Maricultores se dedicam ao cultivo de ostras para o verão 2020 na Grande Florianópolis

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Entre o pedido na mesa e a ostra no prato, é difícil imaginar toda cadeia movimentada para a produção desse molusco ícone da gastronomia litorânea de Santa Catarina. Sucesso garantido no verão, o trabalho para que haja as maiores e mais saborosas ostras está em andamento. Maricultores, ou ostricultores, da Ponta de Baixo, em São José, dedicam-se diariamente ao cultivo desde a fase da matriz.

Marciel do Santos tem uma fazenda de um hectare onde cultiva ostras – Marcela Ximenes/ND

O processo começa com a aquisição das matrizes (sementes ou larvas), que é feita junto ao Laboratório de Moluscos Marinhos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Pequena como “um farelo de farinha de quibe”, segundo o ostricultor Marciel dos Santos, as sementes são compradas por milheiros. Entre o pequeno grãozinho até a concha pronta para o mercado são necessários seis meses.

É um semestre inteiro levando e trazendo as ostras do mar para o rancho de pesca onde elas são passadas numa peneira. Um trabalho lento onde a paciência é quem manda. Nada de pressa. Na peneirada, o maricultor separa as ainda sementes por tamanhos, as menores são colocadas num balde-berçário e as não tão pequenas ficam numa grande cesta com divisórias chamada de lanterna.

Após essa seleção, que ocorre a cada 12 dias, baldes e lanternas voltam para o mar. E nesse vai-e-vem as ostras vão ganhando corpo. Para a alta temporada que se aproxima, Marciel adquiriu 30 mil matrizes, que são engordadas na fazenda de um hectare na praia de Ponta de Baixo concedida a ele por 20 anos.

As sementes (matrizes ou larvas) de ostras adquiridas na UFSC – Marcela Ximenes/ND

Quando prontas, as ostras cultivadas por Marciel serão vendidas a dois entrepostos. “Assim é mais seguro, já sei que o negócio é certo. A venda em poucas quantidades é arriscada”, comenta o maricultor.

O que Marciel dos Santos não quer é riscos. Pescador há quase 30, ele aderiu à ostricultura para aumentar a renda. Fez um curso há 20 anos, começou o cultivo de ostras e desistiu após ter perdido toda a produção. “Falaram para gente plantar e esqueceram de dizer que era difícil de vender”, conta.

Após o prejuízo, Santos foi trabalhar como empregado e somente há sete anos retomou a ostricultura. “O mercado melhorou muito”, avalia, e garante agora estar firme.

Mas os riscos continuam. Ano passado, 60% da safra foi perdida porque a temperatura da água superou os 30°C. “Não dá para controlar a natureza”, comenta.

Números do mar

O parque aquícola de São José tem 101 hectares onde trabalham 26 famílias. Anualmente, são produzidas 213 toneladas de mexilhões. Na ostricultura estão cadastradas 19 famílias na Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Inovação, que produzem 431 mil dúzias de ostras por ano.

Tecelão conserta lanternas

O cultivo de ostra dá trabalho. É peneirar, separar, colocar nos celeiros, levar para o mar, trazer do mar e repetir todo o processo. E tem mais: é preciso consertar as lanternas quando rasgam ou têm as cordas rompidas.

Com as mãos experientes de quem já foi tecelão numa fábrica de toalhas em Blumenau e remendou redes de pescas quando jovem, o aposentado Genésio Machado dedica algumas horas do dia para consertar lanternas.

Genésio Machado conserta as lanternas onde ficam as ostras – Marcela Ximenes/ND

Tendo como ferramentas uma faca bem afiada e um isqueiro, Genésio faz os reparos necessários para que as lanternas possam ser utilizadas por mais tempo. Dependendo da situação, um conserto pode levar 15 minutos, como o de trocar uma corda rompida, ou uma hora quando o estrago é maior.

Nascido e criado na Ponta de Baixo, Genésio não tem ideia de quantas lanternas conserta num dia. Sabe apenas que são muitas e que depende de sua saúde. Aposentado por invalidez, sente dores nas pernas, que incham após muito tempo sentado ou em pé. Mas isso não é motivo de reclamação para o experiente pescador-tecelão, ruim mesmo é não poder comer ostras por causa da saúde. “É um castigo”, murmura.

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