Maria da Penha participa de campanha contra a violência doméstica em Florianópolis

A Associação Catarinense das Indústrias de Água Mineral, responsável pela campanha, pretende colar um milhão de adesivos nos garrafões de água mineral com o número do disque denúncia

Em evento realizado na sede da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), na tarde desta quarta-feira (30), a Associação Catarinense das Indústrias de Água Mineral (Acinam) lançou a Campanha “Diga não à violência à mulher, menos ódio, mais amor” que visa evidenciar o disque denúncia 180 nos galões de água. 

Maria da Penha no lançamento da campanha em Florianópolis - Marco Santiago/ND
Maria da Penha no lançamento da campanha em Florianópolis – Marco Santiago/ND

 campanha, que é apoiada pela Associação Catarinense das Emissoras de Rádio e Televisão (Acaert) e outras instituições, vai colar um milhão de adesivos em garrafões de água mineral, dos 14 associados da Acinam em todo o Estado. “O objetivo é impactar o maior número de pessoas, incentivando não só as vítimas de agressão, mas também amigos e vizinhos a denunciar os casos de violência doméstica”, afirma Tarciano Oliveira, presidente da associação.

Lembrando vários momentos na história em que muitas pessoas foram vítimas de violência, como o genocídio contra os judeus e os abusos de mulheres e jovens durante as guerras, Tarciano disse que o crescente número de casos de feminicídio não pode continuar. “Os sócios da Acinam não querem que esse tipo de evento se torne banal e seja visto com normalidade na sociedade, ficando restrito às vítimas, por isso acreditamos que essa campanha levará de forma direta a informação para denúncias a um número expressivo de pessoas”, afirmou.

A colocação dos adesivos começa na próxima semana e divulgará o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência) nos lares e locais de grande circulação de pessoas, como escolas e hospitais, amplificando a informação. Em 2013, a Acinam fez campanha semelhante junto ao Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa Catarina (Hemosc)  para estimular a doação de sangue, impactando mais de cinco milhões de pessoas.

O evento reuniu cerca de 400 pessoas, entre elas representantes de instituições como a PMSC (Polícia Militar de Santa Catarina), Prefeitura de Florianópolis e Guarda Municipal, Secretaria de Integridade e Governança do Estado, Fiesc e a convidada especial Maria da Penha Maia Fernandes.

Representando a vice-governadora Daniela Reinehr, a secretária de Integridade e Governança do Estado, Naiara Augusto, disse que o Estado não medirá esforços para apoiar a causa da violência contra a mulher. Ela lembrou que a questão da violência doméstica é cultural e precisa ser combatida. “Essa campanha escolheu um item da cesta básica que é a água e que está presente na maioria dos lares e locais públicos como forma de lutar contra a violência contra a mulher. O adesivo é também um lembrete para aquele agressor difícil de identificar – porque muitas vezes é alguém bem visto em seu ambiente de trabalho, mas que chega em casa e vira um abusador – de que não nos calaremos mais”, afirmou a secretária.

Tanto ela quanto a própria Maria da Penha citaram o fato de que é preciso atentar para a necessidade de prestar auxílio também ao agressor, para que ele seja conscientizado a respeito da consequência de suas ações. “O homem que agride precisa de ajuda e cuidados para que não repita esse comportamento. As crianças que vivenciam essas agressões em casa também carregam os traumas da violência e elas tanto podem usar essa situação para mudar quanto podem vir a repetir esse comportamento violento no futuro, por isso temos que debater essa questão nas escolas e na sociedade”, reflete Naiara. 

Participação da ativista Maria da Penha

Natural do Ceará, a farmacêutica e ativista Maria da Penha Maia Fernandes, que motivou com sua luta a criação da lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, esteve presente no evento e destacou a importância de campanhas como essa no combate à violência doméstica. “Água é vida, a gente precisa de água e esse tema está sendo colocado no dia a dia das pessoas, deixando em evidência o disque denúncia”, avalia.

Maria da Penha sofreu constantes agressões do marido – o professor colombiano Marco Antonio Heredia Viveros, com quem se casou em 1976 e teve três filhas. Segundo ela, o comportamento do marido mudou quando ele conseguiu se naturalizar brasileiro e, em 1983, Viveros tentou matá-la com um tiro de espingarda que a deixou paraplégica. Após dois meses hospitalizada, Maria da Penha voltou para casa e sofreu nova tentativa de assassinato, quando o marido tentou eletrocutá-la no chuveiro. “Isso aconteceu há 35 anos, é muito tempo, mas de muito aprendizado também”, declarou.

Julgado e condenado por duas vezes, Viveros se safou através de recursos judiciais, respondendo em liberdade. Por fim, foi condenado 19 anos depois, em outubro de 2002, quando faltavam apenas seis meses para a prescrição do crime. Foi preso e cumpriu apenas dois anos (um terço) da pena e acabou sendo solto em 2004, estando livre desde então.

Apesar de tudo que passou, a ativista lembra que a principal finalidade da lei que leva seu nome é “proteger a mulher em primeiro lugar, e prender o agressor que não sabe respeitar sua companheira”. Para Maria da Penha, também há muito o que melhorar no sistema de proteção às vítimas, que denunciam e ainda são mortas por falta de monitoramento do agressor, que não cumpre as medidas protetivas. “A luta começou  há muitos anos, mas ainda não terminou”.

Em entrevista ao ND, Maria da Penha respondeu algumas questões sobre violência doméstica:

ND- A que a senhora atribui o aumento nos casos de feminicídios que estamos presenciando no Brasil?
MP – Acho que a mídia está ajudando a mostrar a importância de denunciar a violência e casos que já estavam acontecendo, porém no anonimato, estão vindo à tona.

ND- A senhora acredita que a liberação da posse de armas para um maior número de pessoas possa aumentar os casos de agressões contra a mulher?
MP- Sim, é preocupante esse posicionamento, mas esperamos que haja uma reflexão sobre isso e que possa haver uma sustação dessa medida.

ND- O que falta na lei de proteção às vítimas?
MP- Falta investir em educação, atendendo a recomendação da OEA [Organização dos Estados Americanos] que foi colocada para o País de sensibilizar crianças, jovens e adultos (desde o ensino fundamental ao superior) na questão do respeito à mulher.

ND- A mãe tem papel fundamental na educação dos filhos para que cresçam respeitando as mulheres?
MP- Sim, mas é preciso lembrar que as mães e até alguns professores são omissos porque foram educados em uma sociedade machista.

ND- A lei deveria ser mais dura com o agressor?
MP- Acredito que o agressor que está preso deveria passar por uma educação diferenciada também, para entender que o machismo é prejudicial para ele, sob pena de voltar a cometer atos de violência em outros relacionamentos.

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