Moradores revelam porque o bairro Jardim Paraíso é o seu paraíso muito particular

Fabrício Porto/ND

Ruas asfaltadas e boas escolas são alguns dos pontos positivos do bairro que tem em torno de 20 mil moradores

“Este é o meu bairro. O Jardim Paraíso é o meu paraíso. Aqui eu cresci, estudei, fiz amigos. Aqui fui e continuo sendo muito feliz. Não troco este lugar por nenhum outro.” O músico Jocenir Vieira, 28 anos, ilustra bem o sentimento de amor e a cumplicidade que boa parte dos moradores do Jardim Paraíso tem pelo emblemático bairro da zona Norte de Joinville. Com população de pouco mais de 20 mil habitantes e distante dez quilômetros do Centro, o bairro vem desde meados dos anos 2000 ganhando e alimentando fama de ser violento, em função do elevado número de assassinatos lá registrados. Foram 19 em 2015, e quatro até o momento, neste ano.

Mas o Jardim Paraíso voltou a ganhar atenção neste mês por ter sido palco de um dos crimes mais macabros da história policial catarinense: o assassinato de um adolescente de 17 anos e a sua decapitação, a golpes de machado, tendo como protagonistas outros rapazes, provavelmente tão jovens quanto ele, tudo filmado, editado com trilha sonora e postado em redes sociais. Até o momento, apenas a cabeça dele apareceu, em uma sacola logo na entrada do bairro, e a polícia ainda não chegou aos assassinos.

Apesar desta história e os inúmeros assassinatos lá ocorridos nos últimos anos, para os moradores que levam suas vidas longe do mundo do crime, o consenso é de que o bairro não é tão violento. “Temos casos de homicídios, que geralmente estão ligados com disputa pelo tráfico de drogas, como em todos os cantos da cidade. Mas nosso bairro não pode ser chamado de violento. Aqui não há assaltos nem furtos. Eu, por exemplo, não tenho medo de andar sozinho de noite na rua. Precisamos acabar com este estereótipo de que o Paraíso é um bairro violento. Não é. Aqui é lugar de gente trabalhadora, gente honesta”, enaltece Jocenir Vieira.

Fabrício Porto/ND

Talita e sua filha Cecília: ela se sente segura e elogia as escolas do bairro

O preconceito com o bairro é sentido pelos moradores, no dia a dia. Às vezes, é uma pizzaria que não faz entregas no Paraíso, ou uma loja que prefere terceirizar ou evitar entregar um móvel ou equipamento. “As piadas pejorativas contra os moradores e o bairro são frequentes. Sempre tem um ou outro que fica abismado ou assustado em saber que a gente vive aqui. Estas pessoas estão erradas, porque aqui é um bom lugar para se viver”, pontua a técnica de enfermagem Talita Campo, 32.

Ela cita muitos pontos positivos no Paraíso. “É tranquilo, acolhedor. Me sinto bem aqui, me sinto segura e feliz. Aqui temos posto de saúde, boa parte das ruas são asfaltadas e tem bastante escolas. A educação é excelente e rendeu até um prêmio a uma aluna do bairro no ano passado”, cita Talita, referindo-se a Jéssica Cardoso da Silva, 15 anos. Aluna do 9º ano do ensino fundamental na Escola Municipal Professora Rosa Berezoski, ela obteve nota dez em todas as disciplinas durante o ano letivo.

Estatística policial aponta poucos crimes contra o patrimônio e pessoas

Dados estatísticos da Polícia Militar demonstram que os moradores estão certos em dizer que o Jardim Paraíso não é o mais violento. Se de um lado, o bairro é o recordista em armas apreendidas pelo 8º Batalhão da PM, ocupa a quarta colocação no ranking de pessoas detidas. Já com relação a crimes de furto e roubo, o Paraíso fica na 18ª posição entre os 23 bairros que compõem a área de atuação do 8º BPM. “O Jardim Paraíso não é o mais violento da cidade. Temos alguns casos graves lá que exigem um olhar e uma atenção, mas não podemos dizer que é um bairro perigoso”, comenta o tenente-coronel  e comandante do 8º BPM, Joffrey Santos da Silva.

Segundo ele, a população tem sido a grande parceira da PM. “Temos uma relação bastante próxima da comunidade. Isso nos permite conhecer não só o problema, mas também as causas. Não podemos admitir nem ficar refém de pequena quantidade de pessoas que querem fazer o mal”, complementa o comandante do 8º BPM.

As polícias Civil e Militar já afirmaram em outras oportunidades que o bairro Jardim Paraíso é palco de uma disputa sangrenta pelo tráfico de drogas por duas facções criminosas: o PGC (Primeiro Grupo Catarinense) e PCC (Primeiro Comando da Capital). Mas esta rixa não seria apenas no Paraíso. As zonas Sul e Leste da cidade também sofrem com a violência destes dois grupos rivais.

