MEMÓRIA DE FLORIANÓPOLIS – A cidade de Nossa Senhora dos Aterros

Quando a descentralização urbana não era possível, os governantes recorreram à fácil solução de afastar o mar da cidade

 O miolo central da Ilha de Santa Catarina foi sendo ajeitado aos poucos, ao longo de muito tempo, para suportar a expansão da malha viária e das edificações públicas, nuns tempos em que não era possível descentralizar Florianópolis. Esse ajeitamento se deu com a formação de inúmeros aterros, que ganharam acréscimos importantes até a década de 1970. Por conta disso, a velha Nossa Senhora do Desterro e, depois, Florianópolis (desde 1894), é chamada pejorativamente – e não sem razão – de “Nossa Senhora dos Aterros”, termo criado, salvo engano, pelo poeta e editor Fábio Brüggemann.

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Uma cidade que tinha a originalidade de uma aldeia perdeu parte de sua identidade em função justamente dos aterros, que afastaram o mar de sua área central. Só na baía Sul foram quatro, começando com a Prainha – que tinha esse nome porque era uma prainha –, depois o chamado “aterro do DNOS (Departamento Nacional de Obras de Saneamento)”, o aterro da Baía Sul e, finalmente, o aterro da Via Expressa Sul. Os dois últimos foram fundamentais para viabilizar um novo sistema viário, capaz de desafogar o trânsito no Centro e no sentido Sul/Leste da ilha e aeroporto (lembrando que a Expressa Sul parou quase no meio, por causa de problemas ambientais). 

Primeira forma da Avenida Rubens de Arruda Ramos (Beira-Mar Norte), há 40 anos: aterros acabaram com a Praia de Fora   - Carlos Damião/1976/ND
Primeira forma da Avenida Rubens de Arruda Ramos (Beira-Mar Norte), há 40 anos: aterros acabaram com a Praia de Fora – Carlos Damião/1976/ND


O fim da Praia de Fora

Mas não foram os únicos aterros que mudaram o cenário da cidade. Ainda na parte central da ilha destacam-se os dois aterros da baía Norte. O primeiro, no final da década de 1960, viabilizou a implantação da Avenida Rubens de Arruda Ramos (Beira-Mar Norte), no trecho entre o final da Rua Felipe Schmidt e as imediações da chamada Pedra Grande, hoje bairro da Agronômica, onde está uma famosa rede de fast food. Entre outros danos, acabou com a charmosa Praia de Fora, onde o povo do Centro tomava seus banhos de mar.

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Os planejadores da época, como o arquiteto Luiz Felipe Gama D’Eça, já imaginavam essa via ligando o Centro ao campus da UFSC, uma vez que o trajeto pela Rua Lauro Linhares (Trindade) deveria ficar saturado em pouco tempo, devido ao próprio crescimento da universidade. Não demorou muito para que surgisse o projeto definitivo da ligação, chamada de Via Expressa Norte, emendando o Terminal Rita Maria até a UFSC, mas com um novo aterro, que garantisse as seis pistas, mais o passeio, com ciclovia. Foi no governo de Jorge Bornhausen e Henrique Córdova (1979-1983). Além do aterro, a Via Expressa Norte rasgou boa parte do manguezal do Itacorubi, coisa impensável nos dias de hoje, devido às rigorosas leis ambientais. 

A duplicação da Edu Vieira

Originalmente, a Via Expressa Norte – hoje chamada genericamente de Avenida Beira-Mar Norte – deveria se ligar à projetada Via Expressa Sul, por meio da duplicação da Rua Deputado Antônio Edu Vieira, no Pantanal. Essa novela, da duplicação, tem mais de 35 anos. E, pelo visto até aqui, não vai cumprir seu objetivo primordial, de promover a formação de um anel viário de contorno do Maciço do Morro da Cruz – a ideia era o motorista sair, por exemplo, do Terminal Rodoviário Rita Maria rumo ao Norte e retornar ao mesmo ponto, pelo Sul, trafegando por vias modernas e adequadas à mobilidade urbana – e sem sinaleiras. Quando se imaginou isso, ainda na década de 1970, Florianópolis não tinha nem 30% dos problemas de trânsito que tem hoje. Mas os urbanistas da época, como o arquiteto Gama D’Eça, enxergavam bem à frente de seu tempo.

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A Via Expressa Sul surgiu nas pranchetas de Gama D’Eça e dos profissionais do governo do Estado e do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis). Foi desenhada nos anos 1970, mas a implantação do aterro teve início apenas no governo de Paulo Afonso Vieira (1995-1999), sendo concluído em etapas pelos governadores seguintes, Esperidião Amin (1999-2003) e Luiz Henrique da Silveira (2003-2011). Está até hoje incompleta, em função de demandas urbanísticas e, especialmente, ambientais.

Uma panorâmica da região central, registrada entre 1955 e 1957: sem aterro, ainda tinha aspecto de aldeia - Zeca Pires/Divulgação/ND
Uma panorâmica da região central, registrada entre 1955 e 1957: sem aterro, ainda tinha aspecto de aldeia – Zeca Pires/Divulgação/ND


O aterro e a passarela jardim

O aterro da Baía Sul é um caso à parte. Foi planejado cuidadosamente pela equipe do governador Colombo Salles (1971-1975). Ele me disse em entrevista que o aterro era inevitável, não havia como implantar a segunda ponte, que levou o nome dele, sem um complexo sistema viário, com equipamentos urbanos importantes, inclusive quadras esportivas e praças. O projeto urbanístico, como é do conhecimento geral, acabou engavetado e deu lugar ao tradicional “jeitinho”, com inúmeros puxadinhos que não têm qualquer relação com aquilo que Burle Marx planejou.

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Monstrengos arquitetônicos foram construídos por causa da rala preocupação do poder público com a estética, e justamente na entrada da cidade! São os casos do Centro Sul, do caixotão chamado de Passarela do Samba Nego Quirido, dos terminais de ônibus, do pinicão da Casan, só para destacar algumas intervenções amadorísticas. Havia ainda o Camelódromo Centro Sul e o Direto do Campo, já demolidos, que igualmente integravam a feiúra urbanística. A única exceção é o prédio do Terminal Rodoviário Rita Maria, resultado de um belo projeto desenvolvido na década de 1970.

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A prefeitura tem um projeto interessante para a revitalização do aterro da Baía Sul, formulado na gestão do arquiteto e professor Dalmo Vieira Filho à frente do Ipuf. Mas a proposta da Passarela Jardim, bonita e adequada à modernidade e à estética, acabou nas gavetas da burocracia, por falta de recursos. E a coisa em Florianópolis é sempre assim: às vezes sobram talento e boa vontade, mas falta o dinheiro necessário. 

O maior aterro já realizado no Continente serviu para implantar Avenida Poeta Zininho - Carlos Damião/ND
O maior aterro já realizado no Continente serviu para implantar Avenida Poeta Zininho – Carlos Damião/ND


Intervenção no Continente

No Estreito, a Avenida Poeta Zininho (Beira-Mar Continental) surgiu também de um grande aterro, que teve início na gestão de Angela Amin (1997-2005) e foi concluído na administração de Dario Berger (2005-2013). Mas a ideia original é que a opção viária seja prolongada até o Jardim Atlântico (mais aterro) e à futura Beira-Mar de Barreiros, São José (outro aterro), encontrando-se ao final com a BR-101 e tornando-se um caminho alternativo à Via Expressa da BR-282 para acessar a rodovia federal. A execução desses projetos continua na gaveta por falta de recursos.