

Tainay Jennifer Souza da Silva ficou com medo ao saber que o Parque da luz já foi um cemitério – Anderson Coelho/ND

A surpresa também foi grande para o visitante de São José, Diego Eugênio dos Santos (39 anos), que brincava com o filho Estevão (7) no parquinho na tarde desta sexta (17). “Já vim várias vezes aqui, sempre de passagem, enquanto aguardo alguma consulta médica. Mas não fazia ideia que isso aqui era um cemitério”, relata.

Segundo o presidente da Associação Amigos do Parque da Luz, Carlos Cezar Stadler, depois que o cemitério foi transferido, estudantes de Odontologia e Medicina vinham procurar caveiras e ossos para estudos de anatomia. “Até o jardineiro daqui conta que achou ossos no local, mas eu nunca vi”, diz. A história é corroborada pela historiadora. “Entre 1930 e 1940 os estudantes vinham procurar ossos e mandíbulas para estudos, e há relatos orais de que crianças brincavam de taco com ossos de fêmur encontrados aqui”, diz.

30 mil sepultamentos

O cemitério municipal funcionou por 82 anos no local que também era conhecido como Morro do Estreito, Colina da Vista Alegre, Morro do Vieira ou o Morro do Barro Vermelho. Estima-se que 30 mil sepultamentos tenham sido feitos ali.

Criado há 20 anos, Parque da luz foi o primeiro cemitério da então Desterro, em 1840 – Anderson Coelho/ND

A área ocupava uma parte do atual Parque da Luz e destinava espaço para as irmandades e ordens religiosas existentes na cidade e também para indigentes e não católicos. Até então, o costume era enterrar as pessoas atrás, dentro e até nas paredes das igrejas.

O hábito foi proibido em 1843, já com a preocupação de evitar pestes e doenças, passando à utilização dos cemitérios. Mas passadas algumas décadas, começou-se a questionar se o local seria o mais adequado para abrigar os mortos.

A transferência da necrópole

Quando foi construído em 1840, o cemitério ficava afastado do centro, mas com a construção da ponte as pessoas começaram a achar que não era o local mais adequado para ter um cemitério. “O cemitério ficava no topo do morro que era muito mais alto do que é hoje [foi rebaixado duas vezes], estando bem à vista”, diz Elisiana. Era uma visão lúgubre na entrada da cidade.

Cemitério ficava no alto do Morro do Estreito, com vista para a Baía Norte – Reprodução/Anderson Coelho/ND

A discussão sobre a transferência da necrópole começou em 1887, motivada por questões sanitárias e pela expansão da área central a oeste. Como exemplo, tem-se a instalação do forno incinerador de lixo (1910), o complexo portuário e fabril Rita Maria (1896) e a construção da ponte Hercílio Luz (1920).

“Havia uma expectativa muito grande pela ponte Hercílio Luz, que era um anseio da população, por isso não há registros de resistência à mudança da necrópole”, afirma a historiadora. Entretanto, a mudança foi realizada somente a partir de 1925, durando cerca de três anos.

A transformação em parque

Depois de ficar abandonada por décadas, a área pública virou terreno baldio e vítima da especulação imobiliária. Antes que fosse vendida, moradores do entorno começaram a se mobilizar para criar uma área verde, fundando a Associação dos Amigos do Parque da Luz, em 1995.

Após colher dez mil assinaturas, o Parque da Luz foi finalmente estabelecido por lei municipal como AVL (Área Verde de Lazer), em 1998. Desde então, o local atrai moradores, turistas e pessoas de todas as faixas etárias que buscam sossego, um lugar para caminhar, descansar ou tomar sol em meio às árvores e dezenas de espécies de pássaros.

Carlos Cezar Stadler mostra área no mapa que virou o Parque da Luz – Anderson Coelho/ND

O local é mantido com muito esforço pela associação, que gasta em torno de três mil reais mensais com a manutenção. “Procuramos realizar eventos culturais que possam gerar algum retorno, mas ainda assim é difícil”, diz Stadler. O grupo de moradores tem projetos de melhorias, como a construção de uma ciclovia que ligará o parque à ponte Hercílio Luz e a iluminação na maior parte da área, para coibir a prostituição.

Os postes para a iluminação do parque já estão sendo instalados através do programa Floripa Iluminada. E a Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente) trabalha em conjunto com a associação de moradores, realizando a poda de árvores e debatendo futuros projetos para o parque.

Intenção é integrar o parque com a Ponte Hercílio Luz por ciclovia – Anderson Coelho/ND

Hoje é Dia de Jazz Bebê

Um dos eventos acontece neste domingo (19), quando o Parque da Luz recebe a segunda edição do ano do “Hoje é Dia de Jazz Bebê”, com três novas atrações. Além da apresentação do saxofonista cubano Élio Silveira, o evento terá oficina de construção de instrumentos musicais com materiais reciclados, Ninho de Leitura e interação musical com músico, compositor e educador Marcoliva.

Serviço:

O quê: Hoje é Dia de Jazz Bebê!
Quando: 19/5*, 14h30
Onde: Parque da Luz, R. Felipe Schmidt, Centro, Florianópolis
Quanto: Gratuito
* Em caso de chuva, o evento será transferido para o dia 2 de junho.

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