Líbano mira maconha para turbinar economia

BAALBEK, LÍBANO (FOLHAPRESS) – O solo amarelado do vale do Beqaa, no leste libanês, é rompido pelo verde das plantações de batata, feijão, milho -e maconha, erva que cresce de maneira clandestina por ali e pode ser parcialmente legalizada, promete o governo.

São longos e longos quilômetros protegidos por agricultores armados, alguns dos quais contam com pequenos exércitos. O dinheiro em tese financia a milícia Hizbullah, considerada uma facção terrorista pelos EUA, algo de que não há evidência pública.

No início deste mês, com as medidas de segurança relativamente relaxadas e o Exército deslocado à fronteira síria, a reportagem da Folha de S.Paulo pôde transitar pelo matagal sem passar por nenhum controle.

Apesar de serem ilegais, as plantações de maconha não são bem um segredo por ali. Camponeses se aproveitaram da guerra civil de 1975 a 1990 para investir nesse setor, enquanto o país se esfacelava.

O Líbano passou a produzir uma maconha de qualidade reconhecida no restante do mundo, financiando com esse lucro as diversas milícias ainda hoje na ativa. O Hizbullah, que controla parte desse país, é acusado de usar a maconha e o ópio para se armar.

O que é nova é a ideia de que o governo possa por fim legalizar essas plantações para se financiar e pagar as suas dívidas.

Essa estratégia consta inclusive, segundo a agência Bloomberg, de um plano apresentado pela consultoria americana McKinsey para que o presidente libanês, Michel Aoun, dê um sopro à economia, que cresce em ritmo medíocre desde 2011. A legalização da maconha e sua exportação são sugeridas como uma saída rápida e fácil.

Com isso, o país poderia cumprir os insistentes pedidos do FMI (Fundo Monetário Internacional) de que sane as suas contas: o Líbano devia no fim do ano passado 153% de seu PIB (Produto Interno Bruto), uma das taxas mais altas do mundo e quase o dobro da do Brasil: 84%.

Mas as relações entre o governo libanês e os plantadores de maconha são complicadas. De tempos em tempos o Exército desce ao vale, uma das fortalezas do Hizbullah, e queima as colheitas (“imagine se a fumaça vai à Síria, resolveria a guerra deles”, disse como provocação um libanês nos arredores das plantações).

Mas em diversos casos a população local empunhou armas para defender o que enxergam como seu modo de vida tradicional e a única maneira de sobreviver em um clima duro, em um país duro.

“O Estado negligenciou essa região por décadas, e a população decidiu plantar aquilo que lhes dava um lucro enorme para sobreviver”, diz Ohannes Geukjian, professor de política na Universidade Americana do Líbano.

“O governo prometeu investir em colheitas alternativas e em subsídios, mas nunca atuou. Agora diz que vai legalizar a maconha, mas por enquanto são só palavras.”

Quando a organização terrorista Estado Islâmico estava em seu auge na vizinha Síria, em 2012 e 2013, agricultores se armaram para proteger a maconha -em especial porque as milícias islamitas acreditam que essa substância é pecaminosa, assim como o tabaco, e querem destruí-la.

Já que as estratégias de combate do governo parecem não ter tido muito sucesso por ora, como demonstra a visita da Folha às extensas plantações, crescem os pedidos para que as autoridades locais testem outras soluções.

Uma das opções, apoiada abertamente por parte da liderança política do país, é que a planta seja legalizada ao menos para o uso medicinal, contribuindo para a melhora na qualidade de vida na região do Beqaa.

Hoje, mesmo o consumo de maconha e haxixe é punido com prisão no Líbano.

“É realmente uma situação peculiar”, afirma o professor Geukjian. “O governo não destrói as plantações no vale do Beqaa, mas pode deter uma pessoa pela posse ou pelo uso de maconha em Beirute.”

Se legalizarem a erva, talvez as autoridades atendam sem querer ao pedido feito há algum tempo por Noah Zaiter, líder de uma das famílias envolvidas no tráfico no Líbano.

De acordo com relatos da imprensa local, ele certa vez sugeriu ao governo: “legalizem a maconha e o haxixe por seis meses, e eu pago a sua dívida pública”.

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