Mães que Inspiram: cinco histórias de maternidade para lembrar o dia delas

Não é uma regra, mas é bastante comum que a mãe seja a figura mais importante das nossas vidas. Antes de tudo, elas são mulheres com identidades e gostos diferentes, mas se há uma semelhança é um amor difícil de entender, algo entre o primitivo e o sagrado, o animal e o divino. São capazes de superar e si e ao mundo incontáveis vezes pelo bem dos filhos. Para homenageá-las, vamos contar a história de cinco grandes mães, que comprovam na prática que amor é poder.

A bombeira Glaucia Krueger passou para a filha Maria Eduarda, a “sargento Krueger”, o amor por salvar vidas – Anderson Coelho/ND

Paixão compartilhada

Aos sete anos, Glaucia Krueger entrou para os escoteiros. Aos dez anos, decidiu seu futuro.

Num evento para lobinhos, onde os bombeiros mostraram durante toda a semana suas competências, ela decidiu que queria trabalhar na ambulância da corporação.

Aos 12 fez o primeiro curso: Primeiros Socorros na Cruz Vermelha. Aos 16, abriram os primeiros cursos para mulheres em Santa Catarina, eram de Bombeira Comunitária e Salvamento Aquático. Ela fez os dois e foi voluntária quatro anos como bombeira e guarda-vidas.

Na faculdade optou por enfermagem, na UFSC – afinal, queria trabalhar na ambulância.

Se formou em outubro de 2005. Em dezembro, abriu concurso público para soldado do Corpo de Bombeiros. Entraram 150 homens e 12 mulheres na primeira turma do Estado com vagas femininas. Começou a trabalhar em 2006, na ambulância e como guarda-vidas.

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Atualmente é instrutora aquática de todos novos soldados, é coordenadora do Projeto Golfinho e do Bombeiro Mirim, e coordenadora de assuntos femininos na corporação, já que é pioneira – o número de mulheres ainda é pequeno, 170 para 2.500 homens.

Para Glaucia faltava apenas uma realização pessoal, ser mãe. No dia 26 de setembro de 2011, aniversário do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina, nasceu Maria Eduarda – que tem sete anos e se apresentou para reportagem como “sargento Krueger”.

O pai, o tio e o avô paterno de Maria Eduarda também são bombeiros. Com total familiaridade com a instituição, a “sargento Krueger”, usa desde que era um bebê uniformes iguais aos da mãe – e ajuda a transmitir as informações nos cursos.

Ana Beatriz encontrou na mãe, Elaine Araújo, o apoio e a força para enfrentar o câncer – Anderson Coelho/ND

Juntas, elas sempre persistiram

Em dezembro de 2017, Ana Beatriz fez um hemograma de rotina para se rematricular no colégio. O exame comprovou que a saúde estava boa, além disso, ela tinha ido bem nas provas, se preparava para o próximo ano letivo. Um mês e meio depois, ela foi diagnosticada com leucemia avançada, com comprometimento de 94% da medula. Não há médico que saiba explicar porque esse tipo de câncer surge, mas é rápido e apresenta sintomas difíceis de relacionar com algo tão grave.

2018 foi ano de luta. Ana venceu batalhas ferozes. A mãe, Elaine Araújo esqueceu de si e de todos os outros compromissos. Num momento de fragilidade, precisou transmitir confiança e alegria para Ana. Ela sabia que a filha precisava desses estímulos para não desistir.

Os primeiros sinais de que Ana não estava bem apareceram quando curtia as férias na casa de verão da sua melhor amiga, Bárbara. Ana teve calafrios, sem febre e dores no ouvido. Elaine associou com o dia anterior, quando a filha ficou a tarde inteira com a amiga na piscina. Levou num médico otorrino e depois marcou horário na dentista. Outros sinais foram aparecendo, dores nas pernas, um pouco de febre, perda de apetite, cansaço e alteração no humor, uma tristezinha.

Marcaram pediatra, mas tiveram que desmarcar por um chamado de urgência. José Paulo, avô de Ana, estava em estado grave no Hospital Dona Helena, em Joinville. Elaine foi até lá. Em Florianópolis, a filha se sentiu pior. Teve dores no peito. O pai a levou na emergência do Hospital Infantil. Os médicos a diagnosticaram com pneumonia atípica. Receitaram um antibiótico. A mãe voltou para casa, ela fez o tratamento, mas não melhorou.

Quando foi internada novamente recebeu da médica o diagnóstico de câncer. Era dia 6 de fevereiro de 2018. Ana começou a chorar e perguntou para mãe. “Vou morrer como o meu avô?”.