Facções

No início do mês, uma semana depois do crime macabro que vitimou o adolescente Israel Melo Junior, equipe da DIC (Divisão de Investigação Criminal) da Polícia Civil anunciou a prisão de um homem apontado como líder do PCC em Santa Catarina. Ele foi detido com a companheira, ambos seriam moradores da rua Vupécula. Um revólver foi encontrado na casa dos suspeitos, que estão detidos em uma unidade prisional não informada pela polícia.

Mas pelas ruas do Jardim Paraíso, os moradores não se sentem ameaçados pelas facções. “Só morre quem tem feito coisa errada. A gente escuta falar das facções, de que fulano pertence a uma, ciclano pertence a outra, mas as brigas são internas, entre eles. Isso não interfere na rotina dos moradores”, disse um comerciante que prefere não ser identificado.

Histórias de amor explícito pelo bairro Jardim Paraíso

A generalização que machuca

Divulgação/ND

Inês elogia os batalhadores

“Para mim Joinville é uma cidade de oportunidades. As pessoas, muitas vezes, chegam aqui sem nada, mas com muita força e trabalho constróem uma vida nova. Logo conseguem colher frutos e a vida melhora. No Jardim Paraíso, também é assim. Temos profissionais de referência, estudantes em vários cursos e faculdades e aqui no nosso bairro está o melhor time de futebol feminino. Somos presenteados pela natureza com rios e matas, sambaquis e a capela Nossa Senhora das Dores, a mais antiga de Joinville. Quando atuei com as famílias nas áreas de ocupação vivenciei o sofrimento deles. A generalização é cruel e machuca muito as pessoas que levam uma vida digna e apenas querem tocar suas vidas sem problemas com ninguém. Como moradora sempre participei das lutas do Jardim Paraíso. Aqui nada vem ou veio sem que fosse preciso a comunidade reivindicar. Somos discriminados, ofendidos diariamente, somos motivo de piadas nas redes sociais e vida real. Muitos comprovadamente deixaram de entrar no mercado de trabalho quando falavam que moravam no Paraíso. Serviços de entrega recusam o pedido se o cliente é do Paraíso. Mas tem coisas boas e muitos projetos sociais que ajudam a amenizar as dificuldades. Agora é preciso que o estado também compareça e faça sua parte. Precisa-se políticas públicas eficientes em todas as áreas. É urgente a necessidade de estruturar os serviços de segurança pública para que a sensação de impunidade não seja tratada com descaso”.

Inês Gonçalves, 47, mora há 27 anos no Jardim Paraíso. Ativista conhecida na comunidade, ela coordena o conselho comunitário do Jardim Paraíso e já foi presidente da Associação de Moradores Canto do Rio, presidente do Conseg e do Conselho Local de Saúde e agente comunitária

Uma comunidade que cresce com o seu bairro

Arquivo/ND

Vereador Manoel Bento

“Nos últimos anos, o Jardim Paraíso tem se desenvolvido bastante e se estruturado com um bairro importante na cidade. Foi um dos bairros que mais receberam investimentos. Temos boas escolas, postos de saúde, asfalto de qualidade e o saneamento vem sendo feito. Tudo isso reflete na vida, no dia a dia do morador. O bairro cresce e a comunidade também. Mudamos algumas leis e hoje o Paraíso que não podia ter nem material de construção, tem lotérica, e vários comércios. Mas ainda é preciso avançar em alguns pontos. Criar mais áreas de lazer, sei disso e estou lutando para trazer recursos e garantir estes espaços. Além disso, meu trabalho para reduzir as áreas de ocupação não só no bairro, mas em toda cidade é prioritário. Quanto à fama de violento, acho que o Jardim Paraíso se transformou em uma vítima, porque muitos destes crimes vêm de fora, de outros bairros. Por ser uma região mais periférica e com poucas saídas, a gente acaba pagando este preço. Mas a violência está em todo lugar, assim como na zona Sul. O Estado precisa fazer sua parte para melhorar a segurança pública com tempo”.

Manoel Francisco Bento, 53 anos, vereador e morador do Jardim Paraíso

Ela não troca o bairro por nada

Fabrício Porto/ND

Elizete, o marido, Pedro, e o neto, Enzo: investimentos no bairro

“Moro no Jardim Paraíso há 18 anos. Não troco este lugarzinho por nada. É um bairro de oportunidade, de gente boa, trabalhadora. Temos alguns problemas com a segurança, assassinatos, sim, mas quem está morrendo é porque tem ligação com coisa errada. Aqui eu e minha família construímos nossas vidas e somos felizes.”

