Luiz Carlos Prates: A psicologia perdeu um psicólogo, mas o jornalismo ganhou um talento

Aos 77 anos de idade, e prestes a completar 60 de profissão, o colunista se destaca pela dureza das palavras e opiniões polêmicas, frisando que neste ofício a verdade deve sempre estar em pauta

O jornalista Luiz Carlos Prates é do tipo que não manda dizer. E na sua sinceridade e arrojo agrada a uns e afronta a outros. Mas a essa altura, aos 77 anos, não planeja mudar de postura, mantendo suas opiniões críticas acerca de temas do cotidiano como educação, segurança, política, valores e princípios éticos e morais. Nesta segunda-feira (29), vai completar 60 anos como jornalista, e continua na ativa, participando do programa “Balanço Geral”, da NDTV, e escrevendo uma coluna publicada diariamente no jornal ND e distribuída para outros veículos no Estado.

Filho único de um comerciante, Prates nasceu em janeiro de 1943 na cidade de Santiago, onde foi criado em uma fazenda. Na adolescência, mudou-se para Santa Maria, onde concluiu os estudos. Em 1960, mudou-se para Porto Alegre, onde começou a carreira como radialista, fazendo as funções de repórter, locutor e narrador de futebol de salão e de basquete. Formou-se em psicologia em 1972, sem nunca ter exercido a profissão.

Passou pelas rádios Porto Alegre, Difusora, Guaíba, Gaúcha e Farroupilha, além da Voz da América. Trabalhou na RBS TV e na TV Difusora, na capital gaúcha, e cobriu quatro Copas do Mundo, entre 1978 e 1990, duas delas já morando em Santa Catarina. Em 1981, mudou-se para Criciúma, atuando na TV Eldorado. Depois, passou pela TV Cultura, RBS TV Florianópolis, rádio CBN Diário, TV COM, jornais “Diário Catarinense” e “Diário Gaúcho”, SBT Santa Catarina e Rede TV News.

Nos anos 1960, Prates entrevista o jogador santista Pelé, que viria a ser reconhecido como o Rei do Futebol – Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/NDNos anos 1960, Prates entrevista o jogador santista Pelé, que viria a ser reconhecido como o Rei do Futebol – Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/ND

Desde abril de 2018 está na NDTV e no ND. Também faz palestras em escolas e empresas e tem vídeos no YouTube que são acessados por milhões de pessoas. Nesta entrevista, Prates fala da carreira e de temas como o jornalismo, a educação e a leitura.

Sou casado por amor com o trabalho – e, nesses casos, não existe possibilidade de divórcio. Sem querer fazer retórica, continuo sendo um aprendiz. Sempre prezei as empresas por onde passei.”

Você é do interior do Rio Grande do Sul. Como o jornalismo entrou na sua vida?

Meu contato era com o futebol de botão, mas ouvi o veterano Mendes Ribeiro narrando a Copa do Mundo de 1958 pela rádio Guaíba, de Porto Alegre, que já era uma emissora revolucionária, e queria ser igual a ele. Rejeitado várias vezes em concursos de calouros, e crente de que não tinha talento para a coisa, fiz um teste na rádio Porto Alegre, que acompanhava o esporte amador. Certo de que tinha sido reprovado, encontrei por acaso um dos colegas que haviam feito a mesma prova e ele me disse que eu fora o escolhido. Essa circunstância mudou minha vida, e estou até hoje na atividade. Nas narrações, imitava o grande Mendes Ribeiro, a ponto de a mulher dele me confundir nas transmissões de esportes com o marido…

Como é ficar seis décadas numa atividade como a sua, que se transformou tanto ao longo dos anos?

Sou casado por amor com o trabalho – e, nesses casos, não existe possibilidade de divórcio. Sem querer fazer retórica, continuo sendo um aprendiz. Sempre prezei as empresas por onde passei, sem necessariamente inflá-las. Leio e me informo todos os dias, e sublinho as palavras que ainda não conheço para descobrir seu significado. Trabalho para produzir resultados. Sendo colorado, já fui convidado para palestrar no vestiário do Grêmio – motivar as pessoas independe de qualquer barreira. Escrevo o comentário de amanhã no jornal como se fosse o primeiro da vida. Sei também que seguir esta profissão é como fazer um voto de pobreza…

Cada contratação, em grandes veículos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, era amplamente divulgada como nome forte na equipe – Foto: Reprodução/Arquivo Familiar/NDCada contratação, em grandes veículos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, era amplamente divulgada como nome forte na equipe – Foto: Reprodução/Arquivo Familiar/ND

Como explica a longevidade de sua carreira?

Tenho coragem para dizer o que a maioria não diz. Não se trata de falar o indevido, mas o desagradável, numa linguagem dura. O jornalista só não pode fazer uma coisa – inventar. Ele pode ser agressivo, desde que se paute pela verdade.

Você trabalhou com o futebol em boa parte de sua trajetória, conheceu outros países e culturas. Hoje, nas coberturas esportivas, muitos narradores já nem vão mais aos estádios…

Trabalhei com grandes profissionais no jornalismo gaúcho (Mendes Ribeiro, Armindo Ranzolin, Pedro Carneiro Pereira), e a RBS, empresa aberta e criativa, me deu as maiores oportunidades. Viajávamos ao interior para transmitir futebol numa Kombi – narrador, comentarista, repórter e assistente técnico. Isso me deu história, vivência. Além de fazer economia a qualquer custo, hoje o rádio não tem a renovação necessária, oportunidade para novos talentos.

