Mistérios de Saint-Exupéry revelados por arqueólogo francês em entretrevista ao ND

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Arqueólogo Luc Vanrell

O arqueólogo marinho Luc Vanrell revela sua emoção ao encontrar os destroços do avião do piloto-escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, quase 60 anos depois de seu desaparecimento.

Em 31 de julho de 1944, o piloto-escritor Antoine de Saint-Exupéry, autor, entre outros, do “Pequeno Príncipe”, desapareceu durante uma missão de reconhecimento na Segunda Guerra Mundial. Por mais de 60 anos, pairou um mistério sobre as condições de sua morte no avião Lightening P-38 que pilotava. Cogitou-se até suicídio. Mas em 1998, um pescador, em Marselha, puxou do mar um bracelete com seu nome gravado. Esse achado levou o arqueólogo marinho Luc Vanrell à descoberta dos destroços do avião de Saint-Exupéry, próximo à ilha de Riou, no Mediterrâneo. Vanrell trouxe à tona o que chamou de “ O último segredo”, título do livro escrito com o jornalista Jacques Pradel (2008). A descoberta de 2002, no entanto, não resolveu todas as controvérsias; ainda é difícil especificar as circunstâncias da queda do avião de Saint-Exupéry. Um piloto alemão, Horst Rippert, confessa ter sido o autor do ataque, mas as provas não são definitivas.

O fascinante tema dos mistérios de Saint-Exupéry faz parte do cenário histórico da Ilha de Santa Catarina, onde ele e outros pilotos da companhia de correio aéreo Aéropostale faziam escala nos anos de 1920. Entre grandes nomes, o de Saint-Exupéry, perfazendo o caminho entre imaginário e realidade fatual, deixou traços na memória popular, como “Zeperri”. Retomando a biografia do piloto e sua passagem por Santa Catarina, é lançado o documentário “De Saint-Exupéry a Zeperri” no próximo dia 12 de maio, em Florianópolis.

A avant-première do documentário “De Saint-Exupéry a Zeperri” ocorreu em 26 de março deste ano, em Toulouse, França, capital europeia do ar e do espaço e antiga sede da AÉropostale. Na ocasião, Mônica Cristina Corrêa *, pesquisadora da história de Saint-Exupéry e da passagem dos pilotos franceses por Santa Catarina, entrevistou Luc Vanrell, presente ao evento. Na entrevista exclusiva que segue, Vanrell fala do pioneirismo francês nessa área, e revela outros segredos sobre o encontro do avião de Saint-Exupéry.

Qual foi a sensação que lhe

causou esse achado?

Vanrell — Vou contar um segredo. A maior emoção para mim foi romântica e casual. Aliás, muito romântica porque eu estava sozinho no mar… Naquele dia, num destroço, eu vi uma coisa como um pano branco quase inacessível e pensei: “que estranho”! Eu consegui pegá-lo E quando o tive entre as mãos, olhei o tecido, era seda, uma seda muito espessa, muito bonita… E percebi que lembrava um lenço, perfeitamente retangular, mas vi que era uma meia de mulher cujo pé havia sido cortado e costurado. A meia teria sido transformada em cachecol. Então, foi uma grande emoção e eu pensei: “Não é possível Só pode ser de Saint-Exupéry, só pode ser seu avião, preciso identificá-lo”. Foi no começo de 1998.

Como interpretou a presença

desse tecido?

Vanrell — Difícil dizer. Ficou claro que era uma meia de mulher transformada em cachecol. Talvez ele a usasse, talvez usasse para amarrar alguns objetos, como uma espécie de elástico.

Você nunca falou disso antes?

Vanrell — Só administrativamente, mas nunca contou como informação. Hoje essa peça está sendo estudada. A primeira resposta que se tem, de especialistas, é que esse tipo de seda não existia na França durante a Guerra, apenas nos EUA, onde então vivia Saint-Ex. Mas talvez fosse apenas algo usado para atrair os peixes. E mesmo depois da Guerra, as mulheres não usariam esse tipo de seda porque em Marselha é mais quente.

Está convencido de que a história da morte de Saint-Exupéry foi revelada?

Vanrell — Eu não acho que o Rippert seja um fabulista. Não posso provar, pois não podemos publicar a entrevista que nos deu, era sua condição. E ao ver toda a mágoa que carrega pelo fato de ter abatido Saint-Exupéry… Estou praticamente certo de que Saint-Exupéry foi abatido por avião de caça alemão em 31 de julho de 1944. E de que foi Horst Rippert.  Ao pesquisar Saint-Exupéry, mexe-se com história, mas também com mito.

Vocês avançaram do lado histórico. Acha que abalou o mito de Saint-Exupéry?

Vanrell — Não, espero reforçar o mito Saint-Exupéry com minhas pesquisas. Simplesmente aumentando sua glória de herói nacional! Seu engajamento custou-lhe a vida! Pôs sua vida em jogo pela liberdade da França e isso faz dele um autêntico herói. E sua carreira militar ficou mitigada, quase anedótica, perto da literária. É importante mudar isso. De algum modo, estou muito satisfeito, pois faltam heróis franceses da Segunda Guerra Mundial, e ele é o mais belo de todos.

O mar revelou muito aos homens?

Vanrell — As técnicas evoluíram, a investigação submarina evoluiu muito rápido na segunda metade do último século 20. O campo é mais vasto, podemos trabalhar mais tempo na água, por exemplo, e somos capazes de trabalhar com vestígios que eram menos visíveis há dez anos. Temos meios muito melhores de investigação. Um grande princípio na arqueologia é saber que precipitação não é boa coisa: faremos melhores explorações em 50 anos. Temos a responsabilidade de não destruir os sítios ao vasculhar, o que às vezes acontece. Só se deve fazê-lo quando é a última maneira de responder a um questionamento científico. Caso contrário, a preparação permite à tecnologia evoluir e, às vezes, em dez anos, é possível tirar mais informações.

* Mônica Cristina Corrêa é doutora em língua e literatura francesa pela Universidade e São Paulo USP

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