Mais de 100 pessoas em situação de rua são acolhidas todos os dias em Florianópolis

Moradores formam fila para escolher o local para passar a noite. Foto: Flávio Tin/ND

Florianópolis tem encarado de frente a situação que envolve homens e mulheres em situação de rua. De acordo com dados da secretaria municipal de Assistência Social, a Capital catarinense conta com 459 pessoas nesta condição, e boa parte delas tem recorrido aos serviços oferecidos na Passarela da Cidadania, principalmente após o início do inverno. A reportagem do ND foi conferir o atendimento prestado na última quinta-feira, 11 de junho.

As pessoas em situação de rua começaram a chegar à Passarela da Cidadania a partir das 17h30min. Em fila indiana, aguardaram a abertura da porta a partir das 19h. Quem abre o acesso é o coordenador do turno noturno Leandro Francisco, integrante da ABA (Associação Braços Abertos), organização não-governamental que presta o serviço para o município. Com cerca de 1,90 metro de altura e porte físico de lutador de MMA, Francisco impõe respeito e organiza a fila.

O paranaense Sebastião recebe o prato de comida. Foto: Flávio Tin/ND

A fome já se faz sentir enquanto homens e mulheres aguardam autorização para entrar no pátio. No local, ainda serão submetidos a uma rigorosa vistoria após formarem uma nova e pequena fila. Os agentes da Guarda Municipal são responsáveis pelo trabalho que busca evitar a entrada de objetos cortantes. “Já encontramos facas e até espada japonesa. Objetos, como garfos, canivetes e aparelhos de barbear são devolvidos na saída desde que não causem algum risco”, explica Francisco.

Após a vistoria, nova fila é formada, desta vez para verificar o local do pernoite. A Passarela da Cidadania, como é chamado o espaço físico montado embaixo das arquibancadas da Passarela Nego Quirido, dispõe de 80 vagas, e outras 80 são ofertadas no abrigo que a prefeitura de Florianópolis mantém nos fundos de uma igreja no bairro Jardim Atlântico. Depois de garantir a vaga em um dos abrigos públicos, os albergados podem desfrutar de dois dos momentos mais aguardados da noite: a higiene pessoal (banho) e o jantar.

Na cozinha, duas integrantes da ABA se desdobram para servir os pratos com arroz, feijão e galinha ensopada. Para beber, um copo de suco de uva.  Todos os dias são preparados três panelões que servem até 150 refeições por noite. Os mais velhos têm prioridade na fila, mas nem sempre são respeitados, o que serve de motivo para criar alguma discussão, que logo termina após a chegada do prato cheio.

Integrante da ABA, Aloysia serve 150 pratos por noite. Foto: Flávio Tin/ND

Coordenadora do turno da tarde, Aloysia Navarete trata a todos com carinho. A rotina gera certa intimidade e muitos dirigem algum tipo de palavra para Aloysia, do cumprimento cordial de “boa noite”, ao coloquial “capricha no rango”. “Tem uns que me amam, tem outros que me odeiam, mas eu amo todos eles. É muito gratificante. A gente recebe mais o amor deles do que dá”, comenta Aloysia.

No refeitório, o silêncio impera. Barulho, só dos talheres raspando o prato. A atenção é toda voltada para a comida. Quando terminam de comer, alguns reclamam da qualidade. Outros pedem para repetir, mesmo sabendo que não serão atendidos, pois as regras precisam ser cumpridas e dificilmente irá sobrar. Aliás, as regras são obedecidas por quem deseja pernoitar. Quem pretende dormir na rua, apenas faz a refeição e depois deixa o espaço.

Para Pedro, 31 anos, o serviço prestado na Passarela da Cidadania é “o mínimo que se pode oferecer”. Natural de Santiago, cidade do interior do Rio Grande do Sul, Pedro veio a Florianópolis em busca de emprego e clientes.  É barbeiro e veio para trabalhar durante a temporada, mas o verão acabou, os turistas foram embora, e o serviço minguou de vez.

Funcionário fazem o controle da ocupação dos quartos na Passarela da Cidadania. Foto: Flavio Tin/ND

“Na realidade estou aqui por insistência”, revelou. Era a terceira noite que Pedro procurava a Passarela da Cidadania para pernoitar após passar o dia “batendo perna para vender doces e levantar algum dinheiro”.  Ele já havia dormido em hostels e na rua, mas desistiu após ser vítima de assalto na Lagoa da Conceição. “Para quem não tem nada, isso aqui está mais que ótimo. Estou abrigado, tem alimentação básica, lugar para banho e espaço para conviver”, resume o jovem, de cabelo cortado e barba aparada, destoando do perfil típico do morador de rua.

Na Passarela da Cidadania, Pedro percebeu um universo muito maior em relação aos moradores de rua, estereotipados com a condição de usuários de droga. “Tem muita gente que usa, mas tem gente de tudo quanto é tipo e idade. Quem usa geralmente não fica aqui para dormir. Vem só para comer. É um caldeirão cultural”, define.

O casal Vera, 55 anos, e Sergio, 71 anos, é um exemplo desse universo percebido por Pedro. Eles chegaram a ser chamados de “turistas” por outras pessoas em situação de rua enquanto aguardavam na fila, com mochilas nas costas.

Foto: Flávio Tin/ND

Sem dinheiro para pagar o aluguel da casa que habitavam na Caieira do Barra do Sul, no Extremo Sul da Ilha, eles tiveram que recorrer à Passarela da Cidadania enquanto aguardam resposta para um pedido feito na Secretaria de Assistência Social. Sergio sofreu um AVC há oito meses e necessita de cuidados médicos.

