Maré entre os ossos

Já não há desespero maior que a esperança tentando me abraçar. Escorre pelo rosto o suor de anos de trabalho, um ofício ignorado pelo outros, mas que me manteve em pé durante anos. Reclamavam da minha indecência, da minha inutilidade e do meu sorriso sempre adjacente a alguma ironia e nunca sincero. Não há alegria quando se sabe que alguém ainda morre de fome e de amor. E muitos ainda morrem gritando silêncios opacos e solitários. Em vão, em frente a uma televisão chuviscando. 

Eu era flexível no começo. Na idade em que andar na praia não era um compromisso de fim de semana. No tempo em que os trens partiam cedo das estações. No tempo em que as ruas centrais eram as únicas pavimentadas e todas as pessoas que eu via eram conhecidas. Costumava abrir a janela domingo de manhã antes de o sol sorrir ou da grama ser molhada pela chuva. Dispensava o café e o almoço, e saía. Não havia interesses nem programações. Minha alma era uma jangada lançada às águas, sem provimentos. 

Os ventos contrários e as tempestades sem trovões me fizeram ver o mundo com menos harmonia. Não havia verdade nenhuma a buscar, nem sonhos a realizar. Não havia porque temer um amor improvisado ou porque obedecer às placas que colocavam nos corredores. Não há coerência no mundo. Ele é um casebre onde se amontoam ordinários brigando por pedaços ocos de madeira para roerem durante toda a vida. No meu desabrigo, todas minhas certezas e alentos foram congelados num ar exterior não menos barulhento que a queda das águas duma cachoeira escondida. 

Enquanto o mundo escorre entre liberdades mal escoradas, mais me congelo na minha casa de blocos árticos. Não há mais princípios, nem erros, nem acertos, nem lugares, nem lutas. Só há igrejas, bares e canais de televisão. Minha respiração são vapores. Minhas lágrimas, neve. Meu corpo, pedaço de carne resfriada. As pessoas não percebem mais minha face ruborizada. Sou estátua e andarilho ao mesmo tempo. A agulha atravessada debaixo da unha do dedo indicador é o manifesto da agonia alheia pela minha fragilidade. Meu sangue não jorra, congela.  

Mas a alma precisa respirar. Espero o sol de um daqueles domingos passados, embora eu prefira descongelar sob a chuva. O degelo limpa a alma das sujeiras brancas que vão se acumulando pelos cantos. Aos poucos vou abrindo os olhos, pela urgência de renovação. Amo e odeio a chuva. Amo e odeio o sol. Odeio as festas de quem não tem fome e as calçadas da minha cidade. Durmo e respiro. E sonho. E envelheço. Enquanto o mundo confecciona a moda do próximo verão, a alma degela. E eu vou acordar com um mar pulsando no lugar do coração.

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