Me apaixonei por tua alma

Ignorei o teu corpo miúdo, de beleza fria e clara. Notei, de relance, as marcas na tua pele vulgar, quase descuidada, sem me atentar se eram mesmo marcas, ou desenhos, ou mapas, ou apenas manchas dos meus próprios olhos. Me demorei nos teus ombros porque eles me pareceram sóbrios demais, dotados de valentia e insensatez. Acanhado, mas decidido, explorei os lados de teu rosto com olhar de disfarçada pretensão, no cuidado ingênuo em não cruzar com os teus olhos, que parecem sempre sorrir, piscando fúria e graça entre os dentes. 

Ignorei os teus adornos e enfeites, adereços que te fazem menos natureza, menos flor. És mais campo e floresta, mais clareira e oásis quando descoberta de artificialidades e invenções humanas. Te contemplo como paisagem tropical – areia, vento, litoral – mas ignoro tuas margens, tuas enseadas, teus portos. Ignorei tua superfície para explorar teus interiores além-mar, além-corpo, além-carne. Tua pele e tuas cores não dizem nada que eu não possa saber sem perguntar. Não há enigmas a decifrar na lucidez dos teus cabelos, na clarividência de tuas mãos, na tua boca óbvia. 

Ignorei os teus relevos, mas fiz deles silêncios a serem descarnados. Foi só com o passar dos dias que percebi que ignorei também tuas palavras – poucas mas, ainda assim, tuas. Elas começaram a reaparecer em sonhos, em filmes, em livros, incrustadas em letreiros, em músicas de rádio, nas placas da rodovia. Tua fala me alcançou, onipresente, e eu, fácil, sucumbi a tua voz. Ao relembrar cada palavra, adentrava por teus poros: tu me tinhas sem saber. Atravessei teu sangue, cruzei nervos e rompi membranas até que não pude mais ignorar. 

Descobri tua alma enquanto olhava o mar. As ondas traziam tuas palavras de longe. Talvez de ilhas, continentes, navios ou geleiras. Não importa. Elas quebravam na praia – as ondas e as palavras – e eu não podia mais ajuntá-las. Até tentei. Mas no formar das ondas, tuas palavras também nasciam, íntegras, empurradas pelo vento, e isso já me bastava. Mesmo com pedaços de mensagens, aos poucos fui me dando conta de tua grandeza. O teu corpo, que ignorei, era o mar. E tua alma, a profundeza de tuas palavras. Impossível não ouvir até se molhar. 

O teu corpo, que ignorei e que agora, reparador, me esforço em decorar, é a casa onde os anjos se banham. A tua alma tem asas, e voa. A tua alma tem água, e enche. É por ela que meu coração mareja. É por ela que meus olhos gaivotam. Eles clamam por tua transparência, em gritos míopes, mas tão imperativos como teu verbo eterno.

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