José Paulo ainda estava internado. Sua doença abalou a família. Ele e Ana eram muito próximos. No mesmo dia 6, Ana foi internada e começou a primeira fase do tratamento, chamada de indução. É uma quimioterapia ambulatorial, que faz com que os cabelos caiam, provoca vômitos e perda de apetite. Foram 23 dias internada. Depois da alta é praxe que a criança descanse em casa 15 dias e volte para iniciar seis blocos de medicação pesada.

Nos dias de descanso de Ana, a família recebeu a notícia que João Paulo teria poucas horas de vida. Foram até Joinville se despedir. Ana foi a última pessoa com quem João Paulo falou. Ele olhou para a neta e disse duas frases.“Cabelo cresce de novo”. “Tu vai conseguir”.

Carregando esse luto, Ana conseguiu. Venceu os seis blocos, reações alérgicas às medicações, hemorragia intestinal, caxumba, HN3, perda de peso, depressão, reanimações no soro e na adrenalina. Venceu a toxicidade do remédio que atingiu seu coração. Venceu o pânico da UTI, as bactérias multirresistentes, fraqueza. A tristeza de ver outras crianças da ala oncológica. Venceu a dor de olhar seus braços machucados. Venceu sete choques sépticos, o medo. Venceu a radioterapia. E a insegurança de voltar para a escola.

O tratamento não acabou. Vai até julho do ano que vem, com quimio oral todos os dias e intramuscular uma vez por semana. Ana Beatriz está com 13, Elaine com 39. Elas se sentem mais fortes, mais unidas e gratas porque em nenhum momento desistiram uma da outra.

Maria Luiza (à esq.), Duda e Lu, mãe ultraconectada, que se desdobra em várias funções, mas faz um esforço para manter a vida real familiar – Anderson Coelho/ND

Uma boa influenciadora também para as filhas

Maria Lúcia Claudio é uma mãe moderna e atualizada e como disse o marido Vânio, trabalha 36 horas por dia. É digital influencer, graduada em marketing, com duas pós-graduações na área, e trabalha tecendo relações de negócios entre seus mais de 40 parceiros. Sua especialidade é relacionamentos para aumentar as vendas – ramo que tem bastante sucesso. Uma prova é o Instagram com mais de 130 mil seguidores.

Com uma demanda enorme de trabalho e muitas expectativas para atender, Lu, como é conhecida, é um exemplo de mãe contemporânea, que se desdobra em múltiplas funções e faz um grande esforço para manter uma rotina de harmonia familiar.

Lu é mãe da Maria Eduarda, a Duda, 8 anos, e da Maria Luiza, 18 anos. Um ritual que ela não abre mãe é almoçar com as filhas. Para estar sempre com a família perto, ela também as inclui na sua agenda de trabalho, que não é nada mal, shows, visitas a restaurantes, cinema, baladas, programas esportivos – ela é maratonista e o marido pratica jiu-jitsu há 27 anos.

Sua rotina começa cedo às 6h30 e termina quando der. Para cumprir todos os compromissos é bastante disciplinada, característica que as filhas herdaram. Duda, que vê na mãe uma heroína, segue os mesmos passos e posta seu cotidiano no Instagram, as aulas de kumon, para exercitar o raciocínio, de inglês e as tarefas da escola.

“Minha mãe sempre esteve à frente do seu tempo. Sempre foi uma mulher jovem, bonita, moderna. Acho que puxei isso dela. Criamos as meninas sem grilo, para se desenvolverem de um jeito leve e feliz, vejo que esse é o caminho certo porque as duas são maravilhosas”, disse.

Rosane Moser é mãe dos gêmeos Felipe e Vinicius, com Síndrome de Down, e Marcela – Anderson Coelho/ND

Amor extraordinário

“Eu tenho um primo (irmão/filho) igual”. Essa é a frase que Rosane Moser, 55 anos, mais ouve – um jeito preconceituoso das pessoas contarem que têm um parente com síndrome de Down.

Ao ouvir essa sentença, ela sempre se questiona, “como assim, igual? Não somos todos seres diferentes?”. Ela é mãe de Felipe e Vinicius, 30 anos, gêmeos univitelinos, que apesar da semelhança física pouco se parecem na personalidade.

“Felipe é sensível, bondoso e tem uma felicidade genuína. Vinicius é bon vivant”, conta o pai Marcelo Moser, 56 anos.

Quando deu à luz, aos sete meses de gestação, Rosane não sabia que os filhos teriam a síndrome – que não é uma doença, é apenas uma característica genética bastante comum. Quem deu a notícia foi o médico, disse a Rosane que ela “teria que amar muito as crianças porque elas seriam um peso, uma cruz. Que não iriam andar, nem falar”.

