Livro resgata histórias da praia de Fora, hoje entorno da rua Bocaiuva

Professora e arquiteta Eliane Veras da Veiga organizou o livro “A casa de chácara da rua Bocaiuva – Histórias da praia de Fora” – Foto: Foto Flavio Tin/ND

Quem caminha pelas ruas agitadas de Florianópolis não imagina que boa parte da cidade foi tomada por chácaras e casarões coloniais até meados do século 20. Eram glebas particulares, muitas delas de costas para o mar, onde havia bosques, pomares, hortas, alguma plantação e criação de animais.

E que para manter esses minifúndios em atividade o trabalho escravo foi essencial até a segunda metade do século anterior, quando Desterro, antigo nome da capital do Estado, ainda era um aglutinado de casas baixas, porto e comércio incipiente nas vias centrais. Uma das regiões onde as chácaras predominavam era a praia de Fora, espécie de periferia em relação ao centro histórico, que foi radicalmente transformada com o aterro que permitiu a construção da avenida Beira-mar Norte, na década de 1970.

A Casa de Chácara da rua Bocaiuva, morada dos Souza, na década de 1990 – Foto: Foto Roseli Maria de Souza Mosimann/Divulgação/ND

Um livro lançado esta semana traz à luz, com muitos dados novos ou até então esparsos, aspectos da vida e dos usos na praia de Fora, figuras que ali fizeram história, personalidades marcantes e proprietários que viviam da renda das chácaras e tinham influência sobre os destinos da cidade.

“A casa de chácara da rua Bocaiuva – Histórias da praia de Fora” utiliza a restauração de uma residência icônica para fazer uma radiografia da área, temperada com registros documentais, iconografia, depoimentos e lembranças de antigos moradores ou seus descendentes. A obra é organizada pela professora e arquiteta Eliane Veras da Veiga, autora de publicações fundamentais sobre o patrimônio arquitetônico de Florianópolis, que contou com a parceria de dois colegas da nova geração, Aline Steinheuser e Leonardo Bertoldi Borges.

Obra é organizada pela professora e arquiteta Eliane Veras da Veiga com os colegas Aline Steinheuser e Leonardo Bertoldi Borges – Foto: Foto Flavio Tin/ND

Centro de Memória

O livro é uma edição do Ministério Público de Santa Catarina, que em 2013 adquiriu a área onde estava a chamada “casa rosa” (nº 1792) para construir um prédio que abrigaria parte de sua estrutura e pessoal. Na época, houve uma série de questionamentos em relação ao tratamento a ser dado aos itens tombados na propriedade, incluindo a velha casa – estima-se que ela foi erguida no ano de 1855 – então sem ocupantes, em estado precário de conservação.

Av. Beira Mar Norte na década de 1970 – Foto: Acervo Banco de Imagens Casa da Memória/Divulgação/ND

O MPSC garantiu que preservaria o imóvel, e agora o entrega com o status de Centro de Memória da instituição e espaço sociocultural com programação de eventos artísticos regulares. “Poucos Ministérios Públicos do Brasil têm memoriais, e nós inauguramos este numa das últimas edificações com características coloniais na Ilha de Santa Catarina”, diz Tiago Maio, chefe do setor do Memorial no MP.

Ar aristocrático e moradores ilustres

Um testemunho abalizado sobre a praia de Fora foi dado por ninguém menos que Virgílio Várzea, um dos principais nomes da literatura catarinense, que por ali também circulou e que reporta escaramuças ainda no século 17 envolvendo índios e piratas, as pequenas capelas que o bairro já teve e uma semelhança, em vista do espírito aristocrático e da estética das construções, à orla de Botafogo, no Rio de Janeiro. Os arrabaldes do Desterro já haviam sido celebrados pelo viajante Auguste de Saint-Hilaire, no livro “Voyage dans les provinces de Saint-Paul et Sainte-Catherine”, de 1851.

Na obra “Santa Catarina: a Ilha”, escreveu Virgílio Várzea: “A paisagem da praia de Fora é verdadeiramente encantadora, pelo conjunto delicado de planos, altos e encostas arborizadas, onde predominam os coqueiros silvestres, as palmeiras, as mangueiras e cedros, no meio de outras árvores frutíferas espalhadas aos milhares e das grossas moitas de arbustos, por entre as quais branquejam os frontões das vivendas e chácaras elegantes e da mais variada arquitetura, desde o chalet de modelo suíço às casas de estilo alemão, acomodadas ao clima tropical, com avarandados à frente ou ao lado”.

