Maior exposição de Miró no Brasil chega a Florianópolis em setembro e será gratuita

Carlos Damião/ND

Obras da exposição que chegam a SC pertencem ao acervo da Fundação Miró e do neto do artista, Joan Punyet Miró

A exposição “Joan Miró: a força da matéria” chega ao Masc (Museu de Arte de Santa Catarina), na Capital, em 10 de setembro com expectativa alta, a começar pela cidade recebendo mais de 100 obras que abraçam cerca de cinquenta anos de produção de um dos principais artistas espanhóis e também do século 20. Montada agora em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake – com filas de mais de uma hora em alguns dias – é a maior retrospectiva do pintor catalão no Brasil. Em Florianópolis, onde fica até 14 de novembro, a visitação será gratuita.

A mostra tem 41 pinturas, 22 esculturas, 20 desenhos, 26 gravuras, além de fotografias do pintor, assim como vídeos do artista em ação. A curadoria, de Paulo Myada com a Fundação Joan Miró, em Barcelona, é eficaz no propósito de mostrar os caminhos e as escolhas do artista. Miró (1893-1983), nos anos 20, se muda a Paris influenciado pelas vanguardas europeias. Com o surrealismo – que acredita no inconsciente, no sonho, sem intervençõe

Divulgação/ND

As formas e gestual de Miró em “Homem, Mulher, Pássaro”, de 1959

s de ordem social, política ou cultural -, é o que faz maior aproximação e no qual deixa seus traços e principalmente suas formas, nada convencionais, que tanto surpreendem e encantam até hoje.

Dividida em três partes, evidenciando momentos vitais da carreira do artista, é possível ver no início da mostra o percurso que Miró faz para romper com a pintura tradicional. O real não importa mais ao artista. As figuras aparecem disformes, livres da perspectiva e da iluminação clássica. O artista deixa manchas, não se preocupa com a tinta que escorre e com alguns rastros de um erro, pinta também com os dedos. Procura sair dos materiais tradicionais, como a tela, usa também o nanquim, o lápis grafite, a aquarela para se exprimir. Nessa fase, no recorte da exposição, dá para ver como ele caminha para a experimentação, para uma técnica livre, que estaria fortemente manifesta em seus trabalhos mais conhecidos.

Para um visitante impaciente, o início da exposição pode parecer menos interessante que a terceira etapa, que apresenta um panorama da carreira do artista e abrange seus trabalhos mais marcantes, porém é essencial para entender onde ele iria chegar. Nesse caminho dá para perceber como ele firma a sua palheta, com o uso das cores primárias, como o azul, amarelo, vermelho, e também o preto e verde, e também estabelece a cor como matéria.

Nas esculturas de Miró, na segunda etapa da mostra, observa-se impulsos contemporâneos, usados por artistas de hoje.  Ele se apropria e une objetos comuns, faz procedimentos, como o banho de bronze, que dão novas leituras. Uma lata de tinta, por exemplo, vira um boneco – assim como um cartaz de produto vai lhe servir à gravura – lembra a pop art.

Ao mesmo tempo, na pintura, sem mais cavaletes e trabalhando no chão, começa a se evidenciar em suas obras o gestual corporal. Não é à toa que ele influenciará o norte-americano Jackson Pollock, conhecido por quase “entrar” dentro do quadro para pintar com movimentos vigorosos.  É nas litografias e gravuras onde se vê a faceta do artista que conhecemos hoje. Está ali, o Miró consolidado, com suas formas, cores e sua poesia visual. A tal força da matéria, que está no título da mostra.

Carlos Damião/ND

Artista se aproximou mais do movimento surrealista, mas não se enclausurou na corrente, foi atrás de uma gramática própria, autoral

Exposição de mais de R$ 2 milhões

 “Joan Miró: a força da matéria” chegou primeiro a São Paulo e depois virá a Florianópolis com o patrocínio da Arteris. Em Santa Catarina, o grupo opera as concessionárias Autopista Litoral Sul, que administra o trecho entre Curitiba e Palhoça, e a Autopista Planalto Sul, da BR-116 entre Curitiba até a divisa dos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O investimento da empresa para trazer a mostra ao Brasil é de pouco mais de R$ 2 milhões. No ano passado, a Arteris patrocinou a mostra de Salvador Dalí, que teve 1,3 milhão de visitantes nas exposições realizadas em São Paulo e Rio de Janeiro.

O presidente da empresa David Díaz diz que a intenção de trazer a Florianópolis as obras de Miró, além de movimentar o turismo, é trazer um ganho para a área cultural. “Nós, pela importância que hoje tem Santa Catarina no grupo e favorecendo o crescimento dos municípios, o bem-estar da população, decidimos que era a cidade para trazer a exposição de um artista de renome mundial”, disse. Durante a mostra em Santa Catarina, haverá um trabalho especial de visitação das escolas, principalmente privilegiando os mais de 40 municípios catarinenses onde a empresa atua na concessão, e trabalhando com outras iniciativas do grupo, como o Projeto Escola, de conscientização de crianças aos cuidados no trânsito, como futuros motoristas. Díaz sinaliza que a empresa deve trazer outra mostra ao país no próximo ano e que Florianópolis pode ser novamente contemplada.

O projeto espacial da exposição no Masc ainda está sendo preparado e será enviado à aprovação final da Fundação Miró, como informa Vitoria Arruda, diretora de produção do Instituto Tomie Ohtake. Um esquema de segurança também está sendo preparado para as obras. Foi o instituto que fez a captação para o projeto e o patrocinador estendeu o apoio para a vinda ao Estado. “Após uma visita a Florianopolis, julgamos ser o local mais adequado para receber esta exposição”, diz Vitória, sobre o Masc.

O secretário do Estado de Turismo, Cultura e Esporte de Santa Catarina, Filipe Mello, estima uma visitação de 650 mil pessoas durante os dois meses de exposição.

*A repórter visitou a mostra em SP a convite da Arteris

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As cores primitivas se evidenciam no trabalho do artista, como em “Dois personagens caçados por um pássaro”, de 1976

Miró

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