Revisitando a cidade – Meu primeiro Titanic

Poucos sabem, talvez os mais velhos, mas, onde hoje é o Mercado Municipal, nas cercanias do Moinho, bem lá atrás, nos tempos da Joinville-criança, existia um porto! Duvidam! Consultem então nas fotografias antigas, tem até vestígios do que ele foi um dia. O quê? Nunca andou ali, por trás do mercado? É ali que tem restos de um ancoradouro, um pilar de ferro para amarrar os barcos.

E foi numa dessas amarrações, que um barco marcou a história do meu tataravô, que vem sendo contada em nossa família desde aquela época. E o que ouvi, é mais ou menos assim: “Astrid era linda! Filha de um estivador. Ele era meio liberto, meio escravo, morava em Schroederstrasse, que hoje é conhecida a rua Aubé. Ela era filha de branca com um negro, um escândalo na época, mas para sua sorte, levando-se em consideração a sociedade de então, nasceu morena clara, linda Afrodite. A gente brincava junto desde pequeno, descia de bananeira do rio Cachoeira, escorregava nas águas, ia até longe, depois pegava as margens, e voltava à pé, pelas picadas. Atolávamos na rua, chegávamos sujos em casa, minha mãe se divertia, meu pai detestava.

Astrid, a morena com nome europeu na realidade teve outro nome. Mas foi rebatizada, de forma cristã, e aceitou bem os novos ensinamentos. Bem, essa era ela. Eu, filho do homem mais importante do mundo: meu pai. Ora bolas, ele trabalhava como barqueiro, vinha das terras de São Chico trazendo erva-mate, quase sempre comida, mas era quando ele trazia móveis que seriam levados para as grandes cidades que causava rebuliço no porto. Vinham mulheres de todos os níveis sociais, mas só as madames de então é que tinham a oportunidade ver pertinho os armários, os bidês, os criados-mudos, espelhos emoldurados em entalhes perfeitos.

Foi ali que revi Astrid, depois de 7 anos, ela já moça, e alguma coisa tocou meu cérebro, a minha mão, o meu pé, meu fígado, o coração, o corpo inteiro, ao vê-la ali, de vestido drapeado, chapéu no cabelo, laço de fita e bordados, com movimentos delicados que em nada mais lembravam a menina que afundava junto comigo, na lama. Meu coração de 17 anos disparou. Fiquei tremido, e tremendo. Ela me reconheceu. Eu me envergonhei do bigodinho fininho, ela uma mulher já feita, com contornos de música e instrumentos elétricos. Estendeu o braço, correu até a mim, ouvi de longe um “Espere” e quando vi, já estava alizinha, na minha frente. O sol batia contra a gente e deixava a pele morena dela, dourada.

Estava ali a coisa mais linda do porto. Ela era maior e mais importante e mais moderna e mais silenciosa e mais necessária e mais suntuosa que toda e qualquer embarcação que eu já tinha visto e que a minha vida inteira, mesmo em cem anos, eu jamais veria. Mas foi só o estalo de um beijo. Ela me chamou de menino. O morro da Boa Vista nos sombreava ao fim da tarde, cortando o sol, mas ela continuava dourada. Quando eu tomei conta de mim mesmo, veio um rapagão e a levantou nas alturas. Ele só disse: Rápido!, e nem me olhou. Ela despediu-se e correu com ele para dentro do barco que ia partindo. Foi a última vez que a vi. E cada vez que passo no porto, a vejo ali, de costas para o morro do Boa Vista, partindo, dourada, e afundando meu amor juvenil.”

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