Memória de Florianópolis – A polêmica sobre o ano de fundação da cidade

O ano de 1673 foi aceito oficialmente pela Câmara de Vereadores, mas ainda há controvérsias quanto à data correta em que Dias Velho iniciou a colonização da Capital

Carlos Damião/ND
Placa no monumento a Dias Velho contém informações que não são confirmadas pelos historiadores
Carlos Damião/ND

Francisco Dias Velho: escassez de documentos dificulta precisão quanto à data correta de fundação
Em 23 de março deste ano, fiz uma modesta provocação na coluna (veja reprodução abaixo), chamando para os 342 anos de Florianópolis, ao invés dos 289 comemorados em 2015 – estes, relativos ao período de emancipação, desde quando nos separamos de Laguna, em 1726. Não foi a primeira vez que abordei o caso. Desde 2010, vinha insistindo na discussão quanto à data de fundação da capital catarinense, reconhecida de forma oficial pelo IHGSC (Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina) como 1673. Essa decisão se baseou em pesquisas feitas por historiadores como Evaldo Pauli, Norberto Ungaretti e Nereu do Vale Pereira.
Reprodução/ND

No aniversário da cidade, em 23 de março, coluna já abordava o tema

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O reconhecimento definitivo, por parte da Câmara de Vereadores, a partir de um projeto do vereador Afrânio Boppré (PSOL), aprovado esta semana, está causando alguma polêmica na cidade. A professora Lélia Nunes, do IHGSC e da Academia Catarinense de Letras, lembra que “em 1651 tem-se o registro de um madeiro, erguido por um bandeirante, conforme citação de Gilberto Gerlach no livro ‘Desterro’”. Lélia concorda com o ano de 1673 como o de fundação efetiva, contrariando alguns historiadores que apontavam o ano de 1675.

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Também recebi um extenso artigo do historiador Sérgio Luiz Ferreira, que recupera elementos dessa questão. Conforme Sérgio, a data acolhida pelo IHGSC baseou-se em equívocos cometidos por Pedro Taques (1714-1777), em sua obra “Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica”. Taques mencionou a descoberta das terras da Ilha de Santa Catarina pelo filho do bandeirante Francisco Dias Velho. Mas o detalhe é o que o filho tinha apenas seis anos em 1673.

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“Não há uma fonte primária encontrada até agora que endosse a data de 1673”, assinala Sérgio Luiz Ferreira. Ele cita o pesquisador João Carlos Mosimann, que também mergulhou no assunto. “Diante dos fatos e da documentação hoje disponível, só existem duas alternativas: 1 – Aceitar as vagas e contraditórias referências de Pedro Taques a 1673 como a data da vinda de parentes de Dias Velho à ilha (…). 2 – Adotar o ano de 1679 como o da efetiva fundação, com o definitivo estabelecimento na ilha de Francisco Dias Velho, de um irmão e de um genro (…)”.

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Sérgio finaliza: “Foi em março de 1679 que aportaram as primeiras sumacas (pequenas embarcações a vela) da expedição de Jorge Soares de Macedo, da qual fazia parte Francisco Dias Velho. Foi em março de 1679 que se estabeleceu uma póvoa de caráter dinâmico e de alguma atividade econômica, com continuidade. Na ilha se estabeleceram mestres carpinteiros, oleiros, e ferreiros, os soldados da companhia de Maurício Pacheco Tavares, além dos índios da expedição. Como chefe do arraial, o capitão Manoel da Costa Duarte, que trouxera também seus quinze índios. A assistência espiritual contava com os capelães Frei Lourenço da Trindade e Frei Feliciano de Santa Rosa”.

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E agora? Complicado mesmo. Mas como lembra o próprio Sérgio Luiz Ferreira, “a história é uma ciência dinâmica porque ela se baseia em interpretações e documentos que podem se transformar à medida que novas fontes vão sendo desvendadas”.

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No entendimento deste colunista, o que a Câmara fez foi acatar um parecer definitivo do IHGSC, encomendado pela própria prefeitura há mais de uma década. Portanto, uma decisão oficial, respaldada nas pesquisas dos historiadores citados no início, Pauli, Ungaretti e Nereu. A adoção do ano de 1673 como marco da fundação não impede, no entanto, que outros historiadores continuem pesquisando e nos fornecendo subsídios para desvendar nossas origens.

Intervenção

“Manifestantes exigem intervenção militar no meio campo da seleção brasileira”. Destaque bem-humorado da revista Piauí, no Twitter (@revistapiaui).

Rock na Casa Cor

A Confraria do Chopp Honesto, pub instalado na Casa Cor SC, recebe neste sábado (20), o rock and roll autoral da banda RexNeon, que une o rock setentista de Neil Young e Led Zeppelin a sons mais underground como Velvet Underground e Pixies. A banda, que nasceu entre estúdios e bares do centro de Florianópolis, tem até uma canção em homenagem ao universo das bruxas de Franklin Cascaes, “A Song for Franklin”.

Sebrae popular

Desde o dia 12 deste mês o Sebrae/SC dispõe de um ponto de atendimento no Mercado Público de Florianópolis. O posto funciona diariamente das 9 às 18h, com atendimento individual e gratuito aos empresários e empreendedores, com diversas orientações sobre gestão, ampliação e legislação. Além disso, todas as segundas e quartas-feiras haverá consultores especializados em finanças e, às sextas-feiras, consultores especializados em marketing.

Menos mandatos

A internet tem muitos defeitos, mas também ajuda a melhorar o Brasil quando serve de veículo para atitudes sérias em relação às nossas mazelas institucionais. Um exemplo é o movimento “Fim do político profissional”, que reivindica o máximo de um mandato para cargos executivos e dois mandatos para cargos legislativos. No site do movimento (fimdopoliticoprofissional.com.br) é possível ler as justificativas e participar do abaixo-assinado.

Descaso cultural

O abandono do antigo campo de aviação do Campeche, onde supostamente pousou o autor de “O Pequeno Príncipe”, Antoine de Saint-Exupery, é mais uma agressão à memória de Florianópolis. A prefeitura prometeu resolver o caso nos últimos dois anos, mas nada foi feito. Tudo igual, com a área transformada em lixão: já flagrei caminhonetes de São José e Palhoça despejando entulhos e móveis velhos no local.

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