Rosane ficou magoada com a falta de profissionalismo do médico, mas não baixou a cabeça. Disse para si, “meus filhos não vão ser uma cruz” e se inspirou na mãe, Dulce da Silva Bento, que faleceu recentemente e faria 90 anos nessa semana.

“Eu busco ser o retrato dela. Ela cuidou de nove filhos, com muita força, resiliência e amor. Sempre foi muito carinhosa comigo, com o Marcelo e com os netos”, disse.

Rosane, o marido, os filhos e a mãe, que faleceu recentemente – Divulgação/ND

Após ter os gêmeos, Rosane deu à luz a Marcela, 27 anos. O trio é bastante unido. Saem pra jantar, ir ao cinema, curtir baladas.

Felipe e Vinicius estudaram no Coração de Jesus – seus pais não aceitaram que fossem separados em salas especiais, ajudando a escola a abolir essa prática – fizeram dois anos no Senai de Redes de Computadores e um de Webdesigner. Foram contratados na Intelbrás, onde trabalham há dez anos. São esportistas, praticam natação, basquete, stand up, dança de salão, artes marciais. Tem um grupo de amigos maior que grande parte das pessoas.

Na festa junina do ano passado, receberam 110 amigos em casa. Felipe também tem uma namorada há mais de oito anos, Marília.

“Agradeço muito a Deus pelos três filhos que tenho. São pessoas extraordinárias,  não os vejo em outra família, tinham que ser nossos”, disse, Rosane.

Mariah Nascimento teve dois filhos biológicos e adotou quatro meninas – Anderson Coelho/ND

Um coração enorme

No Natal de 2004, Mariah Nascimento gastou R$ 2 mil em presentes para os filhos Victor e Sophia, na época, com 6 e 4 anos, mas em vez de se alegrar, ficou triste. “Não me fez bem. Na saída da loja ainda vi uma senhora humilde saindo de um R$ 1,99 com três crianças bem contentes”, disse.

Ali começaram planos da adoção. Ela conversou com o marido Fábio que queria adotar uma menina. Parceiro em todas as situações, ele concordou.

Em outubro do ano seguinte, ela foi conhecer um abrigo em Florianópolis. Foram todos jantar e uma menininha não parava de olhá-la. Juliana tinha 9 anos quando narrou sua tragédia familiar: perdeu as irmãs gêmeas, a mãe, por suicídio, e um irmão afogado. O pai virou alcoólatra e também morreu. Sem ter para onde ir ela e as três irmãs foram para casa de uma parente, que as maltratou – então à Justiça as encaminhou para o abrigo.

Era uma quarta-feira, ela lembra bem. Quando Fábio chegou do trabalho, ela contou a novidade. “Eu achei as meninas que a gente vai adotar”. Fábio caiu para trás.

“Como assim, meninas?” Juliana tinha outras três irmãs, Ana Cláudia, a Cacá, com 9 anos, Heloísa com 12, e Ane com 14.

Mas o juiz disse que daria apenas a guarda de duas. No dia 14 de outubro de 2005, Mariah e Fábio assumiram a guarda das menores. “Racionalmente nós concordamos com o juiz. Mas nosso coração ficou no abrigo”.

Um mês depois, ainda com a guarda provisórias das filhas, Mariah foi visitar Heloísa no abrigo e viu ela triste na janela. Então pediu para diretora da instituição para levá-la pra casa, para passar o final de semana e nunca mais devolveu.

Para completar a família, naquele ano passaram férias no Ribeirão da Ilha e convidaram Ane para ir junto e depois para entrar na família. Mariah virou mães de seis. Ane morreu um ano depois, de bronquite fulminante.

Heloísa tem 25 anos, se formou em direito e trancou a faculdade de administração, na Esag. Está em Manaus, onde trabalha como voluntária numa comunidade carente. Ana Cláudia tem 22 anos e é formada em direito e está na sexta fase de relações internacionais. Está em intercâmbio na Austrália.

Juliana tem 19 anos, fez direito e quer fazer sua segunda graduação nos Estados Unidos. Já morou num intercâmbio no México e atualmente faz voluntariado numa zona pobre de São Paulo. Vitor fez intercâmbio no Chile, tem 19 anos. Está em São Paulo, atuando como voluntário. Ele faz faculdade de jogos digitais e cinema.

Mariah, o marido Fábio e filhos, que são estimulados à autonomia e experiência de vida – Divulgação/ND

Sophia, 17 anos, é a única que vai passar o dia das mães com Mariah. Ela estuda para o vestibular.

O coração de mãe fica apertado com a distância, mas não vacila. “segunda à tarde converso com todos, segurando o choro. É o dia mais feliz”. Quando questionada sobre o preconceito das pessoas com a adoção, ela rouba uma frase de Cacá. “Em toda idade se precisa de amor”.

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