Elizete da Silva Floriano, 47, anos, moradora do Jardim Paraíso há mais de 18 anos. Com o marido, Pedro Paulo Rodrigues, 55, ela abriu uma loja de roupas há poucos meses

Tristeza com os preconceitos vivenciados

Fabrício Porto/ND

Jocenir pede mais áreas de lazer, banco e lotéricas

“Eu me criei no bairro e gosto muito daqui. Somos bastante ligados à comunidade. Eu fui catequista e minha mãe também. Sempre estivemos envolvidos em projetos que ajudasse a desenvolver nosso bairro. Fico triste com alguns preconceitos que vivenciamos pelo simples fato de morarmos aqui. Pessoas de fora não conhecem o quanto o Paraíso é bom. Quantas pessoas boas e decentes existem aqui. É preciso ação da Polícia, do Estado, e da comunidade para juntos pensar a segurança como um todo. A gente precisa de mais rondas policiais aqui no bairro. Outra necessidade é áreas de lazer, banco e mais lotéricas. Mas acredito no bairro, acredito nas pessoas que vivem aqui. Tanto é que estou construindo minha casa, aqui, pertinho de onde moro com meus pais. Não quero sair do meu Paraíso.”

Jocenir Vieira, 28 anos, mora no Jardim Paraíso desde os primeiros meses de vida. Ele é cantor na dupla Thallys e Vinícius

Ela não deixa Joinville nunca mais

Fabrício Porto/ND

Antônia está realizada com as conquistas de Joinville

“Tudo o que tenho hoje foi conquistado aqui em Joinville, mais especificamente no Jardim Paraíso. Há 13 anos, deixei Curitiba para construir uma nova história em Joinville. Viemos eu, meu marido e os três filhos. Logo ,ele conseguiu trabalho e conseguimos adquirir algumas coisas. Um tempo depois resolvemos voltar à capital paranaense. Mas lá, depois de um assalto, perdemos tudo. Voltamos a Joinville para recomeçar. Hoje, meu marido tem uma oficina, temos casa própria e somos muito felizes aqui. Não quero deixar Joinville nunca mais. Aqui, estamos envolvidos em projetos sociais na igreja e com muito trabalho estamos conseguindo atuar e mudar a realidade de alguns jovens. A gente fica triste com estas mortes que vem acontecendo. Nunca é só mais um, sempre tem uma família uma história, mas o bairro em si não é violento. Precisamos de mais policiamento, não apenas quando acontecem mortes. Precisamos também de áreas de lazer, para esporte, meu filho, por exemplo, tem que ir ao Aventureiro para usar a pista de skate que não tem aqui no Paraíso.”

Antônia Maria da Costa, 38 anos, massoterapeuta, mãe de três filhos, moradora do Jardim Paraíso há mais de 10 anos. Ela atua com jovens em um grupo da Igreja do Evangelho Quadrangular

Conhecendo melhor o Jardim Paraíso

Como surgiu e como é

– O bairro surgiu de uma antiga ocupação na região chamada de Cubatão, devido ao rio que passa no local.

– As terras pertenciam à São Francisco do Sul. Só em abril de 1992 o bairro foi anexado ao município de Joinville

– Grande parte das ocupações foram regularizadas ao longo dos anos. Em 2001, eram 142 famílias, em 2007, 124. No ano passado, 32 famílias foram realocadas para o Residencial Engenheira Rúbia Kayser.

– Hoje são 82 famílias ainda vivendo de áreas de ocupação. Dessas, 30 irão para as casas que estão sendo viabilizadas pela prefeitura e 52 para lotes urbanizados no bairro.

Jardim Paraíso | números:

Área: 3,22 km2

Distância do Centro: 10,09 km

População 2014: 18.072 habitantes

Rendimento Médio Mensal em Salários Mínimos: 1,16 sm/mês

Fabrício Porto/ND

Equipamentos de lazer sem manutenção

Jardim Paraíso | estrutura:

Parques/praças: Praça Diana Cristina da Silva Wessling, Área de Lazer no Jardim Paraíso 2

Saúde: Quatro unidades básica de Saúde e um módulo odontológico

Educação: dois Centros de Educação Infantil, seis escolas municipais e uma estadual

Jardim Paraíso | o que ainda falta

– Terminar saneamento básico

– Acabar com áreas de ocupação

– Mais lotéricas e bancos

– Mais áreas de lazer

– Mais policiamento ostensivo e investigação dos crimes contra a vida

Jardim Paraíso | Dados policias

– É o bairro com mais armas apreendidas na área do 8º Batalhão, o que corresponde a 17,8% do total.

– Ocupa a 4ª colocação no ranking de pessoas detidas, o que corresponde a 6,7% do total.

– Foi o 4º bairro com mais mandados de prisão cumpridos, correspondendo a 8% do total.

– Foram registrados apenas a 1,3% dos roubos na área do 8º BPM, ficando em 17ª colocação entre os 23 bairros.

– Foram registrados apenas 1,6% dos furtos na área do 8º BPM, ficando em 18ª colocação entre os 23 bairros.

– Nas ocorrências de tráfico de drogas, o Jardim Paraíso ocupa a 6ª colocação entre os 23 bairros, com 6,8% das ocorrências atendidas.

Fonte: 8º BPM. Os percentuais são em relação aos 23 bairros atendidos pelo 8º Batalhão

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