Luzes, faróis e outras manhãs

Luzes são manhãs que passam rápidas pelo horizonte dos olhos. E, como as manhãs, não são todas iguais. Cada luz é diferente, tanto no instante do ver quanto na memória do olho. Mesmo as luzes iguais são outras luzes em dias diferentes, como aquelas manhãs de outono que parecem tardes precoces. Mesmo as luzes banais com as quais nos acostumamos durante os anos não são as mesmas se vistas sem a frieza dos calendários. Olhando bem, seria fácil perceber que há luzes envelhecendo, enquanto outras aparecem plenas de juventude e altivez. O tempo da luz mostra a idade do mundo. 

A lâmpada que brilha na casa vazia é desigual da lâmpada a luminar a casa cheia num sábado festivo. A luz vazia é triste de casa e fraca de facho. Importuna a parede morta, dá volume à ausência, realça a desesperança, tem aquela claridade doentia que machuca o silêncio. Já a luz cheia ri janelas e clareia portas. Reflete as cores brancas da parede, namora o som, beija cortinas, rebate a descrença, tem aquela liberdade de criança pequena. 

Não é a luz da rua a mesma luz da lua que acende sobre os amantes. As esquinas têm luzes bêbadas e amareladas, já cansadas de tantas noites lentas e carros enfurecidos. Quando chove, a luz chora e se embaça de sono e frio. Puxa com os dedos um pouco de escuridão para que a penumbra se empoce destemida pelos cantos dos prédios e das casas. Nesta mesma noite, os amantes ignorarão o breu, a chuva e as poças. Com os corações armados de tochas, verão a lua acima das nuvens carregadas e farão crepitar o amanhecer que todos nós também carregamos nos sonhos. 

Tem aquelas luzes mansas e desapressadas que esperam na varanda o entardecer das horas. Parecem daquelas que pousam nas flores e que fazem sombra sobre as margens do rio enquanto o pescador se desapressa a pescar. E talvez sejam as mesmas que costumam atravessar sacadas para desenhar gatos e girafas na parede da sala. Ou quem sabe outras, que agora tentam atrasar a noite para alongar o canto dos pássaros e mostrar o céu em tons incomuns. Pena que nesse momento as luzes ligeiras do semáforo chamem mais a atenção. 

Há, ainda, as luzes raras. A luz do útero. A luz do cego. A luz do coma. A luz da fome. A luz do Gênesis. A luz negra. A contraluz. A luz balão. E a luz presa no piscar, escondida sob o espasmo das pálpebras. E a luz que mergulha o chão para criar cavernas, nascentes e vulcões. E a luz fanal, aquela dos faróis, cuja língua se estende por cima das torres, ao longo das praias, à entrada dos portos, a cortar escuro e mar, a guiar navios e náufragos. Sem falar da luz ainda sem nome. Afinal, quantas manhãs ainda existem no sol?

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