Você diz que lê jornais, revistas e livros, coisa que muita gente já não faz mais. Isso é indispensável para qualquer profissão?

Não é verdadeira a afirmação de que ninguém mais lê. A leitura existe e é sempre enriquecedora. É verdade que vivemos na sociedade do comodismo, mas a leitura também é motor para a criatividade, que está em falta. É preciso uma revolução na imprensa, e isso vai acontecer. É importante que as empresas de comunicação invistam na qualidade, porque isso dá resultados. Nas minhas palestras, estimulo os jovens a lerem um jornal por dia, uma revista por semana e um livro por mês.

“A própria pandemia em curso vai contribuir fortemente para engendrar uma revolução cultural. As coisas mudam não por bons exemplos, mas por causa da corda no pescoço.”

Então, você acredita que o jornal e o livro vão permanecer?

O livro é eterno, assim como o jornal. São objetos que podem ser tocados, ou seja, são afrodisíacos. Tudo é temporário. Por isso, essas coisas vão voltar – até o rádio-teatro está retornando, em alguns lugares. Se a televisão é uma absoluta frivolização, acredito na recuperação do jornal e no poder do rádio de se transformarem. O excesso de música pop sem qualidade no rádio pode dar lugar a uma programação melhor, oferecendo às pessoas a oportunidade de ouvir coisas boas. Quando a rádio Guaíba surgiu, por exemplo, tocava só músicas orquestradas – e o que parecia uma loucura mostrou que havia público para aquilo.

Você é considerado um jornalista polêmico, direto. Há quem diga que faz tipo, um “gênero”, e que na vida privada é diferente do que na frente das câmaras. É verdade?

Às vezes, o modo de dizer muda tudo. Hoje, Nelson Rodrigues poderia falar o que falava das estudantes de jornalismo de seu tempo, vistas sempre de forma caricata? Não faço um tipo. Também em casa me irrito na frente da TV com as coisas que assisto. Quem faz tipo acaba se traindo. Se não fosse coerente, decepcionaria o leitor ou o espectador. Deploro quem é “boca alugada”, que acaba desmentindo a si próprio.

Após o comentário que fez há cerca de uma década de que “até os miseráveis podem ter carro”, você foi demitido da RBS. Aquele episódio marcou sua vida?

Aquilo foi usado contra a TV Globo, porque as manchetes falavam que era a opinião de um comentarista da emissora. Era como se a Globo odiasse os pobres. Considero isso página virada, pois a história posterior contou como tudo se deu. Quiseram fazer política à nossa custa.

Você é um sujeito conservador. Isso implica em ter desafetos…

A rigor, sigo os dez mandamentos. Defender a decência é indispensável.

As fotos da família estão sempre ao lado do jornalista Luiz Carlos Prates em seu ambiente de trabalho, relembrando a saudade da companheira de cinco décadas, Ieda Maria, morta em maio de 2019; e os filhos, Luciana, Sheila e Rafael – Foto: Anderson Coelho/Reprodução/NDAs fotos da família estão sempre ao lado do jornalista Luiz Carlos Prates em seu ambiente de trabalho, relembrando a saudade da companheira de cinco décadas, Ieda Maria, morta em maio de 2019; e os filhos, Luciana, Sheila e Rafael – Foto: Anderson Coelho/Reprodução/ND

Você bate muito na tecla da educação. Mais do que escola, ela depende dos pais, segundo seu entendimento.

Além da herança física, herdamos dos nossos pais o legado social, que é a educação por meio das palavras e do exemplo familiar. Os preconceitos humanos são forjados na primeira infância. O que as crianças pensam e dizem vem dos pais. Crianças e adolescentes precisam de limites. Nas minhas palestras, os aplausos mais autênticos vêm de jovens que sabem quando não lhes estão puxando a corda. A maioria não costuma ficar calada por alguns minutos, mas nessas conferências não emitem um pio. Muitos são órfãos de pais vivos e sabem que a fala do palestrante é verdadeira.

“Sempre fui um cético, não tenho crenças, nem acredito no destino. Mas continuo lendo sobre psicologia, porque ela é tudo na vida.”

Você foi educado no sistema tradicional e estudou em colégios maristas. Onde foi que a educação brasileira se perdeu?

A explosão demográfica tem parcela da culpa. A frouxidão dos costumes, também. A pílula anticoncepcional e a música dos anos 60 ajudaram a alterar os costumes. Ninguém podia mentir, porque todas as pessoas, especialmente nas cidades menores, se conheciam. Acredito que haverá uma revolução dos costumes, envolvendo as famílias e a escola. Ela será lenta e difícil, mas ocorrerá. A própria pandemia em curso vai contribuir fortemente para engendrar uma revolução cultural. As coisas mudam não por bons exemplos, mas por causa da corda no pescoço.

Que planos e projetos você ainda pretende executar?

Sempre me imponho novos desafios na vida profissional. Hoje falo para 26 rádios e escrevo para 18 jornais, fazendo comentários não convencionais, pensando no bem de todos. Continuo nutrindo a mente, como quem faz pequenos depósitos na caderneta de poupança. E tudo tem que ser por prazer. Sempre fui um cético, não tenho crenças, nem acredito no destino. Mas continuo lendo sobre psicologia, porque ela é tudo na vida.

+ Notícias