No Dia dos Finados, conheça as histórias de três cemitérios de Florianópolis

No Itacorubi, o maior cemitério de Santa Catarina, mantém indigentes por apenas quatro anos

“Isso é essencialmente cristão, o que interessa é retornar a Deus depois da travessia terrestre. Hoje é o um dia de saudade.” George Richard Daux, 71, diz que o Finados não dia de lamentações, mas de celebração da vida eterna. Como desde sempre, neste dia, passa pelo Campo Santo da Irmandade Senhor dos Passos, junto o Imperial Hospital de Caridade, um dos mais antigos cemitérios da Capital, fundado em 1852. 

Daniel Queiroz/ND

O cemitério fica ao lado do Imperial Hospital de Caridade

Caminhar entre os 17 jazigos e 660 gavetas é mergulhar na memória da cidade. Ali estão enterrados, por exemplo, membros da família Hercílio Luz, o governador Adolpho Konder, Conselheiro Manoel da Silva Mafra, Monsenhor Francisco Topp, Antônio Vicente Bulcão Viana e a poetisa Deominda da Silveira. Cuidados pelos membros da irmandade, muitos não recebem visitas de familiares, que se dissolveram ao longo das gerações, mas que não deixam de serem lembrados e reverenciados no feriado católico. “Aqui estão personalidades da nossa história, a irmandade procura preservar essa memória, mesmo que muitos já não tenham mais familiares vivos”, conta Daux, membro da Irmandade Senhor dos Passos.

O casal José Lúcio Bruno e Maria Madalena Rosa Bruno conta que o momento é de lembrança, de rememorar a alegria em vida dos que já se foram e prestar homenagens. “Sempre viemos no Dia de Finados, acompanhamos a missa, e trazemos flores”, conta Madalena. No cemitério estão três gerações da família Bruno.

Chuva reduz o movimento no Itacorubi

Nem mesmo a segunda-feira chuvosa impediu o dia de homenagens e lembranças. No maior cemitério da cidade, o São Francisco de Assis, no Itacorubi, cerca de 10 mil pessoas devem passar pelo local durante todo o dia. “Eu venho todas as quintas-feiras, não só no Dia de Finados. A saudade é muito grande”, conta Andreia Ribeiro, 42, que ao lado do marido Adriano Costa, 43, acendeu uma vela e deixou um ramo de flores numa das gavetas do cemitério do Itacorubi.

Em todos os cemitérios foram celebradas missas e momentos de celebração religiosa. Um grupo da comunidade Shalom de Santa Catarina levou um coral para o São Francisco de Assis. “Esse dia é o dia do encontro com aquele que vive. É um momento de felicidade, de saudade”, disse Arthur de Amorim, 22.

Daniel Queiroz/ND

O Itacorubi é o maior cemitério de Santa Catarina

Sem memória da vida terrena

Sem nome na lápide, a memória daqueles que são enterrados como indigentes é curta, dura apenas quatro anos no cemitério do Itacorubi. Depois desse tempo, os enterrados como “desconhecidos” são exumados e dão lugares a novos mortos. Atualmente, espalhados pelo setor das gavetas, onde está a ala dos carentes, os indigentes somam 15 pessoas esquecidas.

Esquecidos também são aqueles cujos jazigos não foram escovados e lavados no Dia de Todos os Santos, não ostentam flores e em alguns casos sequer apresentam nome datas. Em meio ao movimento de pessoas, às luzes de velas e das homenagens que tomam conta dos cemitérios, os túmulos depredados e abandonados se destacam. Em raras exceções, algum conhecido distante, ou um religioso caridoso, ascende uma vela. “Deus é que sabe de nós, não adianta reclamar da chuva, não adianta achar que nós não vamos morrer, porque isso é ele quem decide”, orava Maria Dolores da Silva, 65 anos, uma das almas caridosas diante do túmulo de um desconhecido, sob a chuva forte.

Cemitério da Paz

A família de Daux não está mais no cemitério do Caridade. “Durante um período, quando o cemitério não recebia mais enterros, teve um período de abandono e de violações, nessa época mudamos o jazigo da família para o Jardim da Paz”, contou.

Os campos verdes do Jardim da Paz ficaram coloridos. Sem velas, sem túmulos, o cemitério inaugurado em 1983 trouxe uma concepção de serenidade e paz, sem lembranças de tristeza. O lugar é novo abrigo das famílias tradicionais e personalidades da cidade. Aqueles que mantêm tradição de ascender velas, devem fazer em um lugar especial, onde também são realizadas orações e homenagens.

Daniel Queiroz/ND

O verde do gramado do cemitério Jardim da Paz fica colorido com as flores levadas pelos familiares

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