‘Não deram nada’, diz entregador sobre itens de prevenção à Covid-19

Atualizado

“Os aplicativos deixaram a desejar”, afirma o entregador Douglas de Campos Petrof, de 24 anos, ao ser questionado se recebeu alguma orientação dessas empresas sobre a prevenção à Covid-19.

“Eles mandam algumas mensagens falando para a gente se prevenir e evitar contato, mas elas não aparecem sempre. E não distribuíram nada”, conta em referência aos itens de higiene recomendados por autoridades de saúde.

Entregadores ficam expostos ao novo coronavírus – Foto: Anderson Coelho/ND

De acordo com Rosylane Rocha, presidente da ANAMT (Associação Nacional de Medicina do Trabalho), a melhor maneira de proteger quem não tem condições de ficar em isolamento social é fornecer informação contínua, álcool em gel e dar treinamento em relação à higienização.

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“Mas não é só dar o treinamento e entregar o álcool gel. Tem que ter esse reforço diário [sobre a prevenção]”, enfatiza. Para ela, é preciso explicar que eles precisam higienizar onde tocam, passar álcool no guidão da moto, na tampa do baú em que fica armazenada a comida a ser entregue. “Tem que orientar a deixar o calçado do lado de fora e tirar a roupa quando chega em casa”, acrescenta.

Rotina intensificada

Douglas mora com a mãe e a irmã. Ele sempre deixa seu calçado do lado de fora quando volta para seu apartamento, mas tem poucas blusas para trabalhar, então não consegue lavá-las todos os dias.

“Mas borrifo álcool e deixo ela pendurada na moto lá na garagem, porque o apartamento é pequeno, aí não dá pra pendurar lá dentro”, conta. “Minha maior preocupação é o pessoal de casa”, desabafa.

O jovem costuma trabalhar cerca de dez horas por dia para diferentes aplicativos de entrega: Uber Eats, Ifood, Rappi e Loggi. Mas diz que ultimamente o movimento tem sido fraco, então resolveu aumentar seu expediente.

“Começo a trabalhar oito da manhã e volto meia-noite. A gente acaba ficando mais de dez horas para tentar fazer o valor que faria antigamente”, relata.

Além disso, há um aumento na força de trabalho. “Agora, tem mais motoqueiro que o comum. Quem usa o aplicativo como segunda fonte de renda está disponível agora, que outras empresas estão em quarentana”, observa.

Em São Paulo, nesta quarta-feira (25), o Sindimotosp (Sindicato dos Mensageiros, Motociclitas, Ciclistas e Mototaxistas Intermunicipais do Estado de São Paulo) e a UGT (União Geral dos Trabalhadores) denunciaram que os motoboys estão trabalhando sem álcool gel, luvas descartáveis e outros materiais essenciais para garantir a segurança em sua jornada de trabalho, durante a pandemia de coronavírus.

Outro lado

O IFood informou, por meio de nota, que criou um fundo solidário no valor de R$ 1 milhão para dar suporte àqueles que necessitem permanecer em quarentena.

“A orientação ao entregador que tenha suspeita ou confirmação do COVID-19 é que siga todas as recomendações de saúde transmitida pelos órgãos públicos (também compartilhada pelos canais específicos de comunicação do iFood com o entregador)”, afirma o aplicativo

Rappi afirmou que mantém uma rede de comunicação ativa para promover as mensagens de prevenção contra a Covid-19, incentiva o pagamento via aplicativo, disponibiliza a opção de entrega em domicílio sem contato físico e álcool gel 70%.

Assistência financeira

Uber anunciou neste terça-feira (24) um programa para “apoiar seus parceiros”. A iniciativa inclui o desconto em consultas médicas e exames laboratoriais feitos na rede privada.

Além disso, a empresa diz que todo entregador diagnosticado com Covid-19 ou em quarentena recebe uma ajuda financeira por 14 dias.

“O valor da assistência financeira vai ser baseado na média diária de ganhos do parceiro nos seis meses anteriores a 6 de março: caso ele esteja usando o app há menos tempo, a média vai ser baseada nos ganhos desde a primeira viagem ou entrega até o dia 6 de março de 2020”, esclarece.

Por meio de mensagens, a empresa diz que incentiva a entrega sem contato físico e lembra seus parceiros sobre como seguir as orientações de prevenção dadas pelas autoridades de saúde.

Rosylane reconhece que as opções de entrega sem contato físico e de pagamento via aplicativo auxiliam na prevenção da Covid-19, mas ressalta que os trabalhadores continuam expostos ao vírus. “Então, tem que haver o treinamento”, enfatiza.

“Esse é o momento para ficar em casa. Isso vai evitar perdas e o caos no sistema de saúde”, finaliza.

Saúde