O casal tenta uma vaga na Casa Rosa ou mesmo em uma casa de repouso. “Era aposentada por invalidez, mas caí na malha fina do Temer. Agora recebo R$ 250 e não tenho mais como pagar aluguel. O dono pediu a casa para fazer a reforma”, justifica Vera, preocupada com a imunidade baixa do marido.

Na Passarela da Cidadania, eles fizeram amizade com Vitor, 60 anos, de quem ganharam máscaras para se proteger de doenças, como a tuberculose e a gripe. “A noite é horrível. As pessoas tossem muito. É degradante porque você está no meio de pessoas que você não sabe quem são”, afirma Vitor, com voz embargada e olho inundado de lágrimas. “Mas isso aqui é provisório”, garante.

“A gente não sabe o que tem aqui”, concorda Sergio, que preferiu comer o pão que havia trazido ao invés do prato de arroz e feijão. Vera provou a comida e reclamou da qualidade, mas elogia o atendimento prestado pelos integrantes da ABA. “Eles foram ao quarto à noite perguntar se alguém precisava de cobertor. Eles tratam a gente humanamente dentro da possibilidade deles”, conta.

Ônibus do Consórcio Fênix transporta moradores de rua para o outro abrigo. Foto: Flávio Tin/ND

O pedreiro Sebastião é outro trabalhador que prefere permanecer na Capital ao invés de voltar para a casa. “Porque na minha cidade não tem emprego”, justifica. Nascido em Barracão, cidade do interior do Paraná na divisa com Dionísio Cerqueira, no Oeste de Santa Catarina, ele tem aproveitado a alimentação e a cama com cobertor que são oferecidos na Passarela da Cidadania, já que a rua se mostrou traiçoeira.

“Fiquei uns dias na rua, mas acabei sendo roubado por outro morador de rua. Resolvi beber e me dei mal. Mas não bebo mais. A rua não é coisa fácil”, afirma. Cada pessoa em situação de rua tem uma história diferente. Algumas são até difíceis de acreditar, mas fazem parte do universo que conspira contra as pessoas que têm menos oportunidades.

É o caso de João, 52 anos, que veio para Florianópolis para transmitir os desfiles de Carnaval para 14 emissoras de rádio. Ele diz ser jornalista, radialista e locutor. “Fui assaltado em frente ao terminal rodoviário e me roubaram R$ 40 mil em equipamento”, conta João, que não pode mais trabalhar.

Sem dinheiro e equipamento, João tem vendido balas e vela musical no terminal. À noite, ele dorme na Passarela da Cidadania. “É melhor que a rua, mas é um barril de pólvora, porque é difícil conviver com as diferenças de cada um”, afirma. Ele já foi suspenso por 30 dias do abrigo após se desentender com um funcionário por ter descumprido uma regra ao tomar banho no final de uma manhã.

Fila em frente ao abrigo público mantido pela prefeitura no bairro Jardim Atlântico. Foto: Flávio Tin/ND

“Eu sempre achei que o que é para um é para todos. Fui questionar o funcionário e ele me disse que era um problema pessoal dele comigo”, reclama João, que alega ter visto outras pessoas terem tomado banho antes dele.

A injusta suspensão também motiva João a reclamar de alguns detalhes do atendimento. “A comida só tem qualidade no final de semana, quando a Igreja serve. O café tem pouco açúcar e pouco leite”, avisa. Aqui vale um lembrete sobre o atendimento.

De segunda a sexta, o trabalho é prestado pela ABA, mas nos finais de semana é realizado por voluntários de igrejas, sob a supervisão de integrantes da ABA, que então atuam como voluntários para manter o padrão de atendimento.

Indagado pelo município se precisava de ajuda para voltar para o Rio Grande do Sul, João disse ter recusado. “Quero voltar para a casa de cabeça erguida”, explicou. O fotógrafo Marino é outro exemplo da diversidade do abrigo. Nascido na Bulgária, ele vivia em Manaus até desembarcar em Florianópolis há uma semana atraído pela semelhança da Capital catarinense com a Europa.

“Deixei uma namorada brasileira, grávida de três meses, para vir para cá em busca de trabalho, mas o dinheiro acabou em uma semana”, explica, entre palavras em português e inglês. Sem equipamento – que está na Bulgária, ele diz que ainda tem esperança de dias melhores. “Vou escrever algo sobre a situação daqui”, completa.

Quem decidiu permanecer na Passarela da Cidadania se acomoda nos quartos. As 80 vagas disponíveis são facilmente preenchidas em uma noite em que a temperatura mínima vai chegar a 12º graus. São cerca de oito colchões por quarto, envolvidos com roupa de cama e um cobertor, todos dispostos sobre paletes, para evitar o contato com a umidade do chão.

Enquanto isso, um grupo de 37 pessoas que decidiu dormir no abrigo do Jardim Atlântico aguarda a chegada do ônibus para o translado no pátio. O veículo sai pontualmente às 21h, e leva cerca de 20 minutos para chegar até o abrigo no bairro Jardim Atlântico.

O desembarque é feito em frente à Igreja, mas a entrada é pelos fundos. Todos percorrem uma viela de menos de um metro de largura entre a igreja e outra edificação e são recebidos por funcionários da ABA. Uma nova fila é formada, mas em questão de minutos já estarão todos abrigados.

Muitos preferem o abrigo continental, porque é possível dormir um pouco mais (duas horas). “Na Passarela da Cidadania, você acorda às 6h e fica mais duas horas na área de convivência esperando o café. Prefiro aqui, pois acordamos às 8h e pegamos o ônibus às 8h30min”, ressalta o gaúcho Joel, que está há oito meses em Florianópolis, mas desde os 14 anos vive nas ruas depois que a família não aceitou sua orientação sexual. E assim a vida segue para mais de uma centena de pessoas que passam o dia nas ruas da Capital catarinense.

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