Moradia dos pais de Cruz e Sousa

A praia de Fora também abrigou a moradia dos pais do poeta João da Cruz e Sousa, maior nome do simbolismo literário brasileiro. “O poeta era um adolescente à época, e a suspeita é de que sua família residia no lado direito de onde está a igreja de São Sebastião, na rua Bocaiuva”, diz a arquiteta Eliane Veras da Veiga.

Virgílio Várzea citou em um dos seus textos o rio Carreirão, que passava dentro da chácara onde está a “casa rosa” recém restaurada, além das paineiras e da “árvore dos poetas” – indicação de que Cruz e Sousa era presença constante na região. O naturalista Fritz Müller, colaborador de Charles Darwin, e o historiador José Arthur Boiteux também moraram no bairro.

Rua Bocaiuva, próximo à esquina com a futura Avenida Trompowsky. Estas residências há muito foram demolidas – Foto: Acervo Banco de Imagens Casa da Memória/Divulgação/ND

Rua sinuosa que acompanhava a orla

Por suas características de bairro residencial, com casas que faziam uso do mar como depósito de lixo e descarte, a praia de Fora foi uma das áreas que mais se transformaram na cidade. As chácaras de escravocratas que também auferiam renda vendendo e alugando negros cativos deram lugar a edificações bem acabadas e, depois, a prédios de alto padrão onde moram muitos descendentes dos velhos moradores da Bocaiuva. Alguns deles estão no livro de Eliane Veras da Veiga, Aline Steinheuser e Leonardo Bertoldi Borges.

É o caso de Roseli Maria de Souza Mosimann, nascida em 1945, neta de José Antonio de Souza Júnior, que comprou em 1920 a casa que o Ministério Público transformou em memorial e espaço cultural. Em entrevista, em 2013, ela falou da rua: “A Bocaiuva chamava-se antigamente rua São Sebastião. […] Era sinuosa […], acompanhava a orla marítima. Eu ainda peguei a travessa Harmonia, essa rua em frente à casa, sem calçamento e cheia de voçoroca, no final”. Havia proprietários que moravam no centro da cidade e faziam da praia de Fora uma espécie de retiro ou balneário, mandando os empregados na frente com carroças e tralhas e vindo depois com a família.

Depois que a urbanização alcançou a região, em tempos mais recentes, os moradores saíam no fim da tarde, formavam grupos de conversa ou caminhavam pela orla. Havia as senhoras nas janelas, os homens sentados em cadeiras na calçada e crianças brincando nas ruas de chão batido ou no remanso calmo da baía.

A Bocaiuva e cercanias abrigaram lugares marcantes como os bares Topázio e Katcipis, a barbearia Vargas (que funciona ainda hoje em frente ao Beiramar Shopping), a Casa do Barão, a casa da família Hoepcke e um trilho de bondes que faziam o trajeto da Agronômica até o Parque da Luz.

Uma área de encontros, mas sem banhistas

A praia de Fora também assistiu à amerissagem de hidroaviões e à chegada de embarcações que vinham dos sítios de Santo Antônio de Lisboa, Sambaqui e Enseada do Brito com frutas, verduras, ovos e lenha para vender num trapiche da baía Norte. A praia não era usada por banhistas, mas as famílias faziam ali piqueniques, brincadeiras e pescarias despretensiosas. Em tempos mais remotos, havia um moinho de vento destinado ao beneficiamento de arroz pertencente aos sócios Ferdinand Hackradt Júnior, vice-cônsul dos Países Baixos no Desterro, e Andrés Carlos Ebel.

Restauração preservou as marcas da casa

O livro organizado por Eliane Veras da Veiga é um verdadeiro caudal de informações baseadas em documentos, plantas e mapas antigos, fotografias e depoimentos de protagonistas da história da praia de Fora, com repercussões e desdobramentos em toda a cidade. Ela conta que na casa nº 1792, que foi o mote para o início da pesquisa, muitas decisões foram tomadas, porque ali se reuniam próceres da política local, empresários e representantes eclesiásticos – autoridades eram nomeadas e destituídas nesses convescotes. Manoel Moreira da Silva, o Maneca Diabo, e Manuel José de Oliveira, conhecido como Pandica, são citados como os mais antigos donos da propriedade.

Edificação com características luso-brasileira

Na restauração, sob a supervisão da arquiteta Lilian Mendonça (da empresa Prospectiva), foram preservadas a volumetria e as características luso-brasileiras da edificação, com sua sala na entrada da frente, telhado de quatro águas e piso de madeira apoiado em barrotes. Embaixo, foi mantida uma escada original, visível graças a um vidro transparente colocado no assoalho.

Tombada em 1986, a casa de 251 metros quadrados foi restaurada entre os anos de 2017 e 2018 e ganhará também uma biblioteca, cafeteria e salas para eventos. O Ministério Público do Estado promoverá oficinas educativas e palestras, dentro da proposta de aproximar a instituição da sociedade. “O livro e o espaço entregam para os catarinenses uma parte de sua memória”, diz diretora do Ceaf/MP, Amélia Regina da Silva.

No livro, um dos destaques são as falas de descendentes de proprietários da casa tombada, vizinhos que tinham relações com as famílias que residiam ali e moradores próximos que souberam da pesquisa e fizeram questão de dar seu testemunho sobre o passado da Bocaiuva e da praia de Fora. “Histórias foram narradas com emoção por pessoas que passaram a infância e a adolescência na região”, conta a professora Eliane Veras da Veiga. O material coletado depois que o livro foi para a gráfica será incluído numa segunda edição. “São memórias que vão ficar”, garante a arquiteta.

Livro resgata histórias da praia de Fora, hoje entorno da rua Bocaiuva

Rua Bocaiuva, próximo à esquina com a futura Avenida Trompowsky. Estas residências há muito foram demolidas - Acervo Banco de Imagens Casa da Memória/Divulgação/ND

Rua Bocaiuva, próximo à esquina com a futura Avenida Trompowsky. Estas residências há muito foram demolidas - Acervo Banco de Imagens Casa da Memória/Divulgação/ND

Vista aérea da Praia de Fora. A Casa de Chácara aparece na fração esquerda da imagem - Arquivo Histórico da Associação Antônio Edu Vieira – Colégio Catarinense/Divulgação/ND

Vista aérea da Praia de Fora. A Casa de Chácara aparece na fração esquerda da imagem - Arquivo Histórico da Associação Antônio Edu Vieira – Colégio Catarinense/Divulgação/ND

A família Silveira em frente à capela de São Sebastião. Década 1960 - Acervo Família Silveira/Divulgação/ND

A família Silveira em frente à capela de São Sebastião. Década 1960 - Acervo Família Silveira/Divulgação/ND

O antigo trapiche da Praça Esteves Júnior, popular trampolim de mergulhos - Acervo Banco de Imagens Casa da Memória/Divulgação/ND

O antigo trapiche da Praça Esteves Júnior, popular trampolim de mergulhos - Acervo Banco de Imagens Casa da Memória/Divulgação/ND

Av. Beira Mar Norte na década de 1970 - Acervo Banco de Imagens Casa da Memória/Divulgação/ND

Av. Beira Mar Norte na década de 1970 - Acervo Banco de Imagens Casa da Memória/Divulgação/ND

A Casa de Chácara da rua Bocaiuva, morada dos Souza, na década de 1990 - Foto Roseli Maria de Souza Mosimann/Divulgação/ND

A Casa de Chácara da rua Bocaiuva, morada dos Souza, na década de 1990 - Foto Roseli Maria de Souza Mosimann/Divulgação/ND

Área onde estava a “casa rosa”, de número 1792, na rua Bocaiuva, foi adquirida pelo Ministério Público/SC, e agora se torna um Centro de Memória - Foto Flavio Tin/ND

Área onde estava a “casa rosa”, de número 1792, na rua Bocaiuva, foi adquirida pelo Ministério Público/SC, e agora se torna um Centro de Memória - Foto Flavio Tin/ND

Obra é organizada pela professora e arquiteta Eliane Veras da Veiga com os colegas Aline Steinheuser e Leonardo Bertoldi Borges - Foto Flavio Tin/ND

Obra é organizada pela professora e arquiteta Eliane Veras da Veiga com os colegas Aline Steinheuser e Leonardo Bertoldi Borges - Foto Flavio Tin/ND

Casa agora se torna um Centro de Memória do MP/SC, espaço sociocultural com programação de eventos artísticos regulares - Foto Flavio Tin/ND

Casa agora se torna um Centro de Memória do MP/SC, espaço sociocultural com programação de eventos artísticos regulares - Foto Flavio Tin/ND

Professora e arquiteta Eliane Veras da Veiga organizou o livro “A casa de chácara da rua Bocaiuva – Histórias da praia de Fora” - Foto Flavio Tin/ND

Professora e arquiteta Eliane Veras da Veiga organizou o livro “A casa de chácara da rua Bocaiuva – Histórias da praia de Fora” - Foto Flavio Tin/ND

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