Mitos: cultivar ou derrubar?

Só a dúvida leva ao conhecimento, já dizia meu professor de História no ginásio

Responda aí, leitor amante do rock, leitora viúva do Elvis: você comemora o “Dia do Rock”? Em muitos calendários e agendas, a efeméride tá lá. E por quê? Porque Elvis Presley gravou seus primeiros sucessos neste dia, em 1955. Ah, é? É nada! Grupo! Mito! A explicação real: no dia 13 de julho de 1985 foi realizado o festival Live Aid, em Londres e Filadélfia. Na ocasião, Phill Collins, da banda Genesis, que participou dos dois shows, declarou aquele como o “Dia do Rock”. Só que nem os conterrâneos dele nem os americanos levam tão a sério essa data. No “Almanaque do Rock”, o doidão Kid Vinil escreveu que só brasileiros e as rádios rock do Brasil, desde aquela época, passaram a considerar esse o Dia do Rock. A explicação também tá no livro “52 Mitos Pop”, do jornalista Pablo Miyazawa, brasileiro. Ali ele detona algumas crenças, boatos e, claro, mitos do universo pop, de Elvis (nem foi dia 13, mas 5 de julho de 1955 que ele entrou no estúdio) aos Simpson (ele preveem o futuro?), da missão Apollo (foi um filme de Kubrik?) a “Star Wars” (Han Solo atirou primeiro no “Episódio IV”?).
Se no tempo em que esses mitos foram criados sua difusão era rápida, imagine agora, na era da internet. Pois o Pablo Miyazawa decidiu colocar sua experiência na cultura pop para tentar separar trigo e joio, fato e ficção. Saiu um livro bem divertido, fácil de ler, bem-humorado, cheio de histórias de bastidores (na livraria A Página, aqui em Joinville, eu sei que tem). O livro é interessante não só pra fãs de cultura pop, mas agrada a qualquer um que goste de mythbusters. Afinal, o que não falta é lenda urbana por aí (vide as besteiras difundidas via WhatsApp) e teorias da conspiração (A Disney esconde mensagens subliminares em seus desenhos?).
Não vou entregar o conteúdo do livro (literatura também tem spoiler), só espicaçar a curiosidade do leitor. O Coringa enlouqueceu Heath Ledger? J. K. Rowling não escreveu os livros de Harry Potter? “De Volta Para O Futuro” de fato previu o futuro? Lewis Carroll estava doidão quando escreveu “Alice no País das Maravilhas”? Todo mundo morreu no último capítulo de “Família Dinossauro”? Pink Floyd compôs The Dark Side Of The Moon para acompanhar “O Mágico de Oz”? Rose poderia ter salvado Jack em “Titanic”? Os bonecos de Xuxa e Fofão eram amaldiçoados? (eita!) Existe uma maldição sobre o elenco de Poltergeist?
Os Flintstone e os Jetson, lembra-se deles, telespectador de desenhos antigos? Há um mito aí também. Como ambos são do estúdio Hanna Barbera, dizem que os enredos se passam na mesma época, já que os Jetson estão numa atmosfera “acima do normal”, e os Flinstone têm tecnologias modernas para um mundo jurássico. Sinistro, né? Nem os cartuns escapam.
Quer saber se tudo isso é mito? E como chegou a tal? Ah, sim, isso é importante: o autor explica como os boatos se originaram. Cabe ao leitor intuir se as explicações são reais ou não – mito sobre mito?
Nunca escrevi uma crônica com tantos pontos de interrogação. Mas eles são bons pra nos provocar. Só a dúvida leva ao conhecimento, já dizia meu professor de História no ginásio. E depois tem outra coisa: é bom derrubar mitos? Se em todo 13 de julho você comemora o Dia do Rock ouvindo Elvis o dia todo, beleza. É um mito saudável. Mantenhamo-lo, pois, já que pra nós Elvis não morreu.