Nenhuma aurora é vã

Tenho a madrugada entre os dentes. Uma estopa embebida em sal para aplacar a dor que antecede o sol. Há um vão entre o breu reinante que espeta o céu da boca e a claridade que germina oculta em algum lugar após a extensa varanda do mar. Enquanto mal rumino uma luz negra que escapa pelas tramas frágeis do pano, sinto o gosto acre da noite apodrecendo. Não sei se longe ou perto, mas a percebo se decompondo no roer faminto das horas, numa arrastar de ossos sobre cimento seco, mas rápida como flecha lançada por exímio arqueiro. 

Não sei se longe ou perto. O que chega até mim é um vento nublado, um ar insosso de incandescências, um vulto de penumbras destroçadas, quase o sopro da morte, quase um corpo enfermo se projetando sobre meu rosto desguarnecido de lucidez. Meus caninos mordem o escuro, mas o escuro não se deixa marcar porque é uma placa de zinco que ressoa sombras ao menor toque, mesmo ao mais sutil arrastar das mandíbulas. 

O que chega até mim é um som confuso. Sirenes gritando nomes, gritos serenando atrás dos muros, o estrondo das ondas no lombo das rochas, o canto das sereias, passos descompassados de alguém perdido numa esquina próxima. Ou distante. Não dá para definir. Porque o ruído vem nítido até se perder a meio metro da boca, tomando desvio pelas paredes mal rebocadas – pena terem ouvidos e não falarem. É minha respiração desarrumada quem barra o barulho de fora – noto isso quando seguro o ar. 

Mas talvez todos os sons seja apenas uma balbúrdia exaustiva dos pulmões. Sirenes tentando soar, gritos tentando dizer, ondas tentando avisar, sereias tentando acudir, passos tentando alcançar. É de dentro – penso –, por entre correntezas de sangue e correntes de ar, que surgem as melodias. O amanhecer – medito – nasce primeiro nas ilhas que temos embaixo da pele. Me agarrando nesta pálida esperança, mordo os fios da madrugada ainda com mais força, na intenção de romper seus nós de negrume e veneno. Sorvo da noite, já quase desfeita em carcaça, o amargo do remédio que cura. Cuspo as sobras de insônia e desamarro os olhos para testemunhar o dia. 

No vão entre o breu e a claridade se desenha um horizonte ainda trêmulo e embaçado. Sobre a lâmina de água, a escuridão resiste como um câncer até desistir e ser apenas nuvem, névoa e pó. A garganta, aliviada, liberta as palavras aprisionadas por horas na traqueia. Ouço o rugir das rochas no exato momento em que o Sol corta o último cordão negro da noite. A música que sai dos pulmões tem um brancor sápido e vivo. Sereias cantam dentro de mim transformando todos os choros em manhãs adornadas por orlas, ondas e